Estabilidade como arma
Ano após ano, por força de um mercado de transferências cada vez mais agressivo e financeiramente dominador por parte das principais ligas europeias, as constantes mudanças nos plantéis dos clubes portugueses tornaram-se tão habituais que, a atual situação do FC Porto, ainda sem qualquer contratação efetuada, acaba por surpreender o adepto do futebol. No entanto, aquilo que hoje parece atípico, porque nos habituámos a ver esta fase da época recheada de entradas e saídas, até pode ser um sinal positivo e uma vantagem competitiva para os portistas.
A estabilidade é uma variável importante na composição de uma equipa de futebol. Se o plantel for composto por jogadores que integraram o núcleo duro da equipa titular (e até ao momento, saiu apenas André Silva desse grupo, já que Rúben Neves foi menos utilizado), isso significa que os jogadores possuem um conhecimento mais profundo do clube e facilitarão também a eventual chegada de reforços.
Por seu lado, a integração de alguns atletas que estiveram emprestados e cujo rendimento foi positivo, conhecedores também do que é ser jogador do FC Porto, acaba por permitir um aproveitamento da matéria-prima existente, situação que acarreta menos riscos (e custos) do que a contratação de um novo jogador.
Algumas vozes vão concluindo e dizendo que o FC Porto está debilitado porque ainda não contratou ninguém. Discordo e até me parece uma visão curta, acerca de um plantel que lutou pelo título na última temporada. E mesmo com problemas financeiros (qual o clube grande português que não os têm? Nenhum. Todos têm de conseguir mais-valias extraordinárias com a venda de jogadores) não parece que isso será impeditivo de formar uma equipa competitiva e capaz de ambicionar a conquista de troféus.
Ainda é cedo para tirar grandes conclusões, e muita coisa ainda pode acontecer em matéria de transferências no Dragão (os clubes ingleses e espanhóis só agora parecem estar a começar a abrir a carteira), mas se o FC Porto mantiver praticamente todos os principais jogadores do seu onze titular e conseguir juntar 3 ou 4 unidades que preencham lacunas e tragam mais qualidade ao grupo, Sérgio Conceição terá bastante matéria-prima para potenciar.
Por vezes, a necessidade aguça o engenho. E, forçada ou não, esta estratégia de arrumar a casa primeiro, resolvendo os casos de jogadores excedentários (aliviando a folha salarial) e aproveitando alguns valores que estavam cedidos ou na equipa B, acaba por proporcionar uma reflexão atenta sobre os recursos existentes e um diagnóstico mais certeiro sobre o que será preciso fazer a seguir.
Se efetivamente vierem a ser opções, é inegável que jogadores como Ricardo Pereira, Rafa, Martins Indi, Diego Reyes, Mikel, Hernâni ou Aboubakar, a título de exemplo, são elementos com valor para fazerem parte do plantel. E esta procura de soluções dentro de casa torna-se uma excelente maneira de contornar as dificuldades.
Sérgio Conceição foi perentório na sua apresentação, dizendo que "não vinha para aprender, mas sim para ensinar". O técnico portista terá no Dragão um grupo de atletas valioso para rentabilizar e fazer crescer. Não é de virar a cara à luta e enfrentará o desafio. Daí que, colocar o FC Porto em segundo plano, no que concerne à candidatura ao título, como muitos parecem querer fazer, parece um erro de cálculo.
Diamante por lapidar
Bruno Fernandes poderá ser uma das grandes figuras do campeonato português no próximo ano. Não será uma revelação, porque o seu desempenho em Itália e nas Seleções jovens tem dado nas vistas desde cedo. Mas é um talento que poderá crescer muito nas mãos de Jorge Jesus, técnico que tem exponenciado vários médios na posição 8. Com boa técnica e leitura de jogo acima da média, inteligência tática e posicional para defender e atacar, pode vir a ser uma referência no meio-campo leonino. As primeiras impressões apontam nesse sentido.
O sorteio da Liga
O calendário da próxima época, no que respeita ao campeonato, já está conhecido. Algumas condicionantes no sorteio acabaram por ‘proteger’ os 3 grandes, o que inevitavelmente prejudicou outros clubes. O Braga, por exemplo, terá um arranque exigente, com uma visita à Luz e receção ao FC Porto nas primeiras 4 jornadas. Por seu lado, a ponta final da liga promete ser emocionante, com 2 clássicos (Benfica-FC Porto e Sporting-Benfica) nas últimas 5 jornadas, o que pode indiciar uma luta pelo título até ao fim.
Situações menos claras
No meio de tantas polémicas, quase passou despercebido que a Liga de Clubes terminou o processo de seleção de 8 delegados estagiários. No lançamento do concurso, o presidente do organismo, Pedro Proença, pediu "idoneidade e rigor". Porém, entre um grupo de 24 finalistas, ao que parece, o pior classificado acabou por fazer dos eleitos. Certamente, os critérios utilizados terão uma explicação plausível. No entanto, não era preferível evitar situações destas, mais ainda com o atual clima de suspeição no futebol português?
