Pedro Brinca
Pedro Brinca Professor de Economia

É preciso limpar a imagem do Benfica

A 27 de Maio de 2015, o Departamento de Justiça dos EUA acusou 14 oficiais da FIFA e executivos comerciais de receber mais de 150 milhões de dólares em subornos. As acusações incluíram burla, lavagem de dinheiro, extorsão, fraude fiscal e obstrução de justiça, em benefício próprio. O próprio processo de atribuição dos campeonatos do mundo de 2018 e 2022 foi alvo de procedimentos de investigação criminal por parte das autoridades suíças.

Três grandes patrocinadores – Castrol, Continental e Johnson & Johnson – não renovaram os respetivos contratos de patrocínio em 2015. Existe a perceção real do risco que muitos patrocinadores correm em estarem associados a marcas e indústrias que podem de repente estar envolvidos em escândalos que transformam aquilo que deveria ser uma operação de projeção da marca, em destruição da mesma. Apesar de os três patrocinadores acima não terem renovado os respetivos contratos, houve outros que o fizeram, como a Sony e a Emirates, mas a FIFA partiu para a renegociação dos mesmos muito mais fragilizada.

Neste momento, e focando apenas no processo Cartão Vermelho, temos o ex-presidente e membros da atual direção a serem investigados por suspeitas de crimes de abuso de confiança, burla qualificada, falsificação, fraude fiscal e branqueamento de capitais. A constante alusão a Rui Costa, Domingos Soares de Oliveira e Miguel Moreira e ao papel que estes tiveram ou têm neste processo, está a constituir-se como uma fogueira em que a marca Benfica está continuamente a arder.

É importante fazer uma declaração de interesse. Fui candidato (vencido) a vice-presidente do SL Benfica nas últimas eleições, numa lista liderada por Francisco Benítez e que emergiu do movimento Servir o Benfica. Mas a partir do momento que Rui Costa foi o escolhido pelos benfiquistas, Rui Costa é o presidente do SL Benfica e – salvo algum desenvolvimento dos processos em curso na justiça que justifique o contrário – merece que todos os benfiquistas o ajudem a que o seu mandato seja o mais bem-sucedido da história do clube. Rui Costa tem a legitimidade democrática que as segundas eleições mais concorridas da história do associativismo mundial lhe dão, ou seja, toda.

É nesse sentido, pela perceção que tenho do que esta continua feira mediática está a fazer ao SL Benfica e à sua capacidade de monetizar a marca e pelo que os valores fundamentais e históricos do clube exigem, que tenhamos iniciativas que possam relançar a marca e imagem do clube. É importante contribuir quer para que os sócios e adeptos se reconheçam na imagem pública da gestão do clube, quer para proteger patrocinadores e alavancar maior poder de negociação dos contractos de patrocínio. A tão falada auditoria forense tarda em aparecer e as dúvidas sobre a real situação do clube e da sua gestão continuam-se a acumular.

Os próprios patrocinadores começam a estar mais atentos aos perigos que estes escândalos constituem para as próprias marcas e para o seu investimento, e começam a exigir a inclusão de cláusulas nos contratos de patrocínio que condicionam a governança das instituições patrocinadas. Provisões que obrigam à formação dos quadros em práticas anticorrupção, à exigência de práticas de diligência prévia e até por vezes a cláusulas "morais", em que o patrocinador pode rescindir o contrato se determinadas praticas vierem a lume que possam manchar a imagem do patrocinado. Isto são práticas comuns em muitas indústrias há já bastante tempo.

Historicamente, certificações como a International Organization for Standardization (ISO) foram criadas para criar confiança e credibilidade entre os agentes no que diz respeito aos processos de produção. Hoje são certificações standard para qualquer empresa com um mínimo de dimensão competitiva. Mas uma nova dimensão de certificação – a certificação da governança, transparência, responsabilidade social – está a ganhar momentum, também pelo papel que pode ter ao proteger o investimento de patrocinadores nas diferentes organizações, protegendo-os de riscos reputacionais. A Sports Integrity Global Aliance (SIGA) criou um sistema de certificação, o SIRVS (SIGA Independent Rating and Verification System) que visa precisamente certificar a gestão de instituições desportivas relativamente a três dimensões: boa governança, integridade financeira e apostas desportivas. É um movimento único a nível mundial, que conta com o apoio de vários patrocinadores que têm uma presença forte e continua na indústria como a QATAR Airways e Mastercard, que vêm a utilidade que um processo destes pode ter na proteção dos seus investimentos e das suas marcas.

Recentemente a Liga Europeia de Rugby obteve a certificação SIRVS e outras instituições desportivas estão na calha, como a UEFA e a própria Liga Portuguesa de Futebol Profissional. Existem conversações para que a médio prazo este (ou outro movimento de semelhante de) certificação possa ser exigida inclusive para participar nas competições europeias, um pouco à imagem do programa de licenciamento da UEFA e das regras de conformidade com o Fair Play financeiro, dentro do esforço que a indústria tem feito para proteger o produto futebol noutras dimensões.

O SL Benfica encontra-se de facto no epicentro de um escândalo com potencial de danos reais para a sua reputação. Mas poderia dar um passo decisivo na recuperação da sua credibilidade e aumento da atratividade para patrocinadores e investidores ao tornar-se no primeiro clube de futebol a ter a sua governança certificada, beneficiando da exposição e impacto mediático que esse passo traria. Cumpriria também um passo decisivo na concretização das promessas de aumento de transparência que acompanharam esta última eleição, sem alienar a necessária ambição que um clube como o SL Benfica precisa sempre de ter. Pode implicar mudanças difíceis dentro do clube e da SAD, mas está na hora de Rui Costa mostrar que quer um SL Benfica diferente e que pode realinhar a imagem do clube com os princípios e valores históricos que estão na sua génese e na sua grandeza.
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