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Um árbitro que falou ao "Público" sob anonimato explicou como o raio de ação do Canelas ultrapassa o relvado: "Eles sabem onde os árbitros moram, as escolas dos filhos, os estabelecimentos comerciais dos familiares… Entram nos cafés dos pais dos árbitros antes dos jogos dizendo… ‘se não se portam bem partimos esta merda toda’". Ao sabermos que quase todas as equipas se recusaram a jogar com o Canelas, tendo sido obrigadas a pôr a integridade física dos seus jogadores em perigo para não serem suspensas, é errado integrar a agressão a José Rodrigues num debate que trate apenas da violência contra árbitros. É mais do que isso.
Une os principais jogadores do Canelas a participação numa claque. E une muitos deles um modo de vida: sete jogadores têm ficha na polícia. Marco Gonçalves foi funcionário da SPDE, empresa implicada na Operação Fénix, que também envolve Pinto da Costa e Antero Henrique. Carlos "Aranha" Silva, que tal como Marco "Orelhas" Gonçalves e Fernando "Macaco" Madureira é membro dos Super Dragões, foi acusado no caso da Operação Jogo Duplo. A enorme vantagem do Canelas é ter posto sob os holofotes o ambiente de várias claques (e não apenas a do FCP), onde uma cultura de marginalidade conta com a conivência de dirigentes desportivos. Aquilo de que devemos falar quando falamos do Canelas é do submundo do futebol. No Porto, no Benfica ou no Sporting, tanto faz. E como a impunidade é tanta que essa cultura saltou da bancada para o relvado, exibindo a todos o clima de medo, coação e violência que criam no futebol. A mesma impunidade que permite a um clube com o historial do Canelas continuar a apresentar-se em competições oficiais. Tendo em conta a suspensão de um presidente por quatro meses por ter feito críticas a um dirigente federativo, sabemos que as regras disciplinares dão imensa latitude a quem tem de decidir. É apenas uma questão de vontade.