Os melhores também caem
Todos os treinadores, mesmo os melhores, ao longo das suas carreiras têm o seu 'annus horribilis'. Esta foi a temporada horrível de José Mourinho, que acabou por cair numa espiral de maus resultados na Liga inglesa da qual não mais conseguiu sair. Isso determinou a sua saída do clube, anunciada ontem pelo Chelsea. Trata-se apenas de um capítulo negativo e atípico de uma história recheada de conquistas que, muito provavelmente, ainda não ficaram por aqui.
A desastrada época do Chelsea, depois de um ano formidável, em que se sagrou campeão inglês e parecia ter formado uma base de jogadores jovens de grande talento, pronta a dominar nos anos seguintes, surge de forma inesperada. O futebol nem sempre se soccorre da lógica e há imensos fatores que podem influenciar a prestação de uma equipa.
No ano passado, outra equipa de topo, o Borussia Dortmund (por coincidência, futuro adversário do FC Porto na Liga Europa, depois de os dragões terem encontrado o Chelsea na Liga dos Campeões), que foi vice-campeã europeia em 2013, teve uma experiência semelhante. Chegou a temer-se que a equipa alemã descesse mesmo de divisão, mas com uma recuperação fantástica a partir de janeiro, o treinador Jürgen Klopp ainda conseguiu apurar a sua equipa para as competições europeias.
Agora a treinar o Liverpool, Jürgen Klopp deixou o clube alemão no final da temporada passada, permanecendo como um ídolo para os adeptos do Borussia Dortmund. E tenho a certeza que, de igual modo, assim continuará José Mourinho a ser visto pela massa associativa do Chelsea, já que o português foi responsável pela afirmação do clube no panorama inglês e europeu. A sua imagem permanece intacta.
Além disso, o técnico português tem um percurso que fala por si, e já deu provas mais do que suficientes da sua qualidade. Do FC Porto ao Chelsea, com passagens por Inter e Real Madrid, foi sempre campeão. E ganhar quatro ligas de países diferentes não é para todos. E foi campeão europeu ao serviço de um clube português e de outro italiano, países que não têm o capital financeiro existente em Inglaterra, Espanha ou Alemanha. E é bom não esquecer que o seu sucesso abriu portas a outros treinadores portugueses no estrangeiro.
Voltando ao Chelsea, o que correu mal este ano? A equipa nem sempre pareceu estar com os índices de motivação em alta, algo em que Mourinho é especialista. Uma espécie de fadiga física e mental que assolou uma equipa triste, à qual alguns episódios estranhos como o sucedido com a médica Eva Carneiro também não ajudaram, bloqueando o conjunto de jogar ao nível do que sabe e pode fazer.
Os melhores também caem. E por mais competentes e talentosos que sejam treinadores e jogadores, nem sempre as coisas correm como esperado. É preciso uma combinação de vários fatores para colocar a máquina a engrenar, e a verdade é que esta emperrou. Mourinho acaba por não ter a oportunidade de iniciar um processo de recuperação da equipa, com a ajuda do mercado de inverno, missão que ficará agora entregue ao próximo treinador.
Quanto ao português, fica a dúvida sobre qual será o seu futuro. Um desafio novo numa liga diferente (Alemanha ou França?), uma experiência noutro clube inglês (Manchester United?), o assumir de uma seleção após o Euro'2016 ou o regresso (pouco provável) a um clube português? Seja qual for o seu destino, acredito que a sua história se fará com vitórias.
Aproveito para desejar um Feliz Natal a todos os leitores do Record.
O CRAQUE
Pacense em boa formaCom quatro golos nas últimas três partidas da Liga, Bruno Moreira é atualmente o melhor marcador português da prova, tendo sete tentos apontados. O avançado pacense já tinha dado provas do seu faro de golo na época anterior, em que apontou dez golos, e este ano parece caminhar para uma temporada ainda melhor. O feito ganha ainda maior relevo se notarmos que esta época o jogador não começou como titular, tendo ganho a confiança do treinador apenas a partir da sétima jornada. Um ponta-de-lança experiente, bom na desmarcação e sempre oportuno para finalizar.
A JOGADA
Sorteio simpático, mas atençãoPortugal já conhece os adversários da fase de grupos do Euro'2016 e não se pode queixar da sorte, uma vez que poderiam ter calhado outros adversários que, em teoria, têm maior poder futebolístico. Islândia, Hungria e Áustria são oponentes ao alcance da nossa Seleção, mas de respeito. É bom que não fique a ideia de que serão favas contadas. Muitos jogadores destas seleções têm experiência nas grandes ligas europeias e a presença na prova será o auge das suas carreiras, pelo que a motivação será altíssima. É preciso mostrar o favoritismo dentro de campo.
A DÚVIDA
Europeu sem árbitros lusosAinda sobre o Euro'2016 ficámos a saber que a competição não contará com nenhum árbitro português, já que nenhum representante luso integra o grupo de elite da UEFA, do qual Pedro Proença e Olegário Benquerença foram os últimos a fazer parte. Não deixa de ser um sintoma de que nem tudo vai bem na arbitragem portuguesa, que há dois anos abraçou a profissionalização. Algo correu mal. Teremos atualmente árbitros com menos talento ou a gestão das suas carreiras não está a ser a melhor?
