Ele é o FC Porto

1 - Há jogadores que são artistas em qualquer palco (Pelé, Maradona, Figo, Zidane e Rivaldo provaram-no na gala da FIFA) e outros, como Guardiola e Paulo Sousa, que são treinadores disfarçados no meio da aparente confusão de uma equipa. Jorge Costa, todas as semanas, durante hora e meia, é muito mais que isso: ele é o Futebol Clube do Porto. Através do seu comportamento em campo, o adepto mede a pulsação, o estado de espírito geral e adivinha o resultado. Em Jorge Costa existe o compromisso entre passado e futuro, que aproxima o imponente 14º andar da Torre das Antas e o velho estádio que fica ao lado, que une o símbolo da modernidade (lá em cima) e o relvado (cá em baixo) onde o futebol continua a jogar-se ao fim-de-semana, com uma bola, duas balizas e onze de cada lado.

2 - Falta-lhe poesia para encantar os adeptos neutros, não apurou o sentido estético das grandes estrelas e nem sequer é descendente directo dos defesas que a história aceita como eternos. Tecnicamente, Jorge Costa está condenado a recordações mais modestas, à memória de um central de marcação ensinado nas melhores escolas mas que é impiedoso e contundente no momento de chegar à bola e aos adversários; que é sóbrio nos gestos; inteligente nos movimentos e na ocupação do espaço, que em fase de desarrumação colectiva, por intuição, decide sempre bem o que (e como) deve fazer. E ainda consegue contrariar uma lógica vigente: adquiriu velocidade de deslocação com o passar dos anos.

PUB

3 - Mas Jorge Costa é mais: representa o respeito pelo passado de um clube, pelas pessoas que continuam a ir ao estádio e não à bolsa, que são capazes de reconhecer na rua o tratador da relva mas nunca o administrador recém-contratado pela SAD a qualquer empresa de outro ramo. Em Jorge Costa existe, no fim de contas, o respeito pela gente que fez do futebol o fenómeno mais importante do século XX. A equipa é o seu mundo e o jogo um momento sagrado. Ali estão as marcas de uma atitude séria, que resulta de uma luta interior e por isso mesmo solitária na defesa de valores que parecem abstractos mas que têm nome (FC Porto) e finalidade (ganhar).

4 - O futebol procura a terra prometida e caminha para Wall Street - o Manchester United já lá está (cuidado, é perigoso chegar rico a um casino), mas preserva a imagem de Bobby Charlton e chegou escudado em Ferguson, Beckham, Giggs e Keane (garantia de que nem tudo perderá em caso de azar). Ao dobrar o milénio com tiques ditatoriais, o futebol vai chorar quando perceber que as convicções não se compram. Os bandidos que passam por ter roubado a jóia mais preciosa do cofre-forte da Catalunha deixaram à porta uma pequena lembrança: 12 milhões de contos. Os adeptos do Barcelona sentenciaram que preferiam Figo a todo o dinheiro do Mundo. Afinal, sempre há coisas que não têm preço. Afinal, preservar símbolos como é Jorge Costa no FC Porto pode ser grande negócio para um clube e é uma das melhores formas de explicar por que razão uns ganham mais vezes que os outros.

Figura - Pierre van Hooijdonk

PUB

CADEIRA DE RODAS - Há dois anos, Batistuta encontrou-se com Jardel em Lisboa. Em determinado momento da conversa perguntou-lhe quantos golos tinha na altura. Jardel respondeu 26 - mais oito que os de Batistuta em Itália. Quando esclareceu que só fizera 22 jogos, Bati não queria acreditar e perguntou a sorrir: “Os defesas em Portugal jogam de cadeira de rodas?”

20 GOLOS - Pierre van Hooijdonk chegou inteiro, com 31 anos e uma média de 20 golos por época em jogos oficiais na Holanda, Escócia e Inglaterra. Ninguém em Portugal tem a força e colocação do seu remate com o pé direito; é alto e joga bem de cabeça; normalmente, jogando no Benfica era inevitável que atingisse a cota 20 - e a qualidade dos defesas nem é para aqui chamada.

QUEIXINHAS - Mas em seis meses, por causa dele já o embaixador da Holanda esteve na Luz, já os dirigentes do Vitesse foram fazer queixinhas à FPF, já ele percebeu que em determinado momento só não foi “corrido” do Benfica porque não calhou. Deu uma entrevista no seu país e a polémica estalou.

PUB

TER RAZÃO - Disse que o sistema de jogo não o favorecia e que, em absoluto, era melhor jogador que João Tomás. Não foi simpático, se calhar foi polémico, mas não se enganou. Acima de tudo, entre os dois existe (existia?) uma diferença fundamental: um em estado de euforia, o outro a caminho da depressão.

DESAMORES - Domingo, quando Toni fez sair João Tomás para entrar André, a bancada não gostou, prova de que os adeptos nunca morreram de amores pelo holandês. Prova também de que nem sempre têm razão. Van Hooijdonk ficou em campo e marcou o golo da vitória, para somar aos dois que apontara dias antes em Loulé. Pois é, estamos em Janeiro e já lá vão onze golitos...

Passe Curto

PUB

A Lazio aproveitou a época de saldos e veio a Portugal reforçar-se com Karel Poborsky. O estrangeiro de maior expressão internacional a jogar cá no burgo (a seguir a Peter Schmeichel) rendeu ao Benfica 300 mil contos. Um caso de desleixo puro e simples por parte dos antigos dirigentes encarnados.

Enquanto não chega a acordo com Drulovic para a renovação, o FC Porto fez regressar Folha, produto da casa, extremo rápido que era na selecção do Euro-96 a primeira alternativa aos “violinos”. No dia do regresso teve o prémio da titularidade. Como não deve gostar de dívidas logo a seguir retribuiu com um golo.

Rodrigo Fabri pôs os pontos nos “is”: para não jogar no Sporting era melhor sair. Há sempre algo de positivo quando um jogador se insurge dessa maneira. Não está acomodado e se ninguém parece acreditar nas suas possibilidades acredita ele. Desde sábado com uma dúvida pelo meio: a razão parece estar do seu lado.

PUB

Há pouco mais de dois anos, eram muitos golos em poucos jogos; depois eram todos na Luz; depois ainda porque não aconteciam em momentos decisivos e não davam pontos ao Benfica. A fase final do Europeu resolveu os problemas de Nuno Gomes. E já vai tão longe que até marca em Turim à Juventus.

Soares Franco explicou alguns dos factores que pesaram para a saída de Inácio: “Motivação dos jogadores, a sua atitude e o ritmo de jogo evidenciado.” E ainda insistiu numa ideia muito em voga: que os futebolistas (os “activos” da empresa) são pagos para jogar e não para falar. Eu acho que tudo depende do que se diz...

Lá por fora

PUB

Boban é um dos mais esclarecidos e talentosos médios do futebol europeu da década de 90, um símbolo do Milan (caso raríssimo em Itália nos dias que correm) e ainda hoje um dos melhores jogadores do “calcio”. Pouco utilizado por Zaccheroni, Boban recebeu na semana que antecedeu o “derby” de Milão inesperada prova de confiança do técnico: seria ele o homem do jogo. O mais extraordinário de tudo é que antes de ser figura de proa da partida com o Inter (marcou um dos golos no empate a dois), o croata puxou dos galões e respondeu mal. Primeiro recusou a pressão e depois cumpriu o programa. Os grandes jogadores são assim!

Deixe o seu comentário
PUB
PUB