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Com 18 anos, Adélio queria oferecer uma prenda inesquecível a Verónica, a sua namorada sportinguista. Foi à porta da academia recolher mensagens de jogadores, sobretudo de Adrien Silva, o preferido dela. Perdeu o autocarro que o levaria a tempo até ao Freeport de Alcochete, de onde iria a pé para a academia. Acabou por ter de fazer a ultima parte da viagem de táxi, para chegar a horas. Gastou todo o dinheiro que tinha. Felizmente, depois de várias horas de espera, não só conseguiu depoimentos de grande parte dos jogadores, como Jorge Jesus lhe deu boleia no regresso a Lisboa. A conversa não andou muito à volta de futebol. Porque, apesar de todo este esforço, Adélio é benfiquista. O sacrifício foi por amor, não por clubismo.
Mesmo que seja ‘fanático’, como ele próprio se define, o Adélio é um adepto normal. Todos nós temos familiares, filhos, mulheres, maridos, amigos do clube adversário. Todos nós lidamos com isso com naturalidade, trocando galhardetes saudáveis. Muito poucos correspondem ao padrão de adepto a que alguns dirigentes, presidente do meu clube incluído, se parecem dirigir sempre que falam. Não seria difícil vencer o ambiente crispado que hoje se sente. E para os clubes seria excelente, já que deviam partilhar o objetivo de ter provas competitivas, credíveis e financeiramente sustentáveis. Claro que não basta mudar o discurso. É indispensável que o futebol profissional português ultrapasse a fase de subdesenvolvimento em que vive. A oferta de vouchers de refeição a árbitros, agora caucionada pelas estruturas de topo do futebol nacional, é um bom retrato da cultura nacional-porreirista dominante. Uma cultura onde dificilmente pode medrar a civilidade e o pragmatismo nas relações entre os clubes. E onde gestos como os de Adélio, absolutamente compreensíveis para qualquer adepto normal, continuarão a ser apenas simbólicos.