Visão de jogo

António Oliveira
António Oliveira

Troca de treinadores

O campeonato português nem à pausa de inverno chegou e quase metade das suas equipas já trocaram de treinador. Ao todo, em menos de cinco meses de competição, registaram-se oito saídas do comando técnico de clubes da Liga, número que iguala o total de ‘chicotadas psicológicas’ ocorridas em toda a temporada anterior. E a confirmar-se a ida de Jorge Simão para Braga, a marca fica desde já superada.

No futebol, as frequentes alterações de treinador têm sido um hábito, muito típico dos países latinos. Mas esta temporada estamos a observar um número anormal de saídas em tão pouco tempo, algo demonstrador de uma certa impaciência da parte dos clubes, que aos primeiros maus resultados, cedem à tentação de mudar de timoneiro.

O que importa perceber é que esses maus resultados nem sempre acontecem por culpa do treinador. Podem existir erros de casting, mas um mau planeamento da época por parte dos dirigentes, a falta de adaptação dos atletas aos clubes ou até mesmo a sua falta de qualidade pode influenciar o fracasso. No entanto, com ou sem culpas no cartório, o treinador acaba por ser primeiro a sofrer as consequências.

Ao contrário de outras ligas do norte da Europa, em que se dá tempo aos treinadores para implementarem as suas ideias e mostrarem o que valem, a mentalidade portuguesa está muito mais virada para os resultados imediatos e para o curto prazo. Isso acaba por travar o crescimento e aprendizagem dos treinadores que têm a sorte de chegar ao principal escalão.

Veja-se, por exemplo, os casos de Capucho (Rio Ave), Carlos Pinto (Paços de Ferreira) e Pepa (Moreirense). Todos eles jovens treinadores, estreantes na Liga e com bons trabalhos anteriores na 2.ª Liga. Nenhum aguentou mais de um terço de campeonato. Às dificuldades de entrada numa competição mais exigente, juntou-se a impaciência dos clubes. E contabilizando com o brasileiro Paulo César Gusmão (Marítimo), todos os estreantes na Liga já foram despedidos.

Despedir um treinador representa custos financeiros. Já a perspetiva de tirar retorno desportivo disso é uma incógnita. Os resultados seguintes costumam ser animadores pelo impacto anímico que por vezes geram nos plantéis, mas na sua maioria, a prestação das equipas em termos estatísticos acaba por ser igual. É a chamada ‘reversão da média’, um fenómeno que consiste no seguinte: "tudo o que vai acima acaba por cair, e tudo o que vai abaixo acaba por subir". Como as ‘chicotadas psicológicas’ sucedem, por norma, uma série de maus resultados, é provável que os jogos seguintes sejam melhores.

Na verdade, é mais difícil apanhar o barco a meio da viagem e aumentar a produtividade. Não quer dizer que isso não aconteça. A recuperação do Tondela de Petit na época passada é um exemplo. Mas é menos frequente quanto o elevado número de despedimentos pode fazer crer. Os novos treinadores pouco podem mudar. Não há grande tempo para trabalhos de laboratório, apenas para manter a embarcação à tona e ir acrescentando uma ou outra alteração.

Torcar de treinador é mais uma reação dos dirigentes, para mostrar aos insatisfeitos adeptos que estão a tentar controlar e resolver a situação. A forma mais simples ou o ‘bode expiatório’ acaba por ser o técnico, mas está longe de ser a mais eficiente das medidas. A estabilidade diretiva e técnica na estrutura dos clubes portugueses seria a mentalidade mais correta. O trabalho é o segredo do sucesso. Se o treinador for competente, acabará por cumprir objetivos. E, por vezes, é preciso tempo para as equipas crescerem. Estas alterações que vamos observando não são um sinal positivo.


O craque -- Ano memorável de CR7

Foi um ano inesquecível para todos os portugueses em geral, com a conquista do Euro’2016, e foi ainda mais especial para Cristiano Ronaldo que se sagrou campeão europeu ao nível de clubes e Seleção, tendo conquistado a sua quarta Bola de Ouro. O prémio vem coroar um 2016 recheado de sucesso e reforça o estatuto do internacional português enquanto um dos melhores em toda a história do futebol. E os êxitos deste memorável ano podem não ficar por aqui com a disputa da final do Campeonato Mundial de Clubes já no próximo domingo.

A jogada -- Competições ibéricas

Em entrevista recente, o presidente da Liga de Clubes, Pedro Proença, reafirmou a intenção de cooperar com a liga espanhola e confirmou a existência de conversações no sentido de desenvolverem projetos desportivos em conjunto. A ideia de, a médio prazo, podermos ter competições ibéricas no nosso calendário futebolístico, pode finalmente ver a luz do dia. Caso se confirme essa viabilidade, o potencial é enorme do ponto de vista desportivo e financeiro. Seria uma excelente montra para projetar a liga portuguesa e os seus jogadores.

A dúvida -- Modelo para o vídeo-árbitro

O lance que antecedeu o primeiro golo do Benfica no dérbi serve de estudo sobre a aplicação do vídeo-árbitro no futuro. Vários especialistas analisaram as imagens ao pormenor e as opiniões não foram consensuais. Também esta semana, no Mundial de Clubes, não faltou polémica e discórdia, na primeira decisão com recurso à tecnologia. Em vários lances o erro continuará a existir porque dependerá da interpretação humana. E as pausas no jogo parecem muito prolongadas. Não duvido que o vídeo-árbitro será benéfico, mas há que refletir. Estará encontrado o modelo ideal?




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