Mourinho perdeu o toque?
O fim da carreira de José Mourinho à frente do Manchester United é abertamente discutido em Inglaterra depois de uma série de maus resultados e tensões entre o treinador e jogadores. O jogo de hoje contra o Valencia pode ser decisivo.
A derrota, por 3-1, contra o West Ham carimbou o pior arranque de época em 29 anos. O United está no décimo lugar da Premier League – com três derrotas, outras tantas vitórias e um empate –, a nove pontos dos líderes Manchester City e Liverpool. Foi já eliminado da Taça da Liga pelo Derby County.
Segundo relatos na imprensa inglesa, a sua saída do cargo foi tema de conversa entre jogadores e ‘staff’ no autocarro de regresso a Manchester. E ontem já se atiravam para cima da mesa nomes para o substituir, entre eles o de Zidane.
O problema não está apenas nos resultados, mas na relação tensa com os jogadores, em particular com a estrela maior do United, Paul Pogba, num conflito que já leva meses.
Podia-se não gostar do futebol mais defensivo e menos deslumbrante, mas era difícil questionar a eficácia. José Mourinho é dono de um currículo ímpar. Pertence a uma elite restrita de treinadores que já venceu a Liga dos Campeões ao comando de duas equipas diferentes e venceu campeonatos nacionais em quatro países.
Tal como o mitólogo Midas, Mourinho tem um toque especial capaz de dar um novo e superior valor às equipas. Foi assim no Porto, que levou à conquista da Liga dos Campeões, no Chelsea, que com o treinador português ganhou o primeiro campeonato em 50 anos, ou no Inter, que também conduziu à conquista do mais importante título de clubes europeu. Terá perdido o toque?
O toque de Mourinho está nas suas competências de gestão e liderança. Luís Lourenço, professor universitário e biógrafo do treinador, chama-lhe um "mestre da inteligência emocional". Uma capacidade que lhe permite estabelecer uma ligação com os jogadores e deles extrair o melhor. No fundo, fazer com que se superem em campo. Uma característica elogiada, de resto, por vários jogadores que treinou.
Essa centelha deixou de se ver ainda durante a segunda encarnação de Mourinho no Chelsea e ainda não se viu no Manchester United. O próprio não convive bem com isso.
Paradoxalmente, o mestre da inteligência emocional revela pouca capacidade para lidar emocionalmente com o fracasso. Entre conciliar e incendiar os ânimos, prefere quase sempre a segunda opção. É essa exigência que faz dele o treinador de elite que é. Talvez, mas não resulta sempre. Mourinho, desta vez, não conseguiu agarrar o balneário. Sem isso Mourinho não consegue ser Mourinho e o currículo não ganha jogos.
O United atravessa uma crise de identidade desde que Alex Ferguson se reformou. Talvez a Mourinho falte outra competência agora muito em voga na gestão: a inteligência contextual, que pode ser definida como a capacidade de aplicar estratégias diferentes em diferentes situações. Mourinho e Old Trafford não se adaptaram um ao outro.
