Maus exemplos do futebol
Um espaço anónimo na Internet está a colocar o futebol português em polvorosa com a divulgação de documentos confidenciais de negócios realizados no mundo da bola. Tudo o que veio a público comprova que os clubes ainda têm um longo caminho a percorrer no que respeita a boas práticas e informação fidedigna sobre a sua atividade. Por outro lado, é bom que se refira que este é também um caso de polícia, que envolve espionagem e acesso a dados protegidos. E perante uma situação destas a justiça deve atuar.
Mas este e outros casos estão longe de ser unicamente portugueses. Os (maus) exemplos vêm de cima. Ainda ontem a Comissão de Ética da FIFA suspendeu por 90 dias o presidente demissionário da FIFA, Joseph Blatter, e o candidato à sua sucessão, Michel Platini, por suspeitas de corrupção decorrentes da investigação de um contrato de direitos de transmissão televisiva que terá envolvido um pagamento de 1,8 milhões de euros de Blatter a Platini. Depois de vários escândalos ligados a Blatter, não deixa de ser caricato que Michel Platini, personificando uma espécie de voz da razão e posicionando-se para o suceder, tenha aconselhado o líder da FIFA a demitir-se e que, poucos meses depois, veja também o seu nome manchado por estas alegações.
Numa organização que movimenta imenso dinheiro como a FIFA, a teia de interesses económicos existentes no meio exige mais controlo e transparência. E é curioso que sejam os próprios patrocinadores, afinal de contas, entidades que investem e procuram ter retorno com a notoriedade positiva do futebol, quem mais tem pressionado para que as coisas mudem. Gigantes como McDonald’s, Coca-Cola, VISA e Budweiser já fizeram saber que não querem esperar até fevereiro para que Blatter se vá embora. E esperam que se dê início a um credível e sustentável processo de reforma que dê melhor reputação ao organismo. Será que o vão conseguir?
E agora que tanto se fala de prendas em Portugal, um (mau) exemplo também vem de cima. Durante o Mundial’2014, a Confederação Brasileira de Futebol ofereceu, a membros do Comité Executivo da FIFA e às federações participantes na prova, relógios com valor unitário de 20 mil euros. Depois de o caso vir a público, o Comité de Ética exigiu que os 70 relógios fossem devolvidos, mas houve resistências. "Eu não vou devolver o relógio. O relógio foi uma prenda e as prendas não se devolvem. O que se tem de fazer é doar o valor do mesmo a uma instituição de caridade", disse Michel Platini. Diz o bom senso que há exageros que não se devem cometer.
Esta semana Bruno de Carvalho denunciou ofertas do Benfica a árbitros que, ao que parece, eram do conhecimento do presidente do Conselho de Arbitragem, mas não da FPF, que entregou o caso ao Ministério Público. Haverá falta de comunicação interna? Estranha-se que, estando Vítor Pereira e outros responsáveis da arbitragem a par desta prática, nunca tenham tentado saber se a mesma era ilícita. As regras da FPF no que respeita a "lembranças" dizem que apenas se podem oferecer presentes "sem valor comercial". Terá sido este o caso?
Depois de o presidente do Sporting ter informado que o Benfica propôs uma aliança para a conquista partilhada de campeonatos, uma história que caiu em saco roto e foi arquivada pela Liga, novos episódios parecem estar a chegar. O futebol nacional e mundial pede reformas da base até ao topo da pirâmide para que haja uma credibilização da sua indústria.
O craque - Pé quente em Setúbal
O V. Setúbal tem o terceiro melhor ataque do campeonato com 14 golos. No ano passado, por esta altura, tinha apenas faturado por 6 vezes. A equipa sadina de Quim Machado está com o pé quente e tem em André Claro um dos protagonistas, com 4 golos apontados, o que faz dele o melhor goleador português da Liga. Depois de três anos em Arouca, esta é já a época mais produtiva no principal escalão deste atacante formado nas escolas do FC Porto. Se os golos continuarem a surgir e a sua confiança a crescer, bem pode estar aqui uma das revelações do campeonato.
A jogada -- Lidar com pseudo-estrelas
Há jogadores com um ego do tamanho do mundo que por vezes se esquecem dos objetivos da sua equipa. A relação tensa que se tem gerado entre Vítor Pereira e Van Persie no Fenerbahçe está a despertar a atenção da imprensa internacional. O avançado holandês tem dado sinais de insatisfação por ficar no banco de suplentes e não esconde o desagrado com vários episódios de pouca dedicação ao jogo e desrespeito às instruções do treinador. Uma atitude que só legitima a posição do técnico português, que tem visto no brasileiro Fernandão a alternativa para chegar aos golos.
A dúvida -- O desafio de Mourinho
O momento não é o melhor. Ninguém estava acostumado a vê-lo perder tantas vezes em tão pouco tempo. Porém, colocar em causa o trabalho de José Mourinho no Chelsea, aproveitando esta fase mais delicada da sua carreira para o criticar, é algo de insensato, ainda mais se as críticas vierem de colegas de profissão. O futebol é feito de ciclos, uns bons e outros maus, e numa equipa como o Chelsea, cheia de qualidade, a recuperação será inevitável. Alguém duvida que Mourinho é a pessoa certa para enfrentar esse desafio?
