Os mitos também se abatem?

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Ronaldo é idolatrado, como jogador e como homem. Não há ninguém no mundo com mais ‘likes’ no Facebook (122 milhões) e são muito poucos os que ultrapassam a sua popularidade no Twitter e Instagram. Para quem o admira, e somos tantos, custa aceitar que dentro do ídolo possa existir um homem capaz de uma violação.

Essa crença inabalável no mito contribui para a onda de solidariedade para com o jogador e de crítica à modelo americana. Na verdade, pouco importa discutir as motivações de Kathryn Mayorga. Sejam elas quais forem, sejam mais ou menos nobres, não ilibam ou condenam Ronaldo. Isso só a justiça poderá fazer.

As marcas, incluindo a poderosa Nike, optaram, por enquanto, por esperar pela evolução do processo, limitando-se a manifestar preocupação. É um ponto a favor de Ronaldo. Mas, neste momento, já hesitam sobre se o jogador é um ativo ou um embaraço. A Juventus perdeu, entretanto, em bolsa parte do valor que a contratação lhe deu – é o impacto mensurável.

O caso não é novo. Veio pela primeira vez a lume em abril de 2017, também na revista ‘Der Spiegel’, tendo por base documentos divulgados pelo Football Leaks, mas perdeu fôlego, abafado pelo desmentido de Ronaldo e a omissão da identidade da acusadora. Agora regressa, e com redobrada força, porque também o mundo mudou e o assédio sexual tornou-se um dos temas sociais mais prementes do nosso tempo. E ainda bem que assim é, apesar do puritanismo totalitário em que às vezes se manifesta.

Ronaldo parece ser de outro mundo, tais são as suas capacidades futebolísticas. Para quem gosta da modalidade é um privilégio poder partilhar o seu tempo, vê-lo jogar em direto e vibrar com o seu brilhantismo. A Wikipedia tem uma entrada só sobre as conquistas individuais e colecivas do jogador e vê-las todas obriga a um longuíssimo ‘skroll’ pela página de Internet. Impressiona.

Nada disso desaparece com a acusação de violação de Kathryn Mayorga. Foi o que vincaram o Presidente da República – "eu não mudo de ideias quanto ao papel desportivo e nacional que alguém que hoje está envolvido na justiça teve na vida do nosso país" – e o primeiro-ministro – "está provado que Ronaldo tem sido um extraordinário profissional, desportista e futebolista, que tem honrado Portugal".

Ambos enaltecem i futebolista. Será possível dissociá-lo do homem agora acusado? Sim, porque há um plano desportivo que, aconteça o que acontecer, será indelével. Não, porque obviamente não há como um plano não contaminar o outro, ainda que o desempenho de Ronaldo no último jogo pela Juventus tenha mostrado um jogador inabalado nas suas capacidades, contribuindo mais uma vez para o arranque ímpar que a Vecchia Signora regista este ano, com 10 vitórias em 10 jogos.

Os mitos também se abatem. Lance Armstrong é um exemplo, mas porque o escândalo de doping atingiu o coração daquilo que representava enquanto desportista. Não é o caso de Ronaldo.

Ronaldo será sempre Ronaldo e esperamos poder continuar a vê-lo espalhar magia nos relvados ainda por vários e bons anos. Mas este caso será uma mancha difícil de apagar, até pelos elementos que já são conhecidos. Um novo acordo com Kathryn Mayorga que evite que o processo criminal siga o seu caminho poderá acabar por silenciar o caso, mas não a dúvida que agora assalta os espíritos.

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