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1 - EXISTE um mistério à volta da figura de príncipe encantado que os primeiros minutos em campo não ajudam a decifrar. Pode ser uma estrela de Hollywood ou um “top-model” acabado de chegar de Milão, mas o seu futebol não prolonga a dúvida eternamente: é ponta-de-lança da cabeça aos pés, declaração formal de inocência para a acusação sempre possível de ser grande e famoso por razões alheias ao talento que possui. O sentido estético deu-lhe um estilo sedutor, ao qual acrescentou o atrevimento indispensável para a função que desempenha. Agatha Christie inspirar-se-ia em Nuno Gomes, o predador meigo que associa a delicadeza dos gestos ao assassino que espera pela primeira distracção do adversário para lhe dar o golpe fatal.
2 - FALTA-LHE a força de Batistuta, espécie de Rambo que enfrenta feras desarmado e as domina a murro; não tem o instinto traiçoeiro de Romário; não engoliu o motor de F1 que explica o futebol vertiginoso de Ronaldo e nunca será capaz de imitar Jardel na paciência de pescador com que passa um jogo inteiro à espera da bola. Nuno Gomes tem a enquadrá-lo a inteligência com que foge às marcações e arrasta os defesas; a sobriedade como cria buracos participando na construção do jogo; a perfeição no modo de receber e entregar de costas para a baliza, aumentando desse modo as hipóteses de golo. E para culminar o bordado dos movimentos, tem velocidade para surgir na área, normalmente na diagonal e em antecipação, para descarregar o veneno acumulado.
3 - JOGA de mais para ser apenas um finalizador - e começam aí as semelhanças com Patrick Kluivert. A concepção do futebol afasta-o do espírito do ponta-de-lança típico, personagem mal-encarada, obsessiva e egoísta que não passa a bola nem à mãe, quanto mais a um companheiro, se perceber que dispõe de uma hipótese em cem para fazer golo. No seu estilo generoso e solidário, é surpreendente o despreendimento que revela com a contabilidade pessoal. A equipa está sempre primeiro. Em nome do equilíbrio colectivo não hesita em ocupar o espaço deixado em aberto atrás de si, mesmo que esse recuo no terreno represente desgaste suplementar para quem ali anda, aparentemente, com uma função definida: marcar golos.
4 - SE O passe está para o futebol como a palavra para a vida, então a selecção portuguesa é uma das melhores conversadoras no contexto mundial. Nuno Gomes sabe manter o nível do diálogo e no Euro-2000 acrescentou-lhe o toque final. Dito de outra forma, trouxe pontaria a um jogo feito de talento e deu sentido ao ritual da posse de bola; harmonizou com golos as sinfonias da geração de ouro e diminuiu o perigo de conversas brilhantes terminarem, como tantas outras no passado, em criminosas lengalengas que já não se usam. Terminado o exílio de oito meses, ele, Abel Xavier e Paulo Bento estão de volta. Celebremos, assim, mais um passo para a reunião da família, a 16 meses do Mundial de 2002.
A figura - Ricardo
1000 GOLOS? - Amadeo Carrizo foi um dos melhores guarda-redes de todos os tempos, argentino que só conheceu um clube (o River Plate), atingiu a I Divisão em 1945 e ainda foi a tempo de se cruzar com Pelé, em plenos anos 60. Não fez a coisa por menos ao falar do posto que revolucionou: “Um guarda-redes só se faz verdadeiramente depois de sofrer mil golos.”
NÃO CONCORDA - Os mais velhos nem sempre têm razão, mas é boa política não desprezar o que dizem e mais ainda quando fala uma figura lendária, desprendida de qualquer interesse, como é o caso. Ao reler a frase um nome chama a atenção: Ricardo, guarda-redes do Boavista, que tem boas razões para não concordar.
TALVEZ AOS 80 ANOS - Acabou de fazer 16 jogos no campeonato e só sofreu sete (!) golos. Tem 25 anos de idade. Por esta ordem de ideias, e projectando a média, mesmo juntando-lhe todos os golos que já sofreu, Ricardo só seria um guarda-redes verdadeiro lá para os 80 anos. O sorriso provocado por esta forma de ver a questão acentua-se a partir do jogo de domingo.
QUATRO MESES - Sendo o guarda-redes menos batido da I Liga, passou quatro meses e meio sem o merecido reconhecimento exterior. Em poucos dias aconteceu-lhe tudo: foi chamado (justamente) à selecção nacional e assinou exibição perfeita num jogo de estádio cheio, disputado a alta voltagem, com sabor a título.
TRITURADOS - Ninguém defende em Portugal como o Boavista. Na maioria das vezes, bola e adversários chegam a Ricardo já triturados pelas duplas Rui Bento/Petit e Litos/Jorge Silva (Pedro Emanuel). Não vou qualificar méritos, porque não estou à vontade para discutir se é ou não um grande guarda-redes. Mas o que se viu na Luz foi claro: tem perfil para uma grande equipa. O que é quase a mesma coisa.
Passe Curto
O fora-de-jogo, tal como hoje o conhecemos, está em vigor desde 12 de Junho de 1925. Quer dizer que no sábado, Acosta protestou a aplicação de uma lei com 75 anos. Pecado que não justifica ter sido expulso vítima de circunstâncias mais recentes: os disparates de árbitros sem sensibilidade para perceber o que é o futebol.
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Roger foi zero no jogo com o Boavista. Para cúmulo ainda deitou no cesto dos papéis um livre directo que para Van Hooijdonk era uma espécie de “penalty”. O artista brasileiro tem de perceber que há um nível abaixo do qual um grande jogador não pode descer. Sob risco de, afinal, não ser tão grande como parece.
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Uma semana depois de ter marcado três golos ao Sporting, o Alverca fez quatro ao Sp. Braga. Se Mantorras concentrou então todas as atenções, agora foi um regalo ver como o pequeno Rui Borges criou as condições para os golos espectaculares de Caju e Ricardo Carvalho.
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Diz-se que o campeonato é uma prova de regularidade. Talvez seja. Mas como explicar, se essa for uma verdade absoluta, que o Benfica esteja em segundo lugar? E como explicar que o Paços de Ferreira de José Mota, tão elogiado até ao momento, tenha os mesmos 32 pontos que o Farense de Manuel Balela?
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Em Nantes, Ovchinnikov cometeu um erro clamoroso no lance do segundo golo francês. Não ter sido um lance decisivo ajudou certamente a relativizar as coisas, mas a sensação de surpresa generalizada no momento de cometer um erro joga sempre a favor do guarda-redes: é sinal de que está a fazer uma grande época.
Lá por fora
Roberto Baggio é um dos mais extraordinários jogadores de sempre do futebol italiano e mundial, figura marcante do jogo desde o final dos anos 80. Era ídolo “viola” quando trocou, em 1990, Florença por Turim e pela Juventus. Jogador amado por toda a Itália, recebe dos adeptos da Fiorentina ódio de estimação proporcional à sua grandeza. No sábado voltou como capitão do Brescia - não esquecer que acabou de fazer 34 anos... Mas Roby continua a provar que é um génio e assinou dois golos que deram o empate à sua equipa, um deles, de livre directo, simplesmente maravilhoso.