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O primo afastado

O primo afastado

1 – NÃO teve a sorte de frequentar a mesma escola, nem beneficiou da sabedoria dos grandes mestres. Quando encontrou os comparsas de hoje na selecção era um desconhecido entre ilustres que já brilhavam no futebol europeu. A química não foi fácil: não cresceram juntos, não falavam a mesma linguagem, não tinham elos de ligação. Era o primo afastado que desconhecia as regras da nova casa – e o desenquadramento foi tal que chegou a parecer um pistoleiro tímido num filme de ficção científica. Se é verdade que uma equipa pode tornar-se mais forte a partir da harmonia de virtudes diferentes, Pauleta já acrescentou a sua parte à custa do princípio sagrado que o orienta em tudo na vida: como não é virtuoso, vinga-se marcando golos. Quem lhe pode levar a mal?...

2 – QUANDO não acerta um lance, define mal cada movimento, falha todos os passes e provoca a estranha sensação de que está ali a mais; quando a revolta exterior pela substituição que tarda é sustentada pelos erros que comete e acrescentada pela inércia do treinador, que já devia ter percebido ser inútil tê-lo em campo mais tempo, Pauleta tem normalmente uma resposta exemplar. Corre como se tivesse encontro marcado com a bola num lugar que o instinto definiu e faz o que lhe parece mais fácil: golo. Nessa altura, o estádio entra em delírio, ele abre os braços como se fosse um avião e goza perdidamente. Sobretudo com quem já devia saber a lição número um dos goleadores: com gente obsessiva e eficaz é preciso ter paciência e não cair no erro de a subestimar.

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3 – NÃO dribla porque não sabe; não discute porque se distrai; evita recuar no terreno por sentir que é inútil atrás e não inventa porque lhe falta imaginação. Mas possui uma força interior espantosa, lida bem com o erro, não perde a concentração e, apesar de tocar música diferente da genial orquestra que tem nas suas costas, a ambição é tão grande que lhe despertou a ousadia de reclamar sem medo do ridículo um lugar entre os violinos. Finta a mediocridade com uma inteligência humilde – esconde os defeitos, mostra as virtudes – e chega a superá-la através da arma mais poderosa: a disponibilidade para continuar a aprender. Por isso, como Jorge Valdano disse um dia de Gabriel Batistuta, por razões parecidas, cada golo de Pauleta constitui uma lição de vida.

4 – FRENTE à Holanda, nas Antas, não ligou à desafinação geral, fez de conta que não percebeu o significado do burburinho de um público resignado à derrota há muito anunciada e entendeu que devia esgotar os restos da energia acumulada para uma última e desesperada tentativa. Correu ainda mais, pressionou guarda-redes e defesas adversários, pediu ajuda aos companheiros e contagiou um povo inteiro. Só faltavam 10’ para o fim, havia 0-2 no marcador, mas era preciso acreditar. E não foi por acaso que o empate começou em Pauleta, o tal primo da ilha que para aqui chegar teve de aprender à sua custa e subir a pulso a corda do sucesso. Com tanto êxito que já se convenceu de que até o Everest não é propriamente um obstáculo inultrapassável.

A figura: Roger

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INFIDELIDADES – Sigamos Cesar Luis Menotti no seu raciocínio: “Quando um treinador elege jogadores que recebem poucas vezes a visita da inspiração, o futebol não é fiel à sua história.” É um bom princípio de conversa. O problema para todos nós é que muitas vezes a infidelidade à história premeia treinadores dando-lhes vitórias.

EMOÇÕES – Mas diz mais o técnico argentino campeão do Mundo em 1978: “O jogador deve estar condicionado pelo facto de ir entrar num teatro onde estão milhares de espectadores, com quem deve obter uma relação afectiva, oferecendo-lhes as emoções que procuram. Não tem o direito de assumir uma atitude mercantil, sem assumir qualquer risco.”

INSPIRAÇÃO – Concentremo-nos no caso de Roger e sigamos as palavras de Menotti. Toni está inocente quando o elege, porque o brasileiro possui um talento muito acima da média. Mesmo quando o pôs na bancada (no Restelo) respondeu a um conflito interno cuja dimensão conhecia melhor que ninguém. A pergunta neste momento é outra: será que a inspiração se esqueceu de Roger?

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CONTRATO ETERNO – Não parece ser o caso. Roger é daqueles que têm um contrato eterno com a inspiração; pode é não ter ainda estrutura física e sobretudo mental para a enquadrar da melhor forma quer com o adepto quer com a equipa e o clube. Já o vimos simplesmente genial, já o vimos assumir o egoísmo de jogar ao “salve-se quem puder” e vimos agora a versão “cabeça perdida”.

ESTATUTO – Toni, que sabe de futebol como poucos, não tem dúvidas quanto ao talento do jogador. Mas sabe que está a meio de um processo complicado: para render, Roger precisa de ser líder, mas (ainda?) não tem estatuto no grupo – quando manda ninguém ouve e quando joga poucos o acompanham. Mas aí o problema é outro: não acompanham porque não sabem mais.

Passe curto

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- Por Alverca passou um tornado inesperado, talvez até para o FC Porto: Clayton. Em menos de dez minutos varreu o jogo, primeiro provocando o alívio das coisas simples (passe da linha para a zona central que Pena não desperdiçou), depois dando-nos a felicidade das coisas belas (um golo de “chapéu” digno de qualquer artista).

- O guarda-redes atrasou-se no voo; os defesas não saíram ao seu encontro; o lateral não acompanhou o movimento a meio campo; o avançado perdeu mal a bola... Se é para recuar no tempo aí vai a melhor referência para o primeiro golo do FC Porto em Alverca: 21 de Fevereiro de 1972, o dia em que nasceu Capucho.

- Pela primeira vez, o Gil Vicente está acima da linha de água. Ou seja, se o campeonato acabasse agora não descia, o que é um óptimo sinal para a luta que aí vem. Está de parabéns Luís Campos pelo grande trabalho que tem levado a cabo. E André, cujo golo (de cabeça) deu a preciosa vitória sobre o Aves.

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- Jorge Couto regressou à titularidade no Boavista. O Overmars português, que nas últimas dez partidas não sabia o que era actuar de início, jogou no Funchal e mostrou, no mínimo, que ainda não se esqueceu do nobre e precioso ofício de andar pelos flancos (assim mesmo, no plural) a dar golos a outros.

- Bodunha parecia perdido na grande área. Tocou a bola uma, duas, três, quatro vezes; andou de um lado para o outro em espaço reduzido e sempre com os olhos no chão. Levantou a cabeça e o quinto toque foi sublime: remate intencional com o pé esquerdo, em arco, levando a bola a entrar no lado oposto. Um golo inesquecível.

Lá por fora

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Steven Gerrard, um dos meninos de Anfield, viveu tarde gloriosa no passado sábado, ao marcar golo excepcional, através de um remate extraordinário de força e colocação, disferido longe da grande área. O lance, que abriu o caminho à vitória do Liverpool, merece uma reflexão. O que distingue um grande golo de um golo para a eternidade? Em última análise o peso do jogo e a qualidade do adversário. Vistas as coisas dessa maneira há duas formas de analisar a questão: Gerrard beneficiou de marcar ao Manchester United, mas não sai muito beneficiado pela diferença entre as equipas, que já vai em 21 pontos.

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