Mauro Xavier
Mauro Xavier

Economês/futebolês: um guia prático para pensar o Benfica do futuro

Dentro e fora das quatro linhas, o futebol é um jogo em constante evolução. Mas se, como dizem alguns, o velho WM poderá estar de volta aos esquemas táticos, do ponto de vista da gestão ninguém imagina entregar um negócio que vale hoje milhares de milhões de euros aos modelos associativos e amadores dos primórdios. Muito do que atualmente conta para os destinos de um clube joga-se não no campo, como nos habituámos a conhecer, mas no mercado, e numa linguagem e nuns termos por vezes tão difíceis de entender e pronunciar para o adepto como o de um promissor extremo-esquerdo húngaro ou do mais obscuro box-to-box sueco. Aqui segue um pequeno contributo para o tentar ajudar a perceber melhor o momento que o Benfica vive do ponto de vista financeiro.
 
Os 3 modelos de clube
Nos dias que correm, existem fundamentalmente três grandes modelos de clube: o clube detido a 100% pelos sócios; o clube detido a 100% por um dono/proprietário; e o modelo misto, em que o clube permanece dono da maioria do capital, mas uma parte está dispersa no mercado. Este é o modelo do Sport Lisboa e Benfica, será sempre o melhor para um clube da sua natureza e nunca poderá ser outro: um histórico, com uma enorme massa adepta, mas que se atualiza e não deixa ultrapassar. Permanece nas mãos dos sócios e, ao mesmo tempo, ganha uma forte componente empresarial.
 
Os dividendos
Porém, este modelo pressupõe a distribuição de dividendos – isto é, a distribuição de lucros pelos acionistas. Afinal, o modelo é misto justamente porque representa dois tipos de ligação ao clube: a do sócio, que é emocional, e a do acionista, que é um investimento. Se investimos, esperamos retorno, rentabilidade – e isso nunca aconteceu ao longo destes anos de Benfica na Bolsa.
Em 2007, quando lançou as ações, o Benfica estimou o preço unitário em 5 euros e o mercado respondeu positivamente, com excelente procura. O problema é que, nestes quase 15 anos, as ações desvalorizaram inúmeras vezes e nunca deram dividendos.
 
Valor das ações vs. Valor da empresa
Quando isto sucede a uma empresa cotada, é sinal de uma de duas coisas: ou a empresa está em queda, a perder mercado, ou, simplesmente, que os dividendos não justificam o valor das ações. No caso da Benfica SAD, em que nunca houve dividendos, preço algum justificaria o investimento. Felizmente para nós, benfiquistas, nada disto significa que a Benfica SAD não tivesse valor de mercado. Significa apenas que foi decisão da sua direção, ao longo dos anos, utilizar os lucros da sua atividade para reinvestir ou ir pagando à banca, em vez de remunerar acionistas. Foi uma estratégia, uma opção desvalorizando os acionistas.
 
A recompra de ações
Num cenário como este, um instrumento interessante é a recompra de ações. Se a empresa entende que o valor dos seus títulos está demasiado baixo, pode comprá-los de volta – e aqui o Benfica falhou. Não o fez e deveria tê-lo feito, sobretudo quando as ações estavam a dois ou três euros – ou mesmo a 1,10€, como chegaram a valer, e que foi quando José António dos Santos, o contrariado "rei dos frangos", investiu.
 
A OPA, essa desconhecida
Mas esteve bem depois, noutro momento: o da OPA (a polémica Oferta Pública de Aquisição). Apesar do ruído gerado em volta, o que o Benfica tentou fazer então foi justamente recomprar as ações, devolvendo o clube totalmente a si mesmo, isto é, aos sócios, regressando ao primeiro e mais clássico dos três modelos de clube que vimos acima. Por razões de outra ordem, a CMVM, Comissão de Mercado de Valores Mobiliários, não autorizou o negócio, mas, do ponto de vista económico, ele fazia todo o sentido para posteriormente revender a um parceiro estratégico.
 
O aumento de capital
Hoje, há um potencial investidor (John Textor) que quer 25% do clube sem dizer ao que vem, o que pretende para o Benfica ou sequer para ele mesmo.
Em rigor, não tem de o dizer nem há até aqui, na ótica do investidor, nada de errado. Mas, do ponto de vista do clube, é preciso pensar se é isto que pretende.
O que o Benfica deve fazer hoje é encontrar um parceiro. Um investidor que o acompanhe num aumento de capital. Ao aumentar o capital e, portanto, o número de ações, está a valorizar os ativos da sociedade e, ao mesmo tempo, a reduzir a posição dos acionistas atuais. O que significa, entre outras coisas, que, numa futura venda de ações, o clube terá lucros a receber, ao contrário do que sucederá agora se John Textor comprar por 8,7€ as ações que José António dos Santos adquiriu por 1,10€ e em que os ganhos reverterão totalmente para o dono da Valouro.
 
Clube de sonho procura investidor perfeito para relacionamento sério
Dito isto, no caso das ações de Luís Filipe Vieira, o Benfica não deve usar o direito de preferência. Estão acima do valor de mercado e adquiri-las não produziria qualquer alteração relevante relativamente ao controlo do clube.
Se o Benfica quer planear estrategicamente o futuro – e não passa pela cabeça de ninguém que não queira – é isto que tem de fazer: encontrar o investidor certo, em vez de esperar que, um dia, ele apareça, caído do céu.
É a mesma lógica que dentro do campo: outros clubes, noutras partes do mundo, pensarão de outra maneira; no Benfica, gostamos de ter a bola.

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