Jogos Olímpicos de Esports: A prudência do IOC e a urgência de governação partilhada
A declaração da Presidente do Comité Olímpico Internacional, Kirsty Coventry, durante a recente reunião do Executive Board, foi simultaneamente breve e reveladora: as ambições olímpicas do IOC para os esports estão "muito vivas", mas é uma questão de timing. A abordagem é deliberadamente cautelosa e consiste em ir trabalhando com especialistas, sem pressas para apresentar propostas antes de estarem verdadeiramente maduras. Esta prudência revela-se ainda mais sábia quando observamos os desenvolvimentos recentes no ecossistema global dos esports. A Federação Sul-Coreana de Esports (KeSPA), historicamente considerada o modelo a seguir mundialmente e a primeira estrutura federativa nacional de esports, entrou recentemente em conflito público com a Esports World Cup Foundation sobre alegada interferência no processo de seleção de atletas sul-coreanos para a Esports Nations Cup. Felizmente tudo se acabou por resolver, mas este episódio, longe de ser um incidente isolado, expõe uma tensão estrutural fundamental que o movimento olímpico compreende profundamente e que os esports globais ainda estão a aprender a navegar: quem representa legitimamente uma nação numa competição desportiva internacional?
A resposta que o desporto tradicional desenvolveu ao longo de mais de um século é clara: federações nacionais independentes, democraticamente governadas, que respondem perante as suas comunidades desportivas nacionais (e existem em função delas!) e perante federações internacionais sujeitas a princípios de boa governação. Este modelo não é acidental nem arbitrário. Protege três dimensões fundamentais que são facilmente comprometidas quando organizadores comerciais de torneios assumem simultaneamente o papel de representação nacional. Primeiro, a independência na seleção de atletas baseada exclusivamente no mérito desportivo, livre de considerações comerciais ou conflitos de interesse. Segundo, a proteção da identidade nacional - o nome do país, a bandeira, a cultura e os símbolos nacionais não são ativos comerciais de livre utilização, especialmente em contextos de exploração comercial de grande escala. Terceiro, a distribuição equitativa de valor gerado através da representação nacional pela comunidade desportiva que sustenta esse sistema: clubes que formam atletas, treinadores que os desenvolvem, árbitros que garantem integridade competitiva. Nos esports, os publishers ocupam legitimamente uma posição central - detêm a propriedade intelectual dos jogos que servem de base às competições - e a Esports Nations Cup demonstrou compreensão adequada desta realidade ao co-desenvolver a competição com EA, Krafton, Tencent e Ubisoft, e colocar os publishers na cúpula decisória. No entanto, se os publishers detêm o IP dos jogos, o "IP" da nação - a sua identidade, símbolos e representação - pertence à comunidade nacional, não a organizadores comerciais internacionais, por mais bem-intencionados que sejam.
O caminho sustentável para os esports globais, e eventualmente para os Jogos Olímpicos de Esports, passa necessariamente pela criação de espaços permanentes de discussão, consenso e regulação partilhada entre todos os agentes da cadeia de valor. Publishers que criam os jogos, Tournament Organizers que produzem eventos de escala mundial, marcas comerciais que investem em patrocínios, e fundamentalmente, as comunidades nacionais - atletas que competem, clubes que formam e empregam, treinadores que desenvolvem talento, árbitros que garantem integridade, e federações que existem para desenvolver e proteger interesses coletivos. Nenhum destes agentes pode ser excluído sem comprometer a sustentabilidade do sistema. Nenhum pode dominar completamente sem criar desequilíbrios que eventualmente corroem a legitimidade. A decisão do IOC de não precipitar decisões sobre esports, de aguardar que estas questões fundamentais de governação amadureçam, de trabalhar cuidadosamente com especialistas que compreendem estas complexidades, não é hesitação mas sabedoria institucional. Os Jogos Olímpicos de Esports acontecerão quando existir um modelo de governação que proteja simultaneamente os direitos de propriedade intelectual dos publishers, os interesses comerciais legítimos dos organizadores de eventos, e a representação autêntica, independente e equitativa das comunidades nacionais de esports. Construir este modelo não é tarefa para meses, mas para anos de diálogo paciente entre todas as partes. A alternativa - avançar prematuramente com estruturas que reproduzem desequilíbrios de poder ou que concentram valor e controlo em poucos atores - criaria um sistema olímpico de esports estruturalmente frágil, questionado na sua legitimidade e incapaz de cumprir a missão olímpica de unir o mundo através do desporto.
Portugal, através das suas estruturas federativas e da sua participação ativa em organizações internacionais, pode e deve contribuir para esta discussão essencial sobre o futuro da governação global dos esports.