O Campeonato em agosto
Os três grandes entraram com o pé direito na liga. Todos deram indícios de que o trabalho de preparação foi bem feito, com boas exibições e margem para melhorar nos próximos jogos. Num ano em que apenas uma equipa conseguirá vaga direta na Liga dos Campeões e em que o 3.º classificado seguirá para a Liga Europa, a margem de erro encurtou-se e todos parecem cientes disso: não há espaço para facilitismos desde o início. Mesmo numa altura em que os plantéis ainda não se encontram definidos.
Nestas primeiras 4 jornadas, em que o mercado de transferências está aberto, mantém-se a incerteza se serão estes os atores que estarão em palco ao longo da temporada. Os elencos podem ainda não estar totalmente preenchidos ou fechados, e isso será também determinante para avaliarmos a verdadeira força que as equipas poderão ter ao longo da época.
Para os treinadores, o exercício não é fácil. Têm de pensar numa equipa para atuar em agosto que pode ser bem diferente daquela com que vão jogar nas restantes 30 jornadas. No dia 1 de setembro, o chip poderá ter de ser recalculado, mas esta é uma situação para a qual os técnicos já se vão preparando e que faz parte da atual realidade do futebol português. É preciso vender para equilibrar contas e, em alguns casos, até mesmo para financiar a chegada de alguns reforços de última hora.
O Benfica, que poderá ainda ser vendedor até ao final do mês, parece estar à procura de um guarda-redes (muito embora pareça que a aposta em Bruno Varela pode ser frutífera, se for dado tempo ao atleta e este se ambientar às exigências de um clube grande) e um lateral direito (André Almeida é um jogador fiável e cumpre bem defensivamente, mas faltará um jogador que mostre maior acutilância no momento ofensivo). E quem sabe se Rui Vitória contará também com um novo central.
Por seu lado, depois da chegada de Ristovski para lateral direito, o Sporting pode estar a procurar uma nova opção para o centro da defesa (Jorge Jesus pretenderá um jogador que possa dar maior cobertura a Coates e Mathieu) e quiçá um avançado (o técnico sempre gostou de ter várias soluções nessa zona). E falta saber se uma eventual saída de William Carvalho ou Adrien Silva poderá obrigar o leão a ir novamente às compras. No entanto, o planeamento deste ano parece querer evitar erros do passado.
No FC Porto, Vaná foi a única entrada até ao momento. Só eventuais vendas poderão abrir vaga a novos elementos. No entanto, um extremo que pudesse competir com Brahimi, Corona e Hernâni nas alas seria uma boa adição. Assim como um "8" com maior robustez física, poderia complementar as características do meio campo azul e branco. E estando a equipa preparada para jogar com 2 avançados, a chegada de um novo artilheiro, também pode estar a ser equacionada. O próprio mercado ditará se o dragão vai mudar ou manter as coisas como estão.
Dentro de campo, neste "mini-campeonato" de agosto, os dragões confirmaram os bons indícios da pré-temporada. Sentido de baliza, rapidez de processos, procura incessante da bola e inteligência na gestão do jogo. Sérgio Conceição encontrou soluções no grupo disponível (Marega foi um herói improvável), motivou as tropas e revigorou a mentalidade. Há mérito nisso. O Benfica mostrou que, quando a competição é a sério, surge num plano diferente e para melhor: o tal bicho competitivo. E o Sporting mostra-se uma equipa mais equilibrada em todos os setores, o que a aproxima dos 2 eternos rivais. Temos um bom campeonato em perspetiva.
O Craque – Uma seta valiosa
Gelson Martins entrou na nova época com uma grande exibição e 2 golos. Um prenúncio de que pode crescer ainda mais ao longo do ano. O internacional português é uma seta que imprime velocidade no ataque, com as constantes movimentações a serem uma dor de cabeça para os adversários. Neste momento, é uma peça chave para a equipa de Jorge Jesus: pelos desequilíbrios que provoca, pelo posicionamento inteligente e o conforto que mostra nos momentos de controlo da bola. Tem tudo para ser um dos mais valiosos da Liga.
A Jogada – Fosso cada vez maior
No final da partida com o Benfica, o treinador do Braga, Abel Ferreira, alertou para uma realidade cada vez mais evidente: está a alargar-se a distância de orçamentos entre os clubes. Se o fenómeno a nível europeu é cada vez mais preocupante, com valores astronómicos a ser praticados, a nível interno, o fosso entre os 3 grandes e os restantes clubes também se vai alargando. E isso acaba por não beneficiar a competitividade da liga. Uma questão pertinente para a qual não se vislumbram soluções que possam inverter o presente rumo.
A Dúvida – Ditadura dos milhões
Depois de Neymar, o PSG poderá realizar mais uma transferência megalómana com a aquisição de Mbappé, avançado do Mónaco. Que efeitos terão estes investimentos "selvagens" no futebol? Positivos ou negativos? Se o dinheiro circulasse por todos os clubes, talvez fosse um bom impulso financeiro, distribuidor de riqueza. No entanto, as grandes transferências fazem-se cada vez mais num grupo restrito de clubes e empresários, e os negócios vão sendo inflacionados. Com o atual cenário, em que se valorizam mais contratos do que jogadores ou clubes, continuará o futebol a mover paixões?
