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1 – HÁ UMA estética aparentemente preguiçosa nos movimentos serenos e delicados que suportam um génio nem sempre reconhecido. Os profetas do esforço e do sacrifício deliram com as faíscas dos choques sucessivos, aplaudem de pé as correrias sem sentido, enaltecem a pressa tresloucada de quem pretende chegar primeiro e quer fazer mais depressa. Pedro Barbosa olha à volta, ri para dentro, tenta apenas não ser atropelado e usa o engenho para impor a técnica requintada. Junta-lhe o que é afinal a velocidade correcta, pela harmonia criada com a bola e pelo domínio perfeito de cada zona do terreno. Porque decorou o manual que dá respostas às eternas reclamações da falta de espaço, encara sem constrangimento a barafunda musculada do meio campo.
2 – NESTA ansiedade que estimula a importância de super-homens prontos para duas maratonas em hora e meia, Pedro Barbosa sobrevive escudado na inteligência superior. Como pensa antes de correr acaba por ser mais rápido que os outros; como é um prodígio na concepção e execução encontra o espaço que falta à vista desarmada; como já sabe o que vai fazer quando chega à bola escapa ileso à ira dos assassinos em série que por ali andam, capazes de cometer qualquer indignidade para o travar. Se o talento reside na arte de transformar defeitos em virtudes, processo automático através do qual a imaginação vence qualquer desafio, poucas dúvidas restarão de que estamos perante figura ímpar do futebol português dos últimos dez anos.
3 – PEDRO Barbosa conhece como ninguém os paradoxos de um desporto atacado pelo vírus da mesquinhez, que torna tão fácil a glorificação de jogadores medíocres como a discussão das figuras maiores. Sem trair o estilo único que desencadeia paixões de sentido oposto, sobretudo lá pela grande casa de Alvalade, é verdade que acrescentou empenho à acção defensiva, atenção à cobertura do espaço e solidariedade à repartição do esforço. É hoje um jogador mais completo: sensível ao erro mas sereno no comportamento; nervoso nas situações de conflito mas diplomata por formação; resistente ao sorriso mas para quem a felicidade do grupo é um bem absolutamente sagrado.
4 – INTELIGÊNCIA, liderança e sentido de responsabilidade, eis três qualidades que provocam pânico em treinadores e dirigentes vulneráveis, que não vivem descansados sem amigos poderosos no balneário. Ao longo de uma década na I Divisão, Pedro Barbosa soube preservar a independência e refinou a arte de gerir o silêncio. Numa altura em que revela tolerância máxima com a estranha situação de estar a poucos meses do fim do contrato, o desafio é outro: conquistar a selecção nacional e enquadrar-se com a “geração de ouro”. Isto é, retomar o que ficou pendente naquela noite de Setembro de 1997, em Berlim, quando na presença de todas as estrelas foi ele quem nos alimentou o sonho do Mundial de França através de um golo à sua imagem: simplesmente genial.
Figura - Guga
FUMAR EM CAMPO – Arrigo Sacchi queixava-se muitas vezes de Van Basten. Dizia o técnico italiano que o melhor ponta-de-lança do Mundo dos últimos vinte/trinta anos (há até quem o considere o melhor de todos os tempos) não se esforçava o suficiente. “Só lhe falta fumar em campo” foi a frase célebre que eternizou o lamento.
CABEÇA PERDIDA – Guga não fuma, mas podemos imaginá-lo de cigarro ao canto da boca em pleno relvado, com aquele ar de malandro comum a todos os dribladores que se prezem. Anda ali – e “ali” para ele é todo o lado – não apenas para vencer a oposição, ganhar espaço e correr para a baliza, mas para fazê-lo de forma a que os adversários directos percam a cabeça.
QUE DESILUSÃO! – Entrou desiludido em campo: queria Roger e Escalona no onze de Toni e eles nem sequer no banco estavam. Mas tudo se resolveu: no caso do génio brasileiro, se era por ser inútil para a equipa, Maniche substituiu-o perfeitamente; no caso do chileno, se era pela falta de rins e excessiva propensão atacante, Diogo Luís compensou tudo com ingenuidade.
UMA FESTA – Para Guga, o Belenenses-Benfica foi uma festa. Ia partindo Marchena com um drible em que lhe meteu a bola por debaixo das pernas; deixou Dudic a pensar que as leis da física são uma farsa, quando junto ao canto passou por ele não se sabe como; criou tamanho desespero em Diogo Luís que o rapaz esteve quase, quase a tirar-lhe os calções para o travar.
ESPANTOSO – Mas o ponto alto foi aquele cruzamento espantoso para o golo de Marcão, digno de qualquer enciclopédia de futebol: forte e com efeito para facilitar a eficácia do remate; com direcção perfeita e a meia altura para anular as hipóteses de intercepção do defesa. O último que vi foi de Rui Costa para a cabeça de João Pinto – segundo golo de Portugal com a Inglaterra, no Euro-2000.
Passe curto
Ao cabo de uma semana agitada, Toni não convocou Roger para o Restelo. E fez bem. Mas como perdeu diz-se agora que a equipa é fraca e não pode dar-se ao luxo de prescindir do génio. Estarei a ficar louco ou foi por “culpa” de Roger – atribuída em uníssono – que o Benfica empatou com o Boavista e perdeu em Braga?
Se o Benfica voltou a perder, desta vez sem Roger, o Beira Mar voltou a ganhar, desta vez sem Ricardo Sousa, prova de que é raro um só jogador alterar toda a dinâmica da equipa. E António Sousa está de parabéns pela forma como transformou um candidato à descida numa equipa salva, que leva cinco (!) vitórias consecutivas.
Pelo menos enquanto houver bola, o árbitro não pode pensar nem agir como se fosse o centro do jogo; deve procurar ser sóbrio, discreto e evitar criar ele próprio problemas que o atrapalhem e conduzam a erros supérfluos. Estão a ver Olegário Benquerença no Belenenses-Benfica? É aquilo só que ao contrário.
Montero, defesa da Juventus, surpreendeu quando afirmou dar os parabéns aos avançados que inventam “penalties” inexistentes. Se fosse jogador do Leeds e sofresse aquele golo claramente metido com a mão, em Chamartin, presumo que seria o primeiro a pegar em Raul e a levá-lo em ombros para uma volta ao estádio.
Os extremos do Boavista são um caso sério e nem interessa saber neste momento se são fenómenos absolutos ou apenas jogadores vulgares em estado de graça. Duda “ganhou” ao Benfica (1-0), Martelinho “ganhou ao FC Porto (1-0) e ambos “ganharam” agora em Paços de Ferreira (2-0). Já são muitos pontos...
Lá por fora
Gheorghe Hagi, um dos mais extraordinários futebolistas do nosso tempo, tem tanto de genial como de irascível, razão que explica em parte o insucesso no Real Madrid e no Barcelona, os dois clubes mais importantes que representou. Oito meses depois de cometer o pecado de abandonar o Euro-2000 com reacção desvairada que lhe valeu a expulsão, eis que, ao serviço do Galatasaray, surgem notícias de que um golo anulado o fez perder a cabeça, de tal forma que pesa sobre ele a acusação de tentativa de agressão ao árbitro. A confirmar-se a pena de sete meses de suspensão, é lamentável que tenha escolhido abandonar o futebol desta forma.