Pedro Brinca
Pedro Brinca Professor de Economia

Contra-corrente

É preciso recuar à época de 1996/1997 para encontrar uma época desportiva em que o Benfica à 21.ª jornada se encontrava a mais de 15 pontos do líder, e a 2007/08 para ter menos pontos no mesmo número de jogos. A contestação está na rua e sucedem-se os pedidos de demissão de Jorge Jesus e Luís Filipe Vieira por entre comentadores, paineleiros e páginas conhecidas de redes sociais. Luís Filipe Vieira em meio ano passou de presidente que só olhava para as contas e para o negócio e não apostava na vertente desportiva, para presidente irresponsável financeiramente que está a conduzir o clube à ruína. Jorge Jesus passou de treinador "competente, mas" a "incompetente que nunca devia ter vindo". Em nenhum sector da sociedade – talvez apenas na política? – se vai de bestial a besta em tão pouco tempo.

Aqueles que criticaram Luís Filipe Vieira pela falta de investimento e de querer construir uma equipa só com base na academia, numa época em que investiu os famosos 100 milhões de euros na equipa adquirindo um internacional argentino, um internacional belga recentemente considerado como fazendo parte do melhor onze de sempre da seleção, um internacional alemão e um internacional brasileiro, criticam-no agora por ter feito aquilo que eles sempre se queixaram e apontam para a academia como a solução. Mesmo Gilberto, é difícil argumentar que não vale os 3 milhões de euros que foram pagos. Darwin foi a aposta de maior risco – pela idade e pela falta de experiência num nível competitivo relevante. É um jogador a quem se reconhece futuro, mas que tem ainda pouco presente. Quatro jogadores – Waldschmidt, Seferovic, Darwin e Gonçalo Ramos – tornaram-se curtos para as duas posições do ataque em ano de pandemia.

Não tenho dúvidas que existem muitas razões – legitimas diga-se – para a contestação a Luís Filipe Vieira. O Benfica tem andado nas páginas dos jornais por inúmeros casos de justiça, que independentemente de como acabarem, mancham a imagem, desgastam e diminuem a capacidade da direção de intervir de forma mais firme quando é preciso – e bem sabemos como tem sido preciso. Também muitos negócios de jogadores são difíceis de racionalizar. Comprar Chiquinho à Académica por 600 mil euros, mandá-lo para Moreira de Cónegos e no fim da época ir buscá-lo por 5 milhões, é no mínimo estranho. Ou o constante carrossel de jogadores e comissões que se tornou imagem de marca desta direção.  Outros argumentam que numa altura em que os rivais estavam em maiores dificuldades, devia ter apostado forte na equipa para afirmar a hegemonia que de tanto anunciada, nunca se concretizou. Tudo isto é suficiente para que de uma forma honesta, séria e legitima se pergunte se os melhores tempos desta direção já estão no passado e é preciso um novo futuro.

Existe, porém, um "pequeno" problema com esta análise. Tudo isto já era verdade em Outubro. Quando Luís Filipe Vieira volta a ganhar as eleições com uma margem que, embora não tão confortável como em eleições anteriores, não deixa margem para dúvidas. Desde as eleições não houve mais casos de justiça. Desde as eleições não houve mais nenhuma contratação, negócio estranho, nem nenhuma decisão de fundo. Tudo o que está em curso – para o bem e para o mal – foi legitimado em eleições há menos de 6 meses atrás. Contestar tudo neste momento é, na minha opinião, oportunismo de uma oposição com razões legítimas de contestação, mas mais obcecada em ser anti-Vieira do que pró-Benfica. A única coisa que mudou foram os resultados desportivos, numa época em que Luís Filipe Vieira fez o maior investimento da história do clube que, mais uma vez repito, foi legitimado nas eleições de outubro. Mais a norte, uma união em torno do essencial, levou a intervenções públicas cujas consequências se viram no relvado nas duas jornadas seguintes. No Benfica, em idêntica situação, a falta de união não o permite. Com reflexos óbvios nas mesmas duas jornadas e na definição do segundo e terceiro posto que esta época, lembrem-se, dão acesso à Liga dos Campeões.

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