A continuidade dos três grandes
Já são conhecidas as contas dos três grandes do futebol relativas à época 2017/2018 e, mais uma vez, os números não são tranquilizadores, bem pelo contrário, embora existam contrastes que é justo assinalar.
Comecemos pela linha de fundo da demonstração de resultados, aquilo que fica para os accionistas, que no caso das SAD de Sporting, Porto e Benfica são sobretudo os clubes, mas também muitos sócios que têm acções, além de empresários, como Álvaro Sobrinho no Sporting ou José António dos Santos no Benfica, que têm participações elevadas no capital.
O Porto vai no terceiro exercício seguido de prejuízos, embora menores: foram 28,4 milhões. O Sporting passou a prejuízos de 19,9 milhões, penalizado pela rescisão de jogadores. O Benfica manteve a senda dos lucros, ainda que mais magros: 20,6 milhões.
Um resultado líquido negativo obriga, não havendo reservas, a comer o capital da sociedade, o tal que é dos accionistas. É assim que o Sporting volta a ter capitais próprios negativos de 13,3 milhões e o Porto agrava-os para 38,1 milhões. Os do Benfica melhoraram para 86,8 milhões positivos. Na prática, isto significa que, tendo em conta os valores no balanço, se Sporting e Porto fossem dissolvidos, os activos não chegariam para pagar as dívidas.
Sendo gigantes os passivos dos três grandes, há a assinalar que tanto Sporting e Benfica diminuíram o seu num valor considerável, enquanto o do Porto disparou 20% para 464 milhões, ultrapassando o do clube da Luz (398 milhões).
O Sporting lá tinha nas contas a ênfase do auditor, a PWC, a explicar que a continuidade das operações se "encontra dependente do apoio financeiro dos accionistas, da rentabilidade futura das operações, da capacidade de obtenção de recursos financeiros externos", etc. O Porto também terá idêntico reparo no seu relatório e contas.
Vamos então por pontos:
1. Apoio financeiro dos accionistas. Se os clubes estão sobreendividados, não se vê que tenham ou consigam obter meios financeiros para reforçar o capital das SAD. Pedem dinheiro aos sócios, género "Operação Coração"? Arranjam um accionista para entrar no capital, arriscando que o clube perca a maioria da SAD?
2. Rentabilidade futura das operações. A única forma de evitar o cenário acima é pôr as SAD a dar lucro de forma continuada, ano após ano, reforçando os capitais. Para isso, é preciso que os resultados não dependam demasiado da venda de jogadores ou das competições europeias e que os encargos financeiros e com pessoal sejam sustentáveis.
Um dos critérios usados pela UEFA no "fair play financeiro" é o peso dos custos com pessoal nos rendimentos operacionais, excluindo a venda de passes de atletas, que não deve ultrapassar os 70%. No Benfica é inferior a 60%, no Porto é de 74,5% e no Sporting de 80,6%. Quer nas Antas, quer em Alvalade, a sustentabilidade continua a ser levada pouco a sério, com os encargos com pessoal a crescer sem um retorno correspondente.
Já agora, faz sentido que a administração da SAD do Porto aumente a sua remuneração fixa, após três anos de prejuízo? Fica a perplexidade.
3. Capacidade de obtenção de recursos externos. Que é como quem diz, obter financiamento. Os elevados passivos, em contraste com resultados operacionais magros ou mesmo negativos, significam que o risco de emprestar aos clubes é muito elevado. Mais ainda, com as taxas de juro com tendência para subir. Reduzir os passivos é o único caminho para evitar o colapso.
Ou bem os clubes conseguem ser bem sucedidos nestas três frentes, ou a sua sustentabilidade continuará perigosamente no fio da navalha.
