Mauro Xavier
Mauro Xavier

Prognósticos antes do fim jogo

Dizia em tempos um jogador de outras paragens que, prognósticos, só no fim do jogo. Arrisquemos desafiar essa máxima revolucionária e devolver os fatores à ordem original: a menos de dois meses das eleições, que prognósticos fazemos para as Presidenciais do Benfica? Que conclusões retirar da campanha até agora?

Luís Filipe Vieira é o incumbente e tem agido à altura das circunstâncias. Experiente, confiante no trabalho feito, mal entrou até aqui na campanha. Segue focado na preparação da nova época, como lhe compete. Claro que Vieira não é ingénuo: aposta na equipa de futebol como estratégia eleitoral. Sabe da margem eleitoral que tem e não cometeu, até agora, nem o erro de a dar por adquirida, nem o de se deixar perturbar pelas críticas.

Mas Vieira consegue algo mais notável: que todos os adversários lhe reconheçam o trabalho feito. E mais: que nenhum se arrisque, hoje, a criticar a escolha do treinador (e se ela foi polémica) ou os reforços do plantel. Mais Cavani, menos Cavani, percebe-se que a nova temporada gera expectativas positivas – e onde há esperança, não há rejeição.

Prognóstico: Vieira sairá vencedor pela confiança demonstrada no trabalho feito ao longo de muitos anos, independentemente de alguns erros que tenha cometido – e cometeu.

As restantes listas têm apresentado estratégias diferentes, com resultados diferentes.

Rui Gomes da Silva tem sido Rui Gomes da Silva. Há muito tempo crítico de Vieira e o primeiro a anunciar uma candidatura, nunca conseguiu congregar a oposição e o aparecimento de diversas listas são uma derrota. É um conhecedor do clube, tem projeto, mas também um estilo muito próprio, sempre à procura da polémica, gerando facilmente amores e ódios. Porém, candidatou-se, fez o que no seu entender deveria fazer e, por isso, no fim, ficará bem com a sua consciência.

Noronha Lopes apareceu gerando grande expectativa, fruto, fundamentalmente, de uma base de apoio de adeptos mediáticos. Esperava-se um projeto moderno e diferenciador, mas tem sido uma desilusão, como revela o seu artigo no Expresso. É justo que se diga que tem razão nalgumas críticas: se o Benfica tem feito grandes negócios, também é verdade que, quase todos os anos, há contratações falhadas e dificilmente explicáveis. Exige-se, cada vez mais, que sejamos criteriosos no investimento no plantel da equipa principal e, sem dúvida, muito mais exigentes quanto ao desempenho nas provas europeias.

Dificilmente, algum benfiquista não reconhecerá isto. Mas é na definição de uma estratégia própria que a lista de Noronha Lopes deixa muito a desejar. Retiram-se para já apenas duas propostas: criar a figura do diretor desportivo e renegociar os direitos televisivos com a UEFA. Das duas, uma: ou Noronha Lopes não sabe que o Benfica tem há muitos anos um administrador da SAD que é diretor desportivo, de nome Rui Costa que é unanimemente reconhecido como uma das figuras mais competentes da estrutura encarnada, além, claro, de um dos maiores símbolos do clube, ou sabe e então está, simplesmente, a usar estas eleições como trampolim para umas próximas em que defronte já não Vieira, mas Rui Costa? E que, portanto, esta não é uma candidatura para agora, mas para daqui a quatro ou oito anos?

Segundo ponto: a estratégia de Noronha Lopes para dar mais recursos ao Benfica consiste em ir à UEFA pedir que os clubes ingleses e espanhóis abdiquem das suas receitas para os redistribuir pelos clubes dos países mais pequenos? A sério? E por que carga de água fariam isso? Solidariedade? E já agora, para defender isto lá fora, não teria de defender o mesmo internamente? É o Benfica, enquanto marca maior, aquele que mais recebe. E foi necessária uma luta de anos, derrubar o império da Olivedesportos, criar um canal de televisão próprio, entre muitas outras batalhas, para o conseguir. Estará Noronha Lopes a sugerir que deitemos fora esse trabalho e voltemos atrás 20 anos no tempo? Ou como espera ele ter o apoio dos restantes clubes em Portugal e das ligas congéneres para ir à UEFA pedir redistribuições de direitos?

Acresce o pequeno pormenor de o Benfica ter, nesta matéria, contratos assinados para os próximos anos. Iríamos rasgar esses contratos? Até agora a grande expetativa tem sido a grande desilusão.

Finalmente, o movimento Servir o Benfica. Este grupo de sócios liderados por Francisco Benitez tem sido a grande surpresa. Fazem uma campanha pragmática, pela positiva e com boas propostas, muito concretas, do futebol profissional às modalidades. Neste caso, o meu desejo, mais do que prognóstico, é o de que, depois das eleições, Vieira consiga agregar este movimento e implemente muitas das suas ideias.

Uma nota final sobre a Youth League. Os meninos do Benfica perderam a taça para o Real Madrid. Não tardou a surgir quem aproveitasse o facto para se promover ou atacar o clube. Deixá-los estar, na pequenez serôdia de vibrar mais com as derrotas dos outros do que com as próprias vitórias. Em sete edições da Liga dos Campeões dos jovens, já estivemos em três finais – e isso diz tudo o que há para saber sobre o incrível trabalho que tem sido feito na captação e formação do clube.

O travo amargo da maldição só existe na nossa cabeça e é lá que a temos de vencer. E isso faz-se com o killer instinct de Gonçalo Ramos, a raça de Ronaldo Camará, o talento puro de Umaro Embaló. Parabéns, rapazes! 




 

 

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