Pedro Brinca
Pedro Brinca Professor de Economia

Cumpra-se a promessa: demissão

No princípio do ano critiquei as iniciativas de contestação levadas a cabo pelos movimentos de oposição à atual direção. Achei que estavam a mostrar algum oportunismo, ao aproveitar um contexto de crise desportiva para pôr em causa a legitimidade de uma direção que tinha sido eleita uns meses antes. Não está em causa se o amplo currículo judicial que a atual direção havia acumulado à altura, era suficiente ou não para merecer contestação. O facto é que todos esses factos com dimensão jurídica – emails, vouchers, mala ciao etc. - haviam sucedido antes das eleições. Os sócios do Benfica tiveram a oportunidade de se pronunciar nas urnas sobre isso. Entre as eleições de Outubro e as iniciativas contestatárias do inicio do ano, não houve mais nenhum caso. Daí a minha posição.

Até agora. Com as acusações de abuso de confiança, burla qualificada, falsificação, fraude fiscal e branqueamento de capitais, com prejuízo para o estado e sociedades do universo do SL Benfica, este será sem dúvida o momento certo para essa oposição se mostrar e exigir eleições antecipadas.

A audição de Luis Filipe Vieira em sede de inquérito no parlamento veio pôr a nu um conjunto de promiscuidades que, mesmo que não sejam de forma inequívoca prova de crime, são um atentado à ética. O SL Benfica não pode lançar uma OPA sobre ações do próprio clube de quase cinco vezes o preço da cotação, quando, pelos fatos que vieram a público, um dos maiores beneficiários dessa OPA seria precisamente José António dos Santos. Esta é a mesma pessoa que havia comprado a dívida da Imosteps (empresa de Luis Filipe Vieira) ao Novo Banco. Estamos perante uma OPA decidida por Luis Filipe Vieira, que premeia de forma extemporânea o maior acionista individual do Benfica que também é a quem a empresa de Luis Filipe Vieira ficou a dever os créditos em falta ao Novo Banco.

Curiosamente, as iniciativas de contestação tiveram mais fulgor quando a equipa de futebol perdia pontos atrás de pontos no início do ano do que após as audições parlamentares. Para ser honesto, não me surpreende muito. O profundo desrespeito e cinismo com que o cidadão português olha para as instituições de justiça reflete um nível de desacreditação muito elevado. Uma sondagem recente sugere que 62% dos Portugueses têm uma confiança pequena ou muito pequena nos tribunais e juízes, sendo de 42% a percentagem relativamente ao ministério público. Quando falamos de partidos políticos, esse número atinge os 45%. As instituições judiciais e políticas estão desacreditadas e as pessoas sentem que vivem a sua vida apesar das, e não com a ajuda das mesmas. A consequência disto é a degradação acentuada da vida política e do exercício da cidadania.

Eu próprio sinto isso. Em agosto tive o prazer de estar à conversa com um "notável" benfiquista durante uma tarde bem passada em casa de um amigo. Conversamos bastante sobre a sua visão para o Benfica. Uma das coisas que me deixou uma excelente impressão, foi o enfase que pôs precisamente sobre a necessidade de recuperar uma identidade e postura ética que ele sentia que faltavam à direção atual. Confesso que o meu cinismo, que sinto que muitos portugueses partilham, cedeu, e fiz-lhe uma pergunta muito injusta: se ele sentia que hoje no mundo do futebol, era possível ter sucesso sem sujar as mãos. Não partilho aqui a resposta por ser uma conversa privada. Mas sinto que essa pergunta que lhe fiz, que reflete a falta de confiança das pessoas nas instituições, é parte do problema.

As acusações do ministério público e a condição de Luís Filipe Vieira como arguido não deixam margem de manobra e este terá que cumprir uma das suas promessas eleitorais. A demissão. E com a sua demissão, a dos restantes membros da direção, sem impedimento que se apresentem novamente a eleições. Mas eleições antecipadas serão a única forma digna de lidar com esse cenário. E Luís Filipe Vieira sabe-o ou não teria prometido demitir-se nessas circunstâncias. Mas importa também que a oposição assuma as responsabilidades neste momento, agora sim, em que nunca vez tanto sentido contestar a legitimidade desta direção em continuar a liderar o clube. Todos sabemos que o regime do Benfica era absolutamente presidencialista, com Luís Filipe Vieira inclusive a dar a última palavra na aquisição do jogador A ou B. Esta quase confusão entre a instituição e o seu presidente terá sido aparentemente até uma das causas para os problemas de justiça atuais. E daí não ser razoável que uma solução interina tenha legitimidade política, apesar de a ter de jure, para terminar este mandato. E que a única coisa que reste, mais uma vez a confirmar-se a constituição de Luis Filipe Vieira como arguido num processo em que do outro lado poderá estar o SL Benfica (!) – seja a convocação de eleições antecipadas.

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