Uma questão de equlíbrio
Ao longo dos anos, uma frase feita do futebol continua a manter-se tão atual como antes: as grandes equipas constroem-se de trás para a frente. Não se começa uma casa pelo telhado, pelo que um processo defensivo sólido é a base para se conseguir formar depois uma equipa forte e coesa, capaz de partir para cima do adversário com segurança. Este parece ter sido o princípio que Nuno Espírito Santo tem vindo a assentar no FC Porto.
Tendo trabalhado com técnicos como José Mourinho e Jesualdo Ferreira, entre outros, que sempre mostraram elevada atenção à organização defensiva e equilíbrio das suas equipas, Nuno parece ter aprendido alguns desses detalhes no sentido de desenvolver uma equipa segura na defesa, facilitando assim a forma como ataca e gere o rumo dos acontecimentos nas partidas.
A máquina demorou a ser afinada. Não era um trabalho que se conseguisse fazer ao fim de um par de meses, e os problemas que a equipa azul e branca denotou ao nível da finalização, em certos momentos da época, com os jogadores ainda a tentarem interpretar os seus papéis, acabaram por ser uma consequência natural dessa fase de aprendizagem e evolução.
Ao contrário do que aconteceu na temporada anterior, em que a prestação defensiva dos dragões esteve muito abaixo do esperado, tudo mudou este ano. O FC Porto apresenta já uma série de 20 jogos sem perder no campeonato e um ciclo de 7 vitórias consecutivas, um reflexo do crescimento que tem vindo a registar, assente no equilíbrio da equipa.
E esta melhoria coletiva acaba por se repercutir também na prestação individual dos jogadores. Iker Casillas não sofreu golos em 14 partidas da liga, o que significa que, para lá das boas exibições, manteve as redes da sua baliza intactas em 60% dos jogos. E Marcano, que no ano passado não esteve no seu melhor, surge agora numa forma impressionante, ganhando quase todas as bolas pelo ar e apresentando um posicionamento excelente. Jogador com maturidade (necessário numa equipa com vários jovens), patrão da defesa e peça chave no onze portista.
Nuno Espírito Santo conseguiu formar uma excelente dupla de centrais. Felipe tem sido uma das boas surpresas do campeonato e mostra grande entendimento com o colega espanhol. As rotinas entre centrais são sempre importantes. E o brasileiro encaixou que nem uma luva no esquema portista. Adaptou-se aos ritmos do futebol europeu, mostra agora maior acerto nas abordagens aos lances e é eficaz na marcação. Além disso, Felipe e Marcano são também importantes no ataque, especialmente no jogo aéreo em lances de bola parada, protagonizando uma das duplas de centrais mais goleadoras da temporada em curso.
Para ter uma formação virada para frente, com largura em todo o terreno, como em tempos o treinador do FC Porto desenhou, o rigor defensivo fica bem patente. E um tridente acaba por personificar todo este princípio: os dois centrais, sempre subidos, e Danilo, o pêndulo da equipa, o pulmão que consegue estar em todo o lado e liga todos os setores. Quando a equipa do FC Porto está sem bola, os avançados da equipa são os primeiros a defender. Esta solidariedade tem sido um dos trunfos portistas, que teve em Soares um reforço ajustado às ideias de Nuno. "Uma equipa que defende mal é uma equipa com problemas. Uma equipa sem equilíbrio não é uma equipa", referiu José Mourinho no passado. O dragão encontrou o seu ponto de equilíbrio.
O Craque – Lateral influente
Nélson Semedo tem estado num grande momento de forma. O lateral direito do Benfica é já o jogador encarnado com mais assistências no campeonato. O modo entusiasmante como sobe pela faixa e se junta aos colegas do ataque tem valido pontos para a sua equipa. E também arrisca na finalização. Por seu lado, tem estado cada vez mais competente a fechar o corredor no processo defensivo. É um dos principais ativos do plantel benfiquista e está a comprovar a sua mais-valia ao longo da temporada.
A Jogada – Duas faces do xadrez
O dérbi portuense da semana passada reavivou a memória de grandes partidas disputadas no Bessa, de grande intensidade e emoção. Jogos vividos com garra, em que se dá tudo com máxima competitividade. Sem os meios de outrora, o Boavista vive hoje uma situação tranquila na liga e está muito bem orientado por Miguel Leal. São pequenos passos para que o clube olhe o futuro com ambição. As notícias de que a SAD axadrezada está à beira da falência, a serem verdade, não são positivas nesta fase de estabilidade desportiva. Que os responsáveis sejam capazes de dar a volta à situação.
A Dúvida – Qualidades por mostrar
Joel Campbell foi um dos nomes sonantes que chegaram esta temporada ao Sporting, mas o impacto do costa-riquenho está longe do esperado. Não joga há mais de um mês e por poucas vezes mereceu a titularidade. Pelas suas reconhecidas qualidades, e até pelo que se viu em alguns jogos bem conseguidos, parece que poderia ter outro tipo de rendimento no Sporting. Nota-se que o avançado nem sempre cumpriu taticamente o que o treinador lhe pediu. Fica também a dúvida se o seu lugar ideal é nas faixas ou no centro do terreno. Será que ainda vai a tempo de mostrar serviço?
