António Oliveira

António Oliveira Senador da Fundação do Futebol

Sabor amargo

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A jornada de arranque da Liga dos Campeões acabou com sabor amargo para os clubes nacionais. Benfica, Sporting e FC Porto tiveram a vitória na mão e acabaram por não ficar com ela. Águias e dragões, por terem jogado no seu estádio, terão agora de recuperar esses pontos perdidos nos jogos fora de casa. Quanto ao Sporting, fica a imagem de uma grande exibição que esteve a minutos de superar o campeão europeu e a garantia de que, jogando a este nível, disputará o apuramento para os oitavos-de-final com Real Madrid e Dortmund.

Por ironia do destino, acabou por ser um atleta emprestado pelo Benfica ao Besiktas a roubar a vitória dos encarnados nos últimos segundos da partida. Mais irónico ainda é pensarmos que, se Talisca continuasse nas águias, talvez tivesse sido opção para jogar a titular neste jogo. Desfalcado das suas principais unidades ofensivas, Rui Vitória teve de apostar na adaptação de Gonçalo Guedes e Franco Cervi para o ataque, escolhas que até foram relativamente bem sucedidas.

No entanto, as dinâmicas ofensivas da equipa pedem maior acerto na finalização e, nesse aspeto, as ausências de Mitroglou, Jiménez e sobretudo de Jonas penalizaram a equipa, órfã de um ‘matador’. E num jogo equilibrado como foi o da Luz, com a bola a rondar as duas balizas, quem não mata, arrisca-se a morrer. O Benfica podia ter resolvido as coisas a seu favor, mas não conseguiu.

Já o Sporting realizou uma exibição de encher o olho em pleno Santiago Bernabéu. Os leões não se assustaram com o nome do adversário e fizeram um jogo de grande personalidade, circulando a bola sem receio de progredir no terreno e empurrando o poderoso Real Madrid para o seu meio campo. Além disso, o acerto defensivo dos portugueses, com destaque para a dupla de centrais, fez com que os madrilenos apenas rematassem por 3 vezes na direção da baliza, números anormais para quem está habituado a fazer tiro ao alvo da baliza adversária.

A certo momento sentiu-se que a vitória já não iria fugir aos leões, tal a competência e perfeição com que estavam a cumprir a sua estratégia, em simultâneo com a desinspiração madrilena que parecia não ter ideias para superar o Sporting. Mas do outro lado estão jogadores capazes de mudar um jogo rapidamente e em pouco mais de 5 minutos viraram o resultado. Não há vitórias morais no futebol, ganha-se ou perde-se, mas podemos contar com o Sporting para lutar por um lugar nos oitavos-de-final.

Perante uma equipa algo desconhecida para os portugueses, o FC Porto também não conseguiu bater o FC Copenhaga. O adversário dinamarquês veio ao Dragão mostrar porque ainda não perdeu esta época, um ciclo que já vai em 15 partidas sem perder, tendo sofrido poucos golos e mostrado grande força ofensiva no seu campeonato e nas pré-eliminatórias da Champions.

Os portistas até poderiam ter resolvido cedo e passar uma noite sem sobressaltos, mas após o golo a equipa retraiu-se e deu espaço para o FC Copenhaga subir no terreno. A equipa tinha de ser mais mandona, chamar a si a posse de bola e criar mais oportunidades. Porém, os dragões chegaram poucas vezes sem perigo à área adversária. O FC Porto tinha obrigação de fazer mais em termos ofensivos, faltou maior acutilância e este é claramente um aspeto a melhorar nos próximos desafios.

Podíamos estar hoje a falar de um pleno de vitórias na Liga dos Campeões, mas quis o destino que as vantagens fossem anuladas. Uma lição pertinente que fica: os jogos são para se disputar com a mesma intensidade até ao fim.

O craque – Gelson chegou à montra europeia

Está a ter um arranque de temporada de grande qualidade e aproveitou muito bem a montra de Madrid para se dar a conhecer aos adeptos do futebol europeu. Gelson Martins tem sido um das figuras em destaque no Sporting e está a beneficiar da melhor maneira da vaga deixada por João Mário na equipa leonina. Gelson foi o agitador de serviço no Santiago Bernabéu, fazendo uso da sua técnica e velocidade vertiginosa para criar problemas aos defesas merengues. E não se inibiu de tentar o remate sempre que podia. Um jogador em pleno momento de afirmação.

A jogada – Jogo importante para Jesus

É verdadeiramente nos jogos da Liga dos Campeões que os treinadores de topo se conseguem distinguir dos restantes. São as grandes partidas que mostram como o dedo e a qualidade de um treinador pode fazer com que uma equipa se transfigure e consiga competir entre os melhores. Depois de vários anos a dar mostras do seu talento no plano interno e também na Liga Europa, o Real Madrid-Sporting foi um palco importante para Jorge Jesus. A sua estratégia quase travou o campeão europeu e mostrou que está preparado para partidas de exigência máxima.

A dúvida – Fazer barulho ou dar palco às estrelas?

Era importante que jogadores e treinadores tivessem mais palco nos média. Que os clubes regularmente permitissem entrevistas em que estes pudessem falar sobre objetivos, táticas e o trabalho desenvolvido nos treinos. Que o futebol em si fosse o assunto principal. Pelo contrário, temos assistido a um ambiente de guerrilha entre clubes, onde interessa mais fazer "barulho" nas redes sociais para aparecer e tentar distrair as pessoas de outras questões mais pertinentes. Não seria mais positivo promoverem o produto futebol, onde jogadores e treinadores são peças centrais?

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