Caixinha de surpresas
A presente edição da liga prova que o futebol pode ser uma caixinha de surpresas. Mesmo com a ida do treinador campeão para Alvalade, poucos se atreveriam a dizer no início da temporada que, chegados ao início de janeiro de 2016, as duas equipas com maior orçamento do futebol português estariam com um atraso de 4 pontos em relação ao Sporting. Isto só vem provar que o favoritismo não se mede pelo tamanho da carteira, mas sim pela qualidade do futebol praticado dentro de campo. E nos jogos frente a Benfica e FC Porto os leões foram superiores, estando o nível do seu futebol a evoluir de jogo para jogo. Não é uma equipa perfeita, mas justifica a liderança da liga.
Jorge Jesus tem mérito na forma como potenciou as qualidades de vários jogadores, mas justiça seja feita, está a rentabilizar a base de uma equipa lançada e trabalhada por Leonardo Jardim e Marco Silva. Jogadores como Rui Patrício, Paulo Oliveira, Jefferson, William Carvalho, Adrién Silva, João Mário ou Slimani foram apostas dos treinadores anteriores, ganharam experiência, cresceram e são hoje jogadores importantes na espinha dorsal da equipa leonina, que resulta do trabalho realizado nos últimos dois anos e meio.
Já o FC Porto, que há uma semana era líder, parece afetado pela pausa natalícia, com más exibições e um clima de depressão entre treinador, equipa e adeptos, a marcarem a entrada em 2016. Há várias formas de olhar para o problema. A mais comum está nas decisões do treinador, nem sempre consensuais, pela insistência por um modelo de jogo previsível, ao qual tem faltado dinâmica, velocidade, garra e ideias para encostar os adversários à sua baliza.
Diz-se que Lopetegui não está a aproveitar o plantel que tem. O caso mais flagrante será o de Imbula (enigma para mais tarde analisar), mas penso que será bom clarificar: este FC Porto é pior que o da época passada. Os números confirmam: menos pontos, menos golos marcados e mais golos sofridos. O núcleo duro do ano passado foi desfeito com as saídas de Danilo, Jackson, Alex Sandro, Casemiro, Óliver e Ricardo Quaresma, o que obrigou a refazer quase por inteiro uma equipa que, até ao momento, não chegou ao nível da do ano anterior.
Há outro fator relevante no atual momento dos dragões: a descrença dos adeptos. E nisso, há responsabilidade de Lopetegui, que não tem conseguido mobilizar e entusiasmar os portistas através do discurso e do futebol praticado. Há que reacender rapidamente a chama dos adeptos azuis e brancos para devolver confiança e ânimo. Sem isso, será muito mais difícil.
Quanto ao Benfica de Rui Vitória, que nas últimas nove jornadas conquistou 25 pontos em 27 possíveis, os sinais de recuperação são notórios. Encontrou em Renato Sanches, um novo talento e um maior equilíbrio para o meio campo, mostra grande produtividade ofensiva e parece estar agora a jogar com uma alegria que não se via no início. No entanto, a equipa denota fragilidades defensivas que, perante adversários de maior nomeada, podem ser problemáticas. Mas os encarnados parecem ter agora outro andamento para encarar os desafios que faltam.
Com um líder "inesperado", uma equipa em recuperação e outra à procura de melhores exibições, não faltam ingredientes para animar a segunda volta do campeonato. E tudo pode mudar de um momento para o outro. Conseguirá o Sporting manter a consistência? Este momento positivo do Benfica é para durar? E como irão os dragões reagir ao recente ciclo negativo? Janeiro será um mês importante para o percurso das 3 equipas.
O Craque – Peça chave no puzzle leonino
Não é por acaso que é um dos jogadores mais utilizados por Jorge Jesus. Com o seu futebol aveludado, a inteligência com sabe ler o jogo com e sem bola, a qualidade do passe e o remate fácil, João Mário tem sido uma peça essencial para fazer engrenar a máquina leonina. Seja no miolo do terreno ou nas faixas, o médio português tem sido preponderante para a dinâmica do futebol da sua equipa. Boa parte do jogo do Sporting passa pelos seus pés. E repare-se que estamos a falar de um jovem com apenas 22 anos. O potencial é enorme.
A Jogada – Duelo pouco dignificante
Pode até ir animando a agenda mediática e fazer parte de uma estratégia de comunicação dos próprios clubes (os chamados mind games para fazer mossa no adversário), mas o certo é que o atual clima de tensão entre os treinadores de Benfica e Sporting não dignifica o futebol português. Os técnicos devem distinguir-se pela competência e trabalho desenvolvido nos treinos e jogos. Rui Vitória e Jorge Jesus já deram provas do seu mérito e o seu foco deveria estar nas suas equipas. O permanente bate-boca não enobrece ninguém.
A Dúvida – Ajustar antes que seja tarde
Com a primeira volta quase cumprida, são notórias as dificuldades que Tondela (estreante nestas andanças), Boavista e Académica estão a sentir, sendo as equipas com menos vitórias conquistadas. As distâncias para outras equipas que lutam pela manutenção não são decisivas, mas podem começar a ser um problema se o fosso se alargar nos últimos lugares da classificação da liga. As três equipas já trocaram de treinador esta época (no Tondela, Petit é mesmo o terceiro técnico no cargo) e deverão ajustar os seus plantéis no mercado de inverno. Quem terá capacidade para recuperar terreno?
