Desafios do leão
Após uma campanha eleitoral em que se passou mais tempo a ‘lavar roupa suja’ do que propriamente a discutir ideias e caminhos para o futuro do Sporting (perdendo-se assim uma boa oportunidade de reflexão e debate sobre o estado do clube e do próprio futebol português, já que a sustentabilidade dos emblemas nacionais enfrenta desafios semelhantes), os sócios leoninos resolveram optar pela continuidade e deram uma vitória esmagadora a Bruno de Carvalho. Abre-se assim um ciclo, com presidente e treinador unidos no planeamento desportivo, conscientes de que a cobrança dos adeptos leoninos neste mandato será maior.
Começar a projetar a próxima época e trabalhar para ser um candidato ao título com mais argumentos do que os evidenciados este ano parece ser uma das primeiras missões de dirigentes e treinador. A presente temporada acabou por revelar um Sporting demasiado irregular para olhar com confiança para a conquista do título, embora ainda não esteja matematicamente afastado da luta. Em 24 jornadas, os leões perderam 24 pontos, precisamente a média de 1 ponto por jornada.
Perspetivar o futuro obedece a critérios desportivos e financeiros. Analisados os erros cometidos e os aspetos que devem ser corrigidos, o clube parece agora apostar numa inversão da sua política desportiva, mais focada em contratações criteriosas para posições deficitárias e num maior aproveitamento dos talentos saídos da sua formação. Em paralelo, esta estratégia visará também uma certa contenção de despesas, de modo a dar também sequência à recuperação financeira da SAD.
Esta procura de novos paradigmas para o futebol leonino é acompanhada da promessa ambiciosa do seu presidente, que espera ser campeão por mais do que uma vez no próximo mandato. Um desafio que não será fácil, porque Benfica e FC Porto também estarão nessa luta (e o próprio Jorge Jesus frisou a distância que ainda separa a estrutura leonina da dos adversários), mas que reforça e galvaniza a esperança dos adeptos e sócios sportinguistas.
É dentro deste posicionamento que se consegue perceber a estratégia de confronto com os principais rivais, ao nível da comunicação (à qual o líder leonino já atribuiu grande importância), que pautou os primeiros 4 anos de liderança de Bruno de Carvalho e que ganhou novo episódio no discurso de vitória proferido esta semana. Esta é uma postura que costuma ganhar pontos entre os adeptos (seja o clube verde, azul ou vermelho), mas mais importante do que isso será a construção de uma equipa forte e capaz de conquistar títulos.
Por esse motivo, a cobrança será maior por parte do universo leonino. O Sporting não é o mesmo clube de há quatro anos, existiu uma inflexão de rumo e os sócios deram assim a possibilidade, à pessoa que tirou o clube do fundo, de poder continuar o seu projeto. Mas num clube que está sem ganhar o campeonato há tanto tempo, a paciência tem memória curta, e vão ser as vitórias que servirão de barómetro para a massa adepta.
Jorge Jesus já deu provas da sua enorme competência e tem aqui um interessante desafio pela frente. É errado dizer que Jesus não é um treinador de formação, porque foram vários os jogadores jovens que passaram pelas suas mãos e que evoluíram para um patamar competitivo mais alto. Este talvez seja um momento em que o treinador terá um foco ainda maior no futebol de formação, em função da nova política desportiva. E esse trabalho já começou com atletas como Podence, Palhinha e Francisco Geraldes a entrarem nas suas contas.
O CRAQUE -- Afirmação contínua
André Silva é, sem margem para dúvidas, uma das revelações do ano na liga portuguesa. Ver um jovem ponta-de-lança português a apontar mais de 20 golos numa época não é algo que aconteça todos os dias. Assumiu a responsabilidade de liderar o ataque portista e deu uma resposta muito positiva. Sozinho na frente, com um parceiro ao lado ou mesmo a surgir pelas faixas, André Silva tem-se revelado um jogador precioso para os dragões. Irreverência, velocidade, garra, boa técnica e um magnetismo cada vez maior com o golo. Um grande valor em rápido crescimento.
A JOGADA -- Desafiar o impossível
O Barcelona conseguiu desafiar a lei das probabilidades. Depois da derrota por 4-0 em Paris, ninguém acreditaria numa reviravolta épica como a que assistiu o mundo do futebol na passada quarta-feira. Mais ainda quando a 10 minutos do fim a equipa catalã estava a 3 golos de distância dos quartos-de-final... São estes jogos que nos fazem apaixonar pelo futebol, em que a lógica nem sempre tem razão. A enorme força mental e confiança dos jogadores do Barça, que acreditaram até ao fim, foi fundamental para uma partida que ficará para a história.
A DÚVIDA -- Caça aos cânticos
O Conselho de Disciplina da FPF castigou o FC Porto por comportamento incorreto do seu público devido a cânticos efetuados na segunda parte do jogo com o Nacional, que constaram no relatório do delegado da Liga. Um castigo pioneiro, já que praticamente em todos os estádios nacionais vemos as claques a insultarem emblemas ou jogadores dos rivais, algo que, apesar da sua deselegância, sempre teve alguma tolerância por parte dos agentes desportivos. Pelos vistos, o critério está mais apertado. Teremos o mesmo tipo de rédea curta noutros estádios também?
