Finanças apertadas
Conhecidas as contas dos grandes clubes nacionais relativas à época anterior, as conclusões a retirar são válidas para todos: as SAD de Benfica, FC Porto e Sporting estão a viver acima das possibilidades e encontram-se obrigadas a efetuar receitas extraordinárias (venda de jogadores). A indicação é clara de que é preciso mudar de rumo e adaptar a política desportiva e financeira aos novos tempos de modo a garantir sustentabilidade.
Alavancado pelo tricampeonato, o Benfica foi o único a terminar a temporada com lucros, no entanto, os capitais próprios negativos da sua SAD são indicadores das dificuldades em conseguir obter receitas suficientes para suprir as despesas existentes. Porém, o facto de levar já 3 anos consecutivos a conseguir lucros, abre boas perspetivas e mostra que os encarnados podem estar num processo de recuperação. Mas o emagrecimento de custos continua a ser prioridade.
A aposta na formação é um dos caminhos que o Benfica está a seguir. O aproveitamento de ativos com elevado potencial, que representem investimentos mais baixos na sua aquisição (o que diminui despesas avultadas em jogadores de fora), pode ser a forma de rentabilização da matéria-prima que os clubes têm à sua disposição. A recente venda de Renato Sanches, entre outras, mostra que é possível ter rendimento desportivo e financeiro com a prata da casa.
Este é um caminho que o FC Porto já percebeu que terá igualmente de enveredar. Rúben Neves e André Silva, por exemplo, são pérolas que os dragões têm de valorizar e que começam a ganhar o seu espaço. Face aos prejuízos recorde apresentados, a contenção de custos é inevitável. O capital próprio mantém-se positivo, embora num valor inferior ao do ano passado, mas o peso da folha salarial, indemnizações a treinadores e a falta de vendas de relevo, obrigam a apertar o cinto.
Para diminuir gastos salariais, o dragão terá de ser mais seletivo. Nas contratações, com um trabalho de prospeção mais apurado, dentro e fora de portas, de modo a chegar mais rápido a talentos com potencial e com menores custos. E além disso, diminuir a margem de erro, para que não se repitam contratações falhadas do passado recente. Na composição dos plantéis, aproveitando recursos da equipa B. E na diminuição do número de jogadores com contrato. Não é comportável ter mais de 80 atletas nos seus quadros.
Quanto ao Sporting, o prejuízo apresentado parece ter origem na forte aposta realizada no plano desportivo. A aquisição de Jorge Jesus e de atletas para reforço da equipa principal quase duplicou as despesas em salários, sendo certo, contudo que, já depois do fecho do exercício, o clube obteve mais-valias com as vendas de Slimani e João Mário, possuindo ainda alguns ativos que podem valer milhões em negócios futuros. No entanto, em função dos problemas existentes do passado, que colocam a SAD leonina numa situação complicada, os leões terão de dar continuidade ao plano de sustentabilidade económica que têm vindo a seguir.
Clubes diferentes, mas com desafios idênticos. Essencialmente, é preciso não ceder à tentação de comprometer o futuro. O endividamento excessivo, por via do adiantamento de receitas futuras não parece ser a melhor solução, embora seja uma ferramenta que os clubes provavelmente irão usar. E quem sabe se, em janeiro, necessitarão de efetuar a venda de algum ativo para equilibrar as contas. Além dos jogadores dentro de campo, também os gestores terão de mostrar que conseguem vencer os seus desafios.
Craque – Um talento a crescer
André Silva é uma das revelações deste início de campeonato da liga portuguesa. O FC Porto apostou forte no talento do jovem avançado e este está a corresponder com golos, que apareceram agora também ao serviço da Seleção. Os 10 golos marcados em 15 jogos disputados ao serviço de clube e seleção são um excelente indicador. Porém, é bom ter a noção que este não é um produto acabado. André tem potencial e está a aprender e evoluir em plena competição. Boa compleição física, capacidade de choque, habilidade, rapidez e faro pelo golo. Poderá ser um ponta-de-lança de referência.
A Jogada – Entrada em grande
Foi uma entrada com o pé direito ao serviço da equipa das quinas. João Cancelo, lateral direito, conseguiu marcar nos três jogos em que representou a seleção. Se a marca já é difícil para um avançado, muito mais é para um defesa. As qualidades de João Cancelo passam pela profundidade que dá ao corredor direito e pelo equilíbrio defensivo que garante. Cresceu muito em Espanha e já leva mais de 50 jogos pelo Valência, que despertaram a atenção do Barcelona. Ao serviço de Portugal falta vê-lo atuar perante um adversário mais forte.
A Dúvida – O adeus de Hugo Viana
Despontou com tenra idade, tendo sido campeão e vencedor da Taça de Portugal pelo Sporting em 2001/02. Dono de um pé esquerdo magistral, Hugo Viana prenunciava uma carreira brilhante. Centrocampista de qualidade que tratou sempre bem a bola com os seus passes e livres teleguiados. Passou pelas grandes ligas (Newcastle e Valência) e foi marcando presença na Seleção, mas nunca confirmou totalmente os prognósticos. Termina agora uma carreira positiva, com alguns pontos altos (a final da Taça UEFA com o Sporting e conquista da Taça da Liga no Braga). Poderia ter chegado mais alto?
