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1 – SEMPRE teve um coração maior que o corpo e uma auréola de talento capaz de iluminar um quarteirão inteiro. Na liberdade do bairro notava-se pela maturidade com que jogava, a caminho dos trinta mantém o sentido de aventura próprio de qualquer criança que alimenta o sonho eterno atrás de uma bola. Ontem porque era projecto para a saída de dificuldades, hoje porque lhe traz as melhores recordações dos primórdios da existência, o futebol tem para João Pinto a importância da própria vida.
No seu jogo genial, a que acrescentou o requinte e o luxo de uma experiência cada vez maior, permaneceram intactos os sinais da infância: emoção, atrevimento, picardia, revolta, provocação e resistência.
2 – TOSTÃO, o parceiro de Pelé no eixo de ataque do Brasil de 1970, afirmou: “Existe um saber que antecede a compreensão humana.” João Pinto tem incorporada essa magia, traduzida no instinto do toque, na inteligência do movimento, no prodígio da concepção e da execução.
Está normalmente à frente dos outros, porque se adianta no raciocínio, porque vê sem olhar, porque decide bem se deve jogar a um/dois toques, ou se deve levar por diante um quadro solitário de dribles – prova de que domina as regras específicas de cada zona do terreno. Como suprema demonstração de coragem, nunca se esconde e sugere disponibilidade permanente para receber a bola mesmo quando desafia a adversidade, a inspiração e os seus próprios limites.
3 – COMO o trapezista se habituou às alturas, João Pinto lida sem constrangimento com os caçadores furtivos destacados para o abater. Procura escapar através de truques prodigiosos e recorrendo à malandrice que o devolve aos tempos de escola.
É verdade: o jogo pára muitas vezes quando a bola lhe chega aos pés. Cai porque é mais frágil e não resiste ao choque, mas também cai porque no seu código genético o levantar-se do chão é uma fonte de inspiração para encarar o jogo e a vida. No Sporting, a sua resposta aos maus resultados e à instabilidade geral tem sido exemplar: joga cada vez melhor. O que não surpreende, porque vive num paraíso comparado com a realidade dos últimos três anos passados naquela corte romana que já regressou à base e sobre quem a história ainda não proferiu a última palavra.
4 – PERDIDA a liderança da “geração de ouro” para Figo e Rui Costa, João Pinto mantém o estatuto de referência máxima do campeonato português. César Luís Menotti, histórico defensor do compromisso do futebol com a estética, deu um bom exemplo para explicar a dependência dos artistas em relação à equipa.
“Também precisamos de gente para levar o piano até ao apartamento de Mozart”, disse um dia o treinador argentino, longe de conhecer a desgraça de João Pinto em muitos dos anos “encarnados” pós-título de 93/94: rodearam-no de carregadores tão incompetentes que o piano caía sistematicamente pelas escadas abaixo antes de chegar ao destino. E depois queixavam-se todos de que não havia espectáculo...
Figura – Sérgio Conceição
PSICÓLOGO CONTRATADO – A história está cheia de exemplos que provam a simplicidade do futebol. Em plenos anos 60, o River Plate deixou fugir dois campeonatos por inesperadas derrotas em casa nos jogos decisivos e procurou resolver o problema com uma medida revolucionária para a época: contratou um psicólogo.
DESCONCENTRAÇÃO – Uma semana depois, o novo reforço reuniu-se com as “tropas” e explicou a razão dos desaires: como o estádio ficava perto do aeroporto, o barulho dos aviões provocava desconcentração. Oscar Pinino Más, segundo melhor marcador da história do clube (199 golos) pediu então a palavra e devolveu o futebol à sua simplicidade: “E o senhor não quer ir à merda?”
GRANDE NEGÓCIO – Seguindo a rota dos bons exemplos: se pudesse e o Parma insistisse muito, a Lazio até vendia as torres de iluminação do Olímpico de Roma para ter Hernán Crespo no início da época. Como Malesani “só” quis Matias Almeyda e Sérgio Conceição fez-se um daqueles negócios tão do agrado dos italianos, mas só porque movimenta milhões.
UM DOS MELHORES – Ao cabo de quatro meses, Eriksson saiu, Crespo não marca, a equipa não rende e a Lazio teve de ir aos saldos contratar Poborsky. Enquanto isso, Sérgio Conceição continua a mostrar-se como um dos melhores médios-ala do futebol europeu da actualidade, utilizando um estilo directo, rápido e linear, com versatilidade para jogar em ambos os flancos.
COM AMBOS OS PÉS – Sérgio Conceição não tem a magia dos grandes dribladores, mas tem velocidade, bom toque de bola e aptidão para jogar (e rematar) com os dois pés; é inteligente, solidário com a equipa e goleador se a oportunidade surgir. O golo marcado em Florença, na vitória do Parma por 1-0, é digno de qualquer ponta-de-lança que se preze.
Passe curto
Em tempo de Taça, aqui fica uma equipa possível da I Liga 2000/01: Quim (Sp. Braga); Rui Óscar (Boavista), Jorge Costa (FC Porto), Wilson (Belenenses) e Rui Jorge (Sporting); Paredes (FC Porto) e Rui Bento (Boavista); Rafael (Paços de Ferreira), João Pinto (Sporting) e Drulovic (FC Porto); Van Hooijdonk (Benfica).
A saída de Luís Duque é um passo importante para que o Sporting cometa a proeza de destruir em pouco tempo o grupo que foi campeão nacional: Roquette, Manolo Vidal, José Manuel Torcato, Augusto Inácio, Fernando Ferreira, Fidalgo Antunes, Venâncio. Schmeichel, Beto, Pedro Barbosa e Acosta estarão ali bem?
Dias da Cunha, com a serenidade que o caracteriza, veio a público dizer que não há crise em Alvalade e olhando para os números a reconquista do título continua a ser possível. Se pensarmos que o Sporting foi campeão com tanta “incompetência” junta, a conclusão é simples: ainda há coisas na vida que acontecem por acaso.
Toni assumiu de forma mais clara e frontal uma ideia para a qual já tinha deixado algumas pistas antes mesmo de assumir o cargo: a contratação de Jardel não o seduz. Um bom argumento para aliviar Manuel Vilarinho, como foi para Vale e Azevedo a opinião de Jupp Heynckes no momento de dispensar João Pinto.
No FC Porto continua a rábula do silêncio e da ausência de informações aos jornalistas. O mais intrigante é verificar que um clube que há vinte anos lidera a organização e concepção de todos os passos relacionados com a equipa de futebol opte por um esquema de funcionamento indigno do prestígio de qualquer clube.
Lé por fora
Ronaldinho, não o que vai ser pai pela segunda vez, mas o que está a caminho do Paris Saint-Germain, antes de chegar à capital francesa já viu o nome envolvido numa confusão jurídica que, a julgar pelo seu aspecto inocente (dele, Ronaldinho), não percebe nem quer perceber. De resto, basta ver imagens de alguns treinos efectuados ao serviço do Grémio para se atingir a verdadeira dimensão do craque, a forma inocente e genial como trata a bola, como brinca com ela e como os companheiros o acarinham. O que lhe interessa o resto, mesmo se o resto forem valores que oscilam entre os 11 e os 16 milhões de contos?