Análise de Bernardo Ribeiro ao clássico do Dragão

Bernardo Ribeiro
Bernardo Ribeiro Diretor de Record

Ganhar é sempre bom, seja como for

Discutia-se no final do clássico a ausência de domínio do FC Porto, que perdeu na posse de bola – tanto na 1.ª como na 2ª parte, diga-se – mas festejou a vitória que o levou à liderança isolada da Liga, ainda que à condição. Só mostrou, uma vez mais, que no futebol há muitas maneiras de ganhar. E o Sporting este ano já sentiu este mal na pele mais do que uma vez.

Um dos problemas da equipa de Jorge Jesus esta época tem sido precisamente bons jogos de futebol com péssimos resultados. E em encontros determinantes. A ver: no dérbi e nos confrontos com Real Madrid e Borussia Dortmund. Jogos em que os leões foram superiores em vários momentos, bateram-se de igual para igual, mas saíram derrotados. Frente ao Benfica o leão venceu em todas as estatísticas do jogo, mas não na mais importante, o resultado. E no futebol ainda é isso, e a doer apenas isso, que manda.

O FC Porto defendeu ontem uma ideia pouco vista em equipas grandes, não nas peças utilizadas, mas no tipo de jogo escolhido. Futebol mais direto, bola colocada rapidamente em Soares e André Silva e a tentativa de envolver no jogo os alas Brahimi e Corona, homens a quem se pede arte no Dragão. Não foi com arte que se ganhou, mas com eficácia e aproveitando de forma exemplar os erros defensivos do Sporting, bem evidentes nos golos de Soares.

Nuno fugiu infelizmente às perguntas dos jornalistas sobre o tipo de jogo escolhido, dizendo apenas que o mais importante era ganhar e isso foi conseguido. Não me parece que tenha sido só isso. O técnico do FC Porto terá entendido que não ia conseguir bater o Sporting no jogo interior e que dificilmente poderia evitar sofrer um golo se jogasse em bloco alto. A verdade é que se o Dragão sofreu muito na 2.ª parte, quando perdeu o controlo do jogo, o que fez chegou para somar os três pontos. Caçar com as armas que se tem. Essa é uma regra que nunca muda no futebol.

O Sporting tem vários problemas para resolver. O que fazer ao resto da época e que lições tirar de 2016/17. Muito do que se passar no futuro vai depender do que conseguir aprender agora. Desde política de contratações a formas de encarar o jogo. Os leões têm os mesmos golos sofridos que Benfica e FC Porto juntos, chegam a esta altura sem um lateral-esquerdo que possa ser considerado titular e um futebol dominador nos jogos grandes mas incapaz de ganhar jogos. Podem somar-se aqui as arbitragens, sim, mas há ilações a retirar para além da luta contra o poder instituído.

A vitória do FC Porto no clássico coloca uma pressão enorme sobre o Benfica de Rui Vitória. Como vai reagir é a grande questão. Curiosamente, pode funcionar a favor dos tricampeões. A águia parece ter adormecido após as duas vitórias em Guimarães. A época passada foi ganhando até ao fim, sempre pressionada pelo Sporting de Jesus. Para festejar o tetra é repetir a receita, mas agora com o FC Porto de Nuno se este for competente. Vai ser giro!

Questões laterais

Matheus e as várias lesões. Jorge Jesus justificou o lançamento de Matheus de início com as lesões de Campbell e Bruno César. Entendo o ponto de vista, mas continua a parecer-me um erro lançar às feras um jovem que tinha um minuto de jogo na Liga. Mesmo com muitas saídas, havia outras soluções. Nomeadamente o que aconteceu na 2.ª parte. Bryan na ala e Alan no meio.

Hugo Miguel sem culpas no cartório. O Sporting voltou a falar de arbitragens, nomeadamente por Jorge Jesus, mas não me parece que possa imputar as culpas da derrota ao juiz. A falta sobre Palhinha está longe de ser evidente, a mim não me parece existir, e o lance de mão de Corona depende tanto do árbitro que já não vale a pena falar muito disso. Os leões têm muito mais razões de queixa de Casillas, que fez duas defesas fantásticas, do que de Hugo Miguel.

Critério defensivo mata o futebol. Foram 54 faltas e numa condução de jogo demasiado defensiva para defender o futebol. O clássico teve quase sempre apitos quando a bola entrou dentro da área, diga-se que mais na do FC Porto, mas não é aí que reside a crítica. Isto é um árbitro a jogar à defesa. Se vai apitar assim, tem de dar mais desconto. Porque não se joga à bola. E é isso que queremos.

Notas de rodapé

5 - A imagem que mais fica na retina na noite de ontem é a espantosa defesa de Iker Casillas nos últimos momentos do jogo. O espanhol já tinha negado o golo a Coates aos 82’, mas o que fez aos 90’+3 só mostra que esta época é mesmo à San Iker. Genial.

4 - Soares estreou-se no FC Porto com dois golos decisivos e logo num clássico. O ponta-de-lança que os dragões foram buscar ao V. Guimarães lutou do princípio ao fim e foi letal nas duas oportunidades que dispôs. Matador.

3 - A entrada de Alan Ruiz, em conjunto com outras alterações táticas de Jorge Jesus, foi determinante para a melhoria leonina. O argentino é provavelmente o melhor do plantel a jogar entre linhas e marcou um golaço. Porque não de início?

2 - Palhinha e Semedo tiveram noite menos conseguida. O primeiro ligado aos golos do FC Porto, no primeiro claramente por falta de rotinas, num movimento errado; o segundo por vários erros de decisão e má abordagem no 2.º de Soares.

1 - Marvin Zeegelaar é claramente um peixe fora de água na equipa do Sporting. Curiosamente, como quase todos os laterais que passaram por ali, incluindo Bruno César. Para JJ e Bruno de Carvalho resolverem na próxima época.

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