Mauro Xavier
Mauro Xavier

Rúben Dias e a marca dum Benfica global

Nunca nos esqueceremos das lágrimas de Eusébio no Mundial de 66, mesmo que ainda não fôssemos nascidos. Nunca nos esqueceremos das lágrimas de Rui Costa, no lugar onde normalmente estaria um festejo, após marcar, com a camisola da Fiorentina, um golo ao "seu" Benfica.

O rosto dos heróis em lágrimas é, naturalmente, marcante porque é o momento em que se revelam homens, e não deuses, como por quem, sem querer, tantas vezes os tomamos. Mas, com Rúben Dias, aconteceu qualquer coisa diferente: deu-nos a imagem inesquecível de um jovem capitão que não se permite chorar. Diante dos jornalistas, no fim do jogo que sabe ter sido o da despedida, braçadeira de capitão aos 23 anos, o golo que abriu o resultado e o título de homem do jogo: as palavras vão chamar o choro e ele não deixa. Como tentaria não deixar depois, no balneário, discursando perante os companheiros, o Presidente e treinador, mas já não seria possível, por mais estóico.

Ali, nessas lágrimas a que não se consentiu, estava Rúben inteiro. O "centralão", como desde cedo lhe chamaram. O líder natural que se impôs, com a duríssima missão de suceder a Luisão e conseguiu, da forma mais bonita possível, que não sentíssemos a orfandade de Luisão. A voz de comando da defesa e o central de classe, de grande qualidade de passe, tantas vezes o primeiro construtor de jogo da equipa.

Todos ficámos tristes com a saída de Rúben Dias, mas é apenas o futebol a acontecer. Chegou aos 11 anos ao Benfica, foi capitão e campeão pelos escalões por onde passou, chegou à equipa principal, tornou-se titular indiscutível, foi campeão nacional, indiscutível da seleção A, um dos capitães de equipa, fez três temporadas de grande nível e sai agora para um dos mais poderosos clubes mundiais, por uma verba que já quase parece normal, mas que constitui, na verdade, a segunda maior transferência da história do Benfica.

Tudo normal, tudo natural, tudo lógico. Pensar que o contrário seria possível é fechar os olhos para não ver a realidade – mas ela vai continuar lá. Não há como segurar atletas a carreira inteira quando despertam há tanto tempo tanta cobiça e há organizações com orçamentos tão superiores e tão disponíveis para lhes oferecer as remunerações que nenhum clube português pode pagar.
Rúben é apenas o mais recente caso de algo que agora corre o risco de parecer fácil, mas que era, há apenas meia dúzia de anos, visto como impossível: que o Benfica tivesse na formação não só um dos grandes municiadores de jogadores para a equipa principal, mas também uma das suas maiores fontes de receita.

Desde que o centro de formação foi inaugurado, em 2005, foram já 446 milhões de euros alcançados em vendas de atletas vindos do Seixal.

Estas receitas significam, primeiro do que tudo, a enorme valorização dos jogadores, mas também a enorme valorização da marca Benfica. Mas estes números significam ainda outra coisa. É graças a eles que o Benfica tem conseguido o enorme salto qualitativo dado nos últimos anos, a modernização do clube e, em última instância, o próprio reinvestimento no crescimento do Seixal, para que cada vez mais Rúbens sejam possíveis.

Tudo isto só faz sentido, todavia, se os jovens do clube continuarem a chegar à equipa principal. Sabemos que não podem ficar para sempre. Há muito que não podem ficar para sempre. Nem no tempo de Eusébio se ficava para sempre. É impossível reter talentos no nosso futebol, mas eles fizeram parte do nosso futebol. Escreveram a história das tardes de sábado na Luz dos últimos anos, incendiaram os campos de todo o país, ergueram taças, gritaram por nós e nós por eles. E é assim que tem de continuar a ser, com os Gonçalos Ramos e os Dantas, e os Embalós, e os Camarás, e todas as grandes esperanças do Benfica. E para isso, é preciso que Jorge Jesus tenha feito essa evolução da sua versão 1.0 para esta 2.0: reconhecer e apostar no que já o mundo inteiro reconhece e aposta.
Não havia nenhum problema em chorar, Rúben. Nenhum. Teria sido tão belo e comovente, como foi com outros antes de ti. Que comece já no fim desta época, quando te sagrares campeão inglês – e português.

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