A jóia emprestada

1- BASTA olhar para o estilo e para a posição no terreno; o árbitro ainda nem sequer apitou para o início do jogo e Luís Filipe, sem dar por isso, já definiu os pressupostos da análise, facilitada também pelo enorme letreiro imaginário que o acompanha por todo o lado e que não deixa dúvidas: “Este homem é um extremo”. Fica assim cumprida a primeira fase do processo que segue posteriormente o curso normal de quem faz das linhas (lateral e de fundo) o seu “habitat”, alguém que passa o tempo a surpreender-nos com a mestria do drible, a velocidade de pernas e raciocínio, a arte e engenho que suportam uma condução perfeita e o físico poderoso que permite resistir à fúria dos adversários.

2- PASSA o primeiro por habilidade, o segundo por aceleração e o terceiro por força e sabedoria no modo como utiliza o corpo para defender a bola e o espaço. Luís Filipe incendeia jogos dispondo de uma base de dados pessoal que não parece muito preenchida, mas à qual acrescenta diariamente experiências que a enriquecem. Aos 21 anos já sabe muito do ofício, mas a tranquilidade só chega quando o ouvimos reconhecer que precisa de aprender muito mais. Em Braga deram-lhe afecto, confiança e um lugar na equipa; afugentaram o fantasma da pressão; tiveram paciência e método para acompanhar o crescimento, e o resultado está à vista: moldaram um dos mais apetecidos projectos do futebol português.

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3- QUANDO chega à linha de fundo, por mais devastador que seja o rasto deixado nas suas costas, Luís Filipe sabe que a história ainda não acabou. É nesse momento que realça a qualidade que define os grandes extremos: acentua o critério inteligente e solidário, levanta a cabeça e procura o companheiro em melhor posição para receber e marcar – nunca fecha os olhos e atira a bola sem nexo para o meio da confusão. Cava assim a diferença entre cruzamento e passe, tornando evidente o que distingue sorte e perfeição; o que depende do destino e o que pode ele próprio ditar; o que é fugir à responsabilidade e associar-se ao golo preparando o caminho com a preocupação de diminuir o risco de erro.

4- LUÍS FILIPE é a jóia emprestada na equipa que melhor futebol pratica em Portugal: o Sp. Braga. Equipa unida que joga sobre uma ideia grande, iniciada na tragédia de Pedro Lavoura e assente no compromisso de honra com o bom gosto; orientada pelo prazer da bola e pela expressão colectiva referenciada a partir da capacidade individual dos jogadores; equipa cuja filosofia é viver feliz por não trair princípios e que apenas fica satisfeita se, ainda por cima, ganha os jogos – ordem de prioridades de quem entra em campo sem complexos e defende estética invulgar nos dias de hoje. Prova de que o futebol, apesar da tirania vigente, ainda autoriza sentimentos e conceitos como paixão, talento e felicidade.

A figura: Clayton

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JOGAR BEM – As perguntas fazem sentido: o que é jogar bem? E quantas maneiras há de o fazer? Jogar bem não é o que faz o Boavista, partindo da pressão sufocante que começa no ponta-de-lança? Não é o que faz o Sp. Braga, com o seu jogo de toque que liberta os jogadores mais criativos? Não é o que, a espaços, vimos esta época a Sporting, Belenenses e Paços de Ferreira?

COMO A MÚSICA – Aparentemente há muitas maneiras de praticar futebol de qualidade, mas Cesar Luis Menotti, que sobre o tema sabe quase tudo, não tem dúvidas em dizer o contrário: “Só há uma forma de jogar bem”. Diz o treinador argentino que o futebol é como a música: “Uma é feita de talento, sentimento e sensibilidade, a outra tem como único objectivo vender discos.”

INDIFERENÇA – Seguindo a ideia, durante parte da época o FC Porto nem jogou com sensibilidade, nem se preocupou em vender discos. A partir de certa altura transmitiu ideia de distância da realidade, de quase indiferença ao que lhe sucedia. Talvez não seja por acaso que no retomar do rumo esteja Clayton, ou seja, um jogador carregado de sentimentos contraditórios, tendo como base o talento que possui.

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DIABO À SOLTA – Clayton foi um diabo à solta em Aveiro, decisivo como já fora em Alverca e Paranhos. O brasileiro continua a mostrar que não estava acomodado com a condição de suplente e muito menos indiferente ao encolher de ombros generalizado quando se falava no seu nome, cada vez mais esquecido. Os jogadores de talento são assim: se lhes dão confiança, pagam com bom futebol.

Passe curto

Guga desarma Sá Pinto, que não descansa enquanto não trava o opositor. Porque está a perder a paciência e o adversário a ganhar terreno, derruba-o com alguma violência. Francisco Ferreira pune com cartão amarelo o brasileiro derrubado. Se não fosse trágico, podia ser uma anedota. Não bastava aos árbitros a contingência do erro, precisarão agora de cair no ridículo?

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Abel selou o triunfo do V. Guimarães em Paços de Ferreira com golo solitário à beira do intervalo. Os vimaranenses sofreram depois, sobretudo na fase final de assédio adversário, que os obrigou a recuar no terreno. Mas nessa altura mantiveram-se firmes e hirtos como onze barras de ferro e taparam os caminhos para a sua baliza.

Nove meses depois, tudo na mesma em relação a Dudic. Se o leitor se lembra do que foi dito e escrito quando o internacional jugoslavo chegou à Luz, não vale a pena procurar outras referências: continua sem confiança e sem mostrar qualidade. E agora até está com azar: não é que levou uma bolada nas pernas e fez autogolo com o Alverca?

Era inevitável que Rafael fosse alvo do assalto de alguns clubes da I Liga. Os seus golos, mas sobretudo o seu futebol, justificam movimentação por parte dos grandes. Uma surpresa: o Boavista esteve sozinho na luta, garantindo vantagem que parecia decisiva. Uma confirmação: a entrada em cena do FC Porto foi fulminante e acabou por ganhar a corrida.

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Lá por fora

Nakata, o japonês da Roma, cuja contratação ao Perugia chegou a ser explicada apenas por constituir um bom negócio comercial, pela aproximação ao mercado nipónico, acaba de dar uma resposta convincente aos mais cépticos: frente à Juventus, em Turim, no jogo que definia privilégios na luta pelo título, entrou para o lugar de Totti e operou a reviravolta no jogo e no marcador. É muito bem feito para quem duvidava da sua classe.

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