Desafio das SAD
As sociedades anónimas desportivas, normalmente designadas por SAD, são um fenómeno recente com cerca de duas décadas. Foi a solução encontrada pela maioria dos clubes nacionais para darem resposta a um futebol cada vez mais transformado em indústria onde se movimentam milhões. Surgiu assim o clube-empresa, que para além de sucesso desportivo, passou a ter também a responsabilidade de assegurar estabilidade financeira.
No entanto, e ao contrário de uma típica empresa, que se foca no lucro e obtenção do máximo rendimento, as SAD comportam outro tipo de gestão. Por estas características tão próprias, em que as emoções jogam um valor mais alto do que a própria racionalidade, devem ser dos poucos casos empresariais em que eventuais casos de prejuízos do exercício anual são aprovados quase por unanimidade pelos acionistas.
Como é natural, a ambição de cada clube passa sempre por ganhar títulos. Essa meta desportiva comporta uma certa dose de risco, investindo-se em jogadores e treinadores que podem, ou não, trazer retorno dentro de campo. Não há uma ciência exata para o sucesso, mas o mesmo também não se atinge sem investimento. E basta olhar para os últimos anos, para perceber que o campeão nacional teve quase sempre o orçamento maior. E mesmo o Sporting, que está na luta pelo título, aumentou substancialmente a despesa para esta temporada.
Além disso, surgem os objetivos financeiros. Aquele que era anteriormente, em termos classificativos, o primeiro dos últimos lugares, o 2.º posto, passou a ser meta mínima aos olhos do clube-empresa, já que garante uma importante receita proveniente da participação na Champions. E a valorização de ativos, fazendo crescer o potencial e a capacidade de jogadores jovens, passou a ser outro fator na equação, uma vez que as suas possíveis vendas permitem aceder a receitas extraordinárias que ajudam a equilibrar as contas.
Não se está longe da verdade quando se diz que os clubes portugueses vivem acima das suas possibilidades. Face às despesas existentes, as SAD não possuem fontes de rendimento que cubram esses mesmos gastos, sendo todos os anos forçadas a encontrar formas de equilibrar a balança com a venda de jogadores ou outras engenharias financeiras como empréstimos obrigacionistas ou o prolongamento dos prazos de pagamento da dívida, entre outras. E a pressão tornou-se ainda maior com a aplicação do fair play financeiro da UEFA.
Hoje, um gestor desportivo tem de viver com um dilema permanente: ter a melhor equipa possível de modo a atingir sucesso, sem olhar a custos e agradando aos adeptos, ou ter a racionalidade de tirar as contas do vermelho e ‘sacrificar’ duas ou três pérolas, vendendo os jogadores pelo maior valor. É óbvio que a solução está a meio, na estabilidade da equipa e na capacidade de substituir as saídas por jogadores de potencial igual ou superior. Mas está longe de ser tarefa fácil, porque é impossível acertar sempre nas escolhas. Pelo que ganha quem errar menos no planeamento desportivo.
Com os novos contratos de direitos televisivos a caminho, os clubes poderão vir a ganhar uma maior autonomia na cobertura dos seus orçamentos, dependendo menos de receitas extraordinárias, ideia recentemente defendida pelo presidente do FC Porto. Seria um excelente sinal, que permitiria aos clubes segurarem por mais tempo os melhores valores. Num futebol inflacionado por endinheiradas ligas estrangeiras, o desafio de ser competitivo será exigente.
O Craque: Leãozinho a evoluir
O extremo Iuri Medeiros tem sido um dos jogadores jovens em destaque nesta Liga. O avançado emprestado pelo Sporting ao Moreirense tem-se evidenciado na produção ofensiva da sua equipa, tendo participado em 50% dos golos dos minhotos. Rápido e habilidoso, Iuri tende a aparecer com facilidade em zonas de finalização (7 golos). E as nove assistências produzidas confirmam a qualidade de passe e a leitura do jogo. Possível aposta do Sporting na próxima época, esta promessa futura das nossas seleções joga com o pé esquerdo, o que faz dele uma espécie ainda mais rara no nosso futebol.
A Jogada: Pensar global
A centralização dos direitos televisivos parecia ser o próximo passo a dar pelo futebol português, até que a NOS e a MEO resolveram negociar individualmente com cada clube. No entanto, o presidente do Sporting abre agora a possibilidade de os contratos poderem vir a ser renegociados em direção à centralização, caso a Autoridade da Concorrência venha a chumbar os acordos anteriores. É uma questão que interessa a todos os clubes, pelo que "pôr de lado as visões singulares e pensar global", como diz Bruno de Carvalho, deveria ser o caminho.
A Dúvida: Justiça incoerente
Esta temporada tem sido marcada por várias expulsões de treinadores nos jogos. Certamente uma medida concertada pelos árbitros no sentido de dar o exemplo e criar um efeito pedagógico para que os comportamentos não ultrapassem os limites do aceitável. Mas tudo isto cai por terra com as pequenas multas que o Conselho de Disciplina da Federação vai passando. Algo não bate certo. Estarão os árbitros a expulsar sem grandes motivos? Será que estas multas insignificantes terão assim algum efeito dissuasor no comportamento futuro dos técnicos?
