Ludopédio

Bruno Prata
Bruno Prata

A 'Fórmula GKC'

O jogo em Braga já havia terminado há longos minutos e nas bancadas só já restavam as claques do Benfica (sim, porque não há forma de o negar: elas existem), que vozeavam com rara euforia o pregão "Aqui se vê a força do SLB". O campeão tinha, de facto, acabado de reclamar o seu estatuto, mas o arremedado manifesto parecia ir para lá da celebração, como se os adeptos quisessem também transmitir a ideia de que tinham entendido e aprovado a terapêutica que levou à regeneração. Sendo certo que só os profetas enxergam o óbvio, como diria Nelson Rodrigues, também não restam já nenhumas dúvidas de que a mudança para o 4x3x3 esteve para a equipa do Benfica como o ketchup está para os hambúrgueres: disfarça-lhe rapidamente as imperfeições e torna-os mais prazerosos e idôneos. E hoje salta à vista que o Benfica melhorou o seu jogo, já dá sinais de uma organização coletiva que parecia não existir e, tão ou mais importante, parece ter recuperado a alegria de jogar, como se tivesse recebido um banho de autoestima. É dos livros: o novo desenho, que passou a vigorar desde a visita a Guimarães, no início de Novembro, não é pior nem melhor, mas descomplica as compensações dentro da própria equipa. Dá-lhe simetria e uma plasticidade e uma arquitetura que facilitam a organização e o equilíbrio defensivo e potencia o dinamismo e até os movimentos e os passes de rotura.

O Benfica alterou o seu modus videndi (que já durava desde 2009/10, quando requisitou Jorge Jesus ao Sporting de Braga) e, em função disso, tornou-se mais compacto e competente, estando claramente a atravessar a sua melhor fase na época. É provável que a simples alteração de rotinas tenha favorecido o upgrade, da mesma forma que pode estar a ocorrer igualmente um fenómeno de superação, provocado pelas urdiduras dos emails e toda a restante fuligem que se conhece. Aliás, algo notório é a resiliência de uma equipa que, com maior ou menor competência, conseguiu contrariar as teses de derrocada iminente quando jogou no Dragão ou quando recebeu o Sporting. Teve pelo menos esse mérito, o de nunca se render. Também não custa fazer justiça a Rui Vitória, mais a mais porque é concebível que se sinta mais hábil e versado a trabalhar um sistema tático que tem muito mais a ver com o seu anterior percurso. E, nessa perspetiva, até é possível incluir entre os proveitos a pressão inteligente, a boa reação à perda e a prevalência nas segundas bolas, que contribuíram em muito para as dificuldades do Sporting de Braga e para um primeiro tempo admirável do Benfica, na linha do que já havia feito na primeira parte em Moreira de Cónegos.

Claro que é ainda cedo para tirar conclusões definitivas. Até porque só ter 16 jogos até ao final da época pode ser uma vantagem, mas a Champions e os grandes duelos nas taças internas não têm apenas como consequência o desgaste suplementar – servem igualmente para elevar os níveis competitivos na liga. Mas, mesmo que não se saiba se o Benfica irá manter as doses justas de tática, energia e detalhes individuais, há, pelo menos, algo que tem condições para se tornar duradoiro (e que é também resultado do novo sistema): o lado esquerdo do Benfica tornou-se no grande motor da equipa. Expressa-se através da "Fórmula GKC", em que os pequenos triângulos formadas por Grimaldo, Krovinovic e Cervi resultam num futebol associativo e demolidor que compensa (ou contraria?) os habituais excessos de vertigem. E não deixa de ser sintomático que a simples entrada na equipa do pequenino e jovem croata tenha ajudado a revolucionar todo o processo ofensivo (e não só). Consequência ou não, o Benfica passou a fazer boa parte daquilo que distingue as melhores equipas, até porque Fejsa é ainda mais competente e eficaz jogando sem ninguém ao lado e Rúben Dias e Jardel (de regresso aos melhores tempos) voltam a permitir uma defesa alta que já não é possível com Luisão. Claro que está longe da perfeição. Como se viu na segunda parte em Braga, continua a não saber gerir o jogo (e a vantagem) com posse de bola. E quase entra em delírio quando os adversários reagem forte. Mas também não ajuda lançar nessas alturas um Samaris cada vez menos lúcido e habilitado e cada vez mais exagerado e faltoso. Principalmente quando se tem no "banco" João Carvalho e Zivkovic…



Cinco estrelas - Suárez empurra o Barça
O uruguaio, que vai com 11 tentos nas últimas 11 jornadas, foi fundamental para tornear as habituais dificuldades do Barcelona no Anoeta: os seus dois golos ajudaram à reviravolta (2-4). E o Barça termina a primeira volta sem derrotas e com a terceira melhor soma de pontos de sempre.

Quatro estrelas - Klopp humaniza o City
As duas equipas mais goleadoras da Premier League ofereceram um show de bola e de golos. E o futebol fascinante do City foi finalmente derrotado, à 23ª jornada, por um Liverpool que, mesmo sem Coutinho, vive da pressão, da velocidade e do músculo. E nunca ninguém como Klopp ganhou a Guardiola (6 vezes).

Três estrelas - Guedes vale ouro
Depois de 4 golos, 7assistências e muitas arrancadas fulminantes pelo Valência, o valor de Gonçalo Guedes disparou em flecha: o PSG já recusa vendê-lo por 40 milhões e já exige 70. Vai ser difícil excluí-lo do Mundial.

Duas estrelas - Swansea melhor com Carvalhal
O Swansea ainda segura a "lanterna vermelha", mas, pouco a pouco, lá se vai endireitando. Mérito de Carlos Carvalhal, que só perdeu um dos três jogos que dirigiu e foi empatar na casa do Newcastle de Bénitez.

Uma estrela - O 'circo' de Madrid
O Real Madrid de Florentino e Zidane é, cada vez mais, um "circo". A derrota em casa com o Villarreal deixou-o a 19 pontos da liderança, o pior registo em 12 anos. Também não ajuda o "jejum" de um Ronaldo que volta a passar a ideia de que quer mesmo sair.

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