Do oitenta aos 'oitavos'

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’Mister Chip’ é um fenómeno das estatísticas no mundo digital e logo após Portugal marcar o 1-0 escreveu: "o golo de Ricardo Quaresma, por certo, é antológico. Bom, a maioria dos golos que marca são assim..." São, de facto, e aquela trivela mágica a fechar a 1.ª parte do encontro com o Irão deixou-nos às portas do paraíso.

Até a esse momento genial (não apenas o gesto técnico a levar a bola a entrar na gaveta, mas também o toque habilidoso de Adrien Silva a rasgar caminho), Portugal teve quase sempre o controlo do jogo, perdendo apenas algum equilíbrio quando, por culpa própria, começou a errar passes fáceis a meio campo. Foi mais por incompetência e desconcentração do que propriamente por pressão dos iranianos. Aliás, se havia dúvidas quanto à estratégia da seleção treinada por Queiroz, elas desfizeram-se logo no arranque do jogo. Apesar de ter de vencer para passar, o Irão apresentou-se com um bloco baixo e compacto, deixando Portugal circular a bola no seu meio-campo.

Equilíbrio e segurança são palavras-chave na Seleção de Fernando Santos. Mesmo num contexto favorável, o treinador só liberta a equipa pela certa. Não corre riscos desnecessários, é pragmático como um engenheiro tem de ser rigoroso nos seus cálculos, não se atreve a dar um passo maior do que a perna, a não ser que seja obrigado a isso. Sendo assim, a prioridade foi sempre esta: garantir o essencial e dispensar o acessório. Não se queixe por isso por ter ficado no 2.º lugar em vez de ter terminado no 1.º.

É claro que tudo poderia ter sido diferente se Cristiano Ronaldo não tem falhado o penálti. Portugal teria chegado ao 2-0 e nessas circunstâncias já dificilmente o Irão seria capaz de nos criar os sobressaltos que acabou por provocar, chegando ao ponto de nos deixar à beira de um ataque de nervos. Sim, é verdade. Portugal passou do oitenta da trivela mágica de Quaresma, para o oito logo após o falhanço de Ronaldo. E fomos caminhando até aos ‘oitavos’ com o abismo ali ao lado porque nestas coisas estamos sempre à espera de uma fatalidade.

Vá lá, evitámos o pior – que seria uma enorme desilusão para não falar em humilhação – mas, parafraseando Ronaldo, continuamos a jogar pouco. Há um problema que limita a Seleção e não se percebe se é uma questão de incapacidade (física?) ou apenas de interpretação do jogo, como tem insistido Fernando Santos. Seja o que for, convém que se descubra e se resolva.

QUESTÕES LATERAIS

Queiroz jogou com as emoções

Entrar na cabeça dos jogadores é um mérito dos grandes treinadores. Carlos Queiroz tem-no feito ao serviço do Irão, onde tem sido necessário usar essa competência para tirar tudo (e mais alguma coisa) de uma equipa que compete num contexto de extrema dificuldade, atendendo às limitações que lhe são impostas pelo embargo político. Desta vez, Queiroz sabia que também era possível mexer com os sentimentos do adversário (não foram inocentes as declarações que fez antes do jogo, a lançar toda a pressão para Portugal bem como as críticas permanentes à arbitragem e ao VAR). Usou, pois, todas as armas e, durante o jogo, abusou também delas – por exemplo, quando foi assinalado o penálti a favor de Portugal, o treinador atirou o casaco para o banco e foi para o túnel. Com um ambiente ‘pró-Irão’ nas bancadas, Queiroz espicaçou adeptos e jogadores, dando ao Irão um suplemento de alma e a verdade é que quase fazia o milagre.

... E até irritou Quaresma

A reação de Quaresma no final do jogo ("não vou responder a Queiroz senão ficamos aqui a noite toda") ilustra a tensão vivida no campo com o banco e o selecionador do Irão. Mas Quaresma também se pôs a jeito quando ‘respondeu’ a uma entrada de Ezatolahi e que lhe valeu o cartão amarelo e a substituição eventualmente precoce. Por isso saiu com cara de poucos amigos.

NOTAS DE RODAPÉ

5. Ricardo Quaresma, entrou no onze para fazer a diferença e fez. No início, até parecia jogar como ponta esquecido, mas quando teve a oportunidade de dar asas à imaginação, lá saiu a trivelada do nosso contentamento. Um artista! 

4. Pepe, esteve impecável. Superconcentrado, sempre a despertar a equipa quando esta parecia estar a cair num torpor perigoso, o centralão contribuiu de forma decisiva para que Portugal se mantivesse firme no sector defensivo. 

3. Adrien Silva, foi titular e não terá sido apenas porque Moutinho não estaria a 100 por cento. Foi um jogo mais físico e aí o médio do Leicester foi um dos que deu o corpo ao manifesto. O ‘pormenor’ no golo de RQ merece o devido realce. 

2. Cristiano Ronaldo, tem 13 penáltis pela Seleção e já falhou 6. Não é um registo normal num jogador que na sua carreira tem uma capacidade de aproveitamento nestas situações superior a 80 por cento (obrigado ‘Mister Chip’!). 

1. William, lento e previsível, travou muitas vezes o jogo quando o lance pedia uma saída rápida. A falta de concorrência e a indefinição em relação ao futuro profissional, podem ser fatores que estão a condicionar a sua performance. É pena. 

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