Record

OFF-SIDE

O drama de Moreira

Este Benfica de Vieira e Trapattoni é de facto um mundo. Não, não quero falar das dificuldades ontem sentidas frente à modesta Oliveirense, fico apenas à espera que o peru, o bolo-rei e os diazinhos de férias constituam para jogadores e equipa técnica uma espécie de bálsamo recuperador de tantas aflições vividas na primeira metade desta época. É que 2005 recomeça logo com um Sporting-Benfica e é bom para o futebol português que os dois clubes se mantenham na luta pelo título. Só que a interrupção da SuperLiga surge também na melhor altura para o próprio Trapattoni, um sexagenário que se mantém lúcido e sagaz, mas que acaba de cometer um erro impossível de justificar com outra frase que não seja o estafado “quem manda sou eu”. Sair do Restelo vergado ao peso de uma derrota por 4-1 que só não foi maior porque Moreira realizou uma grande exibição, afirmar depois que os jogadores têm de recuperar e tirar da equipa não os que jogaram ao pé-coxinho, mas logo o melhor em campo – o jovem Moreira, assim tornado bode expiatório da desgraça –, abona pouco em favor da referida lucidez e sagacidade do treinador e não lembra mesmo ao diabo. Volte como novo, mister Trap!

1 - Alcides

Tinha o Benfica este central lá escondido e não dizia nada! A estreia do brasileiro foi muito boa, revelando possuir todas as qualidades, técnicas e físicas, do seu compatriota Luisão, mas sendo possuidor de maior velocidade. Como a integração de Alcides no plantel benfiquista foi atribulada, já que chegou a Lisboa lesionado, só espero que a sua assiduidade como titular não seja tão fraca como a de Luisão que, infelizmente, passa a vida de baixa. Com Argel (que fez contra o Penafiel uma exibição plena de garra e de eficácia) e Ricardo Rocha o Benfica tem agora um quarteto consistente para o centro da defesa. Assim estivesse nas laterais, onde Fyssas e Dos Santos não saem da mediania, Miguel não chega para as encomendas e João Pereira continua a oferecer-nos as penosas imagens da morte lenta de um extremo.

2 - Peseiro

O treinador leonino não reúne, tomara que não em definitivo, as minhas simpatias. E nem valorizo as atitudes deselegantes que tem tido para com Record, já que procuro responder-lhe na mesma moeda. Escrevi há tempos que Peseiro não estava à altura de um clube com a dimensão e o prestígio do Sporting, e as lamentáveis cenas de segunda-feira em Guimarães nada mais fizeram do que dar-me razão. Independentemente dos motivos que pudesse haver para tanta irritação, Portugal inteiro pôde ver, através da transmissão televisiva, como é grosseiro, nos modos e nas palavras (nos palavrões, melhor dito), o comportamento do actual técnico sportinguista. Basta compará-lo com Trapattoni e Fernández, e ver a diferença que existe entre dois senhores do futebol mundial e José Peseiro. É pena.

3 - Petrolina

Lê-se nos livros: quem nasce torto, tarde ou nunca se endireita. Parece ser esse o caso de Juninho Petrolina, cujas atitudes começam a prejudicar seriamente o Belenenses. Depois da injusta expulsão no Dragão – que acelerou a derrota dos azuis de Lisboa –, agora um justíssimo afastamento do jogo na Choupana, na sequência, aliás, de mais uma péssima exibição – não me lembro do brasileiro ter acertado um passe... Mas o que mais me espanta é a aposta de Carlos Carvalhal na péssima forma petrolínica, inclusivamente numa partida em que, já com um cartão amarelo exibido ao médio do Restelo, a amostragem do segundo estava iminente. Como veio a acontecer. O maior drama do Benfica é que não perdeu 4-1 com um Belenenses qualquer: perdeu 4-1 com este pobre Belenenses que vimos na Madeira.

4 - Viva o FC Porto e quem o apoiar!

O jornalista João Marcelino, ex-director de Record, que temos outra vez o prazer de ver escrever no nosso jornal, utilizou a sua coluna na revista Record DEZ para manifestar desagrado por não termos dado à vitória do FC Porto na Taça Intercontinental toda a largura da 1.ª página. Fez bem, embora eu ache que não tem razão. Em primeiro lugar porque tendo a final do Japão sido disputada de manhã (em Portugal), ela foi largamente referida durante o dia nos meios audiovisuais e, face à hecatombe do Benfica no Restelo, num jogo que terminou tarde na noite, perdeu “peso” na edição dos jornais do dia seguinte. Em segundo lugar, João Marcelino sabe melhor do que eu, melhor mesmo do que ninguém, que um jornal é um negócio e o nosso grande problema diário (dele no “Correio da Manhã”, meu no Record) é descobrir como vamos vender os nossos jornais no dia seguinte... “Ignorar” a derrota histórica do Benfica na SuperLiga para dar toda a capa ao histórico triunfo portista teria inevitáveis custos nas vendas, risco que nem o Record nem o seu principal concorrente – que deu ao êxito portista um destaque bem menor, como se vê acima – quiseram correr. Um jornal especializado em desporto não surge nas bancas apenas para glorificar os grandes feitos, como fizemos, aliás, nas edições cujas capas se vêem abaixo – ele precisa, antes de mais, de se vender. Aliás, esse raciocínio editorial não é novo, foi também praticado pelos meus ilustres antecessores. Dou um exemplo e para isso recuo 15 anos, ao dia 30 de Maio de 1989, a seguir à conquista da Taça de Portugal pelo Belenenses, após vitória sobre o Benfica. Sabem o que fez nessa altura o Record? Pois optou por uma manchete com Mozer a revelar que o Marselha lhe pagava três vezes mais do que o Benfica e deixou a vitória azul na Taça para uma chamadinha que... só se via à lupa (1.ª página em cima, à direita). Rui Cartaxana era então o director e João Marcelino chefe de redacção adjunto. Tenho essa qualidade intacta – gosto de aprender com quem sabe. Um abraço, João!

Adeus, Bom Natal e preparem-se para 2005

Pois é, a SuperLiga fechou para as Festas e todo o Record foi convocado para a realização de “2004 – Um Ano Inesquecível”, 196 páginas para o leitor coleccionar. Por esse motivo, este é a último “Off-Side” do ano, entrando também de férias os outros titulares da pág. 45. Voltaremos a 9 de Janeiro, com a “Semanada” de António Varela. Até lá, leitor, Feliz Natal e boas entradas em 2005!
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