Análise

Bernardo Ribeiro
Bernardo Ribeiro Diretor de Record

Valha-nos São Ronaldo e Patrício

Ganhámos. Era o mais importante e aí ninguém pode apontar nada a Fernando Santos e aos jogadores. Portugal é hoje uma equipa com horizontes diferentes dos que tinha no passado e um campeão Europeu tem de ambicionar a sagrar-se campeão do Mundo. Isso só se consegue com vitórias. Mesmo que no Euro tenha dado para fazê-lo também com muitos empates. Mas numa prova a eliminar a nota artística não leva a lado nenhum em termos de triunfos. Por aqui, tudo bem.

Mas o futebol é mais do que vitórias. Até porque há mais do que uma maneira de ganhar. Fernando Santos escolheu a sua e está a dar resultado. Até aí não há nada a dizer. Mas confesso que a confrangedora exibição de Portugal frente a Marrocos me leva a pensar que estamos a testar uma nova dimensão do que é jogar mal e ganhar. É verdade que voltou a dar resultado. Até porque temos na frente um homem que parece de outro planeta e materializa em golo lances que parecem que não vão dar nada. Mas não será já arriscar demais?

Já estamos todos à espera que Portugal se apresente em bloco baixo e apostando nas transições como forma de levar perigo à baliza contrária. Santos tem a máxima de que é mais difícil perder se não sofrermos golos. Verdade insofismável. Mas o pior é que neste momento Portugal não defende bem, não ataca bem e joga miseravelmente. Ou pelo menos fê-lo ontem. E isto poderá até significar que vamos ser campeões do Mundo. Estamos provavelmente todos prontos para aguentar isto se a meta for essa. Mas será possível fazê-lo de forma ligeiramente diferente?

Claro que é. Uma equipa que joga de início com o onze que Portugal apresentou ontem tem em José Fonte o único jogador que não é tecnicamente dotado, apesar de muito útil. Não se percebe tamanha incapacidade para trocar a bola, ter um pouco mais de posse, controlar o jogo em alguns momentos. Já não digo ter mais transições perigosas, pois isso parece-me uma consequência da opção de Fernando Santos por um bloco defensivo tão baixo.

Podemos todos questionar as peças lançadas de início e durante o jogo pelo selecionador nacional. Posso estar enganado, mas o problema com Marrocos não foi esse. Ou não foi só. Acredito que tem mais a ver com uma ideia que está a cristalizar no futebol da Seleção e que tem de ser combatida rapidamente. O nosso futebol tem de melhorar alguns furos. Por muitas
alegrias que se tenham por ganhar, a história faz-se também jogando.

Mas claro que uma das soluções pode ser mexer no onze. Procurar novos equilíbrios numa equipa que pura e simplesmente não está a funcionar. Há qualidade no banco. É também por isso que nos entristece jogar tão mal. Não somos um grupo de pernetas.

QUESTÕES LATERAIS

Marrocos a jogar 'em casa' ajudou?

É difícil dizê-lo. Mas afirma quem estava no estádio que o ambiente era ensurdecedor e que os marroquinos estavam a ‘jogar em casa’. Isso não será desculpa para o menor rendimento da Seleção Nacional, mas sabemos como os emigrantes ajudaram a equipa lusa em terras francesas. O apoio é sempre bem recebido. A Rússia é muito longe para nós, que não temos nível de vida para gastar milhares e ir ver bola. É a vida.

Um certo mau perder no final

Entendo que os marroquinos se tenham sentido muito injustiçados no final do jogo com Portugal. Após boas exibições ontem, mas também frente ao Irão, era impossível não achar que os deuses estavam com os do outro lado. Mas as críticas à arbitragem, tanto do treinador como de alguns jogadores, ultrapassaram o que é entendível. Uma pena. Fica a imagem de mau perdedor.

Santos sem explicações

No final do jogo Fernando Santos disse que a exibição foi "inexplicável". Preocupante? Nem por isso. O técnico terá bem a noção do que gostou e não gostou na Seleção Nacional. Resta saber se está disposto a mudar algo na ideia-base do jogo que defende e o pensa em termos de peças utilizadas. Ou seja, se há alguma troca que pensa poder resolver o que vimos. Em breve saberemos.

NOTAS DE RODAPÉ

5. Cristiano Ronaldo. Eu sei, é quase um aborrecimento estar sempre a falar do mesmo. Mas Portugal tem 4 golos marcados neste Mundial e são todos de... Ronaldo. De todas as maneiras e feitios. Ele é a razão por que continuamos a acreditar. 

4. Rui Patrício, guarda-redes de quem os sportinguistas ainda virão a ter muitas saudades – não os que acharam boa ideia fazer dele o destinatário de dezenas de tochas – ontem fez uma defesa de sonho e mais um par delas apreciável. Craque. 

3. 4 pontos! Eis a melhor notícia do dia. A vitória de Portugal frente a Marrocos permite-nos olhar com confiança para o que aí vem, ainda que o jogo frente ao Irão tenha de ser encarado com enorme profissionalismo. E de preferência, jogando futebol. 

2. Chamar por Messi. Sei que aos adeptos tudo é permitido, até porque pagam bilhete. Mas alguém devia dizer-lhes que Cristiano reage mal à provocação. E quando digo mal, não é que me incomode. Até costuma marcar ainda mais. Continuem...

1. A falta de controlo e posse de bola da equipa portuguesa ao longo de todo o jogo são quase um ‘case study’. E difícil de explicar. Há motivos que são intrínsecos ao plano de jogo de Fernando Santos, mas ontem foi pior do que o habitual. 

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