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Em 86 edições da Taça de Portugal, o troféu nunca tinha saído do escalão principal. Tinha de ser este ano, contra o Sporting, com o Torreense de Luís Tralhão a escrever a página mais improvável da prova. Parabéns sinceros ao treinador - anos a formar miúdos na Luz, irmão do João Tralhão que continua no banco encarnado, é, em boa medida, um dos nossos. O que não retira nada à proeza desportiva de uma equipa da segunda Liga.
A festa do Jamor, porém, deixa o Benfica num lugar ainda mais incómodo do que aquele em que já estava. Enquanto se cantava o "David contra Golias" em Oeiras, na Luz contava-se outra coisa: os dias até José Mourinho oficializar uma saída que toda a gente já dá como certa. Florentino Pérez fechou no sábado a candidatura à reeleição no Real Madrid, mas as eleições só se realizam a 7 de junho. Até lá, Mourinho não pode ser anunciado em Chamartín - e o Benfica não pode anunciar substituto. Estamos congelados pelo calendário eleitoral de outro clube.
Olhe-se à volta. O Sporting fechou Silas Andersen, quarto reforço para 2026/27, depois de Zalazar, Doumbia e Pedro Lima. O FC Porto anunciou João Afonso, primeiro reforço da era Villas-Boas. Cada um destes negócios fechou-se com treinador definido, projeto desportivo conhecido e modelo de jogo identificado. Na Luz, ninguém sabe ainda quem vai mandar pôr a bola a rolar em julho - e, portanto, ninguém sabe que jogadores vai pedir.
Marco Silva, apontado como sucessor, foi ainda mais explícito no domingo, à margem do último jogo do Fulham: "Vou tomar uma decisão na próxima semana." Tem em cima da mesa a proposta de renovação dos londrinos que lhe oferece um salário de muitos milhões e quer resolver a vida antes de mais nada. É legítimo do lado dele. Para nós significa, na melhor das hipóteses, mais uma semana parados. Na pior, o plano B já vai a meio caminho de ser plano D.
Por cima disto tudo, o desfecho do Jamor altera o calendário europeu. A vitória do Torreense, equipa da segunda Liga, mexe na cascata das vagas e antecipa o arranque da época encarnada. Mais semanas perdidas, menos semanas para preparar. Para quem ainda nem treinador tem, é pesado.
Há aqui duas improbabilidades cruzadas: a primeira equipa da segunda Liga a ganhar a Taça em 86 edições e umas eleições num clube espanhol que paralisam o trabalho na Luz. Eventos raros. Mas eventos raros raramente são só má sorte. Pelo que se leu e ouviu durante a época, podíamos perfeitamente ter evitado esta situação e chegar ao fim da época com o próximo passo definido e sem ter de começar tarde o que os outros começam cedo.
Tudo acontece ao Benfica. Mas também estamos sempre a pôr-nos a jeito.
Por Pedro Brinca