Ludopédio

Bruno Prata
Bruno Prata

A gestão dos egos

çO futebol tem esta qualidade misteriosa que é a sua capacidade de desfazer a magia ou de (re)criá-la de surpresa, como se percebe quando se olha para o trajeto de Seferovic no Benfica. O suíço chegou no verão de 2017 e depressa desatou a marcar golos (quatro só durante o mês de agosto) e a coletar uma enxurrada de panegíricos, em que se valorizava até a circunstância de ter chegado a custo zero (de facto, os custos de intermediação e o prémio de assinatura do contrato de cinco anos totalizaram 3,9 milhões de euros). Mas, num ápice, entrou numa abstinência prolongada (só marcaria um golo em setembro e apenas mais dois até ao final da época, num total de sete), perdeu a titularidade para a dupla Jonas/Jiménez e a sua estrela empalideceu de uma forma tão marcada que parecia impossível poder voltar a ser visto como uma solução minimamente credível, até porque o 4x3x3, entretanto adotado, por vezes nem lhe garantia um lugar no banco de suplentes. Passou a ser visto como uma carta fora do baralho, não só pela maioria da crítica, mas também no próprio Estádio da Luz. E quem tiver dúvidas sobre esta dedução só tem de consultar os arquivos dos jornais e as notícias que davam conta da tentativa falhada de o recambiar para as arábias ou da vontade de o vender por um preço minimamente compensador. Mas a abstinência finalizadora de Facundo Ferreyra, a grande aposta para 2018/19, e as lesões de Castillo e Jonas (sendo que este, pelo meio, esteve também com um pé fora de Portugal, não tendo ficado nada claro, antes pelo contrário, se apenas por vontade própria…) acabaram por fazer com que Seferovic fosse resgatado das catacumbas da Luz.

A necessidade é a mãe das invenções, já o dizia Platão, e a verdade é que o suíço aproveitou bem o regresso à titularidade em Salónica (não marcou nenhum dos quatro golos, mas cumpriu bem a tarefa que lhe foi atribuída frente ao PAOK). E na goleada imposta ao Nacional já fez um golo e assistiu de forma esplêndida para o de Salvio, para além de uma outra situação em que conseguiu ‘arrastamentos’ inteligentes e dignos de um jogador que entende o jogo. Tem físico (1,85 m), um bom pé esquerdo e técnica q.b., o que não chegando obviamente para o consagrar, no presente, como um finalizador por excelência – só ultrapassou a fasquia dos sete golos por duas vezes na carreira, a primeira no Novara (10) e a segunda no primeiro dos três anos em que jogou no Eintracht Frankfurt (11) – também não permite grandes conclusões definitivas sobre essa valência, até porque só tem 26 anos.

Olhando para a nova situação de Seferovic, salta ainda mais à vista que um treinador também deve reafirmar a sua liderança e respeitabilidade no balneário em função da coerência com que age e opta. Conhecido como o mágico de Westwood depois de ter ganho, nos anos 60 e 70, dez campeonatos norte-americanos de basquetebol, John Wooden teve uma das suas célebres tiradas quando afirmou que "um treinador é alguém que pode corrigir sem causar ressentimentos". E a verdade é que Rui Vitória nem sempre tem tido essa perícia, o que faz com que, muitas vezes, os titulares se sintam demasiado titulares e com que os suplentes aceitem a condição de irremediáveis secundários. E alguns destes acabam por se tresmalhar pelo caminho, como esteve quase a acontecer a Seferovic. Tem outras valências o técnico benfiquista, a começar pela coragem com que observa e lança os talentos da formação, num contraste fragrante com os tempos de Jesus, quando os responsáveis pelo ‘plantio’ do Seixal sentiam que passavam o tempo a lavrar para depois o técnico principal nunca semear. Mas tem faltado a Vitória a capacidade de fazer as trocas pontuais que, em determinados jogos, permitiriam manter a competitividade interna e deixar os múltiplos egos do balneário minimamente satisfeitos. Isso não aconteceu no passado com Seferovic, como não aconteceu noutras alturas com Zivkovic, Rafa e vários outros, sendo que nem todos eles têm o caráter de Jiménez. Não aceitarei nunca fazer parte do grupo dos que criticam Rui Vitória até pela escolha dos atacadores das botas, mas esta é uma boa altura de lhe lembrar que os sucessos contam, mas os insucessos também são contados. E que esta necessidade de gerir melhor os recursos e os egos é agora ainda mais premente. Porque os perto de 30 milhões gastos nas contratações de Vlachodimos, Conti (Lema, por aquilo que já se lhe viu, foi um desatino difícil de entender), Gabriel, Corchia, Castillo e Ferreyra, bem como os regressos de Alfa Semedo e Yuri Ribeiro, a recuperação de Krovinovic e as promoções de Gedson e João Félix não deviam significar apenas, como disse bem Rui Vitória, que o "puzzle está agora mais completo". Mas também que vai passar a haver outro cuidado no aproveitamento da sua variedade e na gestão dos seus humores.

Renato Sanches chamado porquê?

Fernando Santos não será nunca visto como um renovador radical, mas a verdade é que se prepara para ‘batizar’ mais quatro internacionais e já foi responsável por 33 estreias. A de Cláudio Ramos (26 anos) chega com algum atraso. Estranho só o facto de o guarda-redes do Tondela ir ocupar o lugar que vinha sendo de Anthony Lopes, que parece claramente hoje a alternativa mais consistente e credível para substituir Patrício – a menos, claro, que o jogador do Lyon tenha pedido escusa, o que já aconteceu noutras alturas. Chamar Sérgio Oliveira é premiar o que de bom ele vem fazendo desde meio da época passada, enquanto a convocatória de Pedro Mendes (27 anos/Montpellier) se justifica pela procura de soluções para um sector que acusa a veterania. Finalmente, um talento raro como é o de Gedson justifica sempre este salto vertiginoso de etapas, até para se ir ambientando.

Os regressos de Cancelo e Rúben Neves (as grandes falhas na convocatória para o Mundial) eram obrigatórios, tal como os de Rony Lopes, Bruma e Pizzi, que está a ter o melhor início de época que alguma vez lhe vimos. Mas é difícil de perceber a presença neste lote de Renato Sanches, que não joga há mais de um mês e não efetuou nenhum jogo oficial pelo Bayern. Se a ideia é ajudá-lo a recuperar de uma fase traumática, isso poderia acontecer nos sub-21 (escalão em que até seria mais útil) e não tanto num ‘ciclo que começa agora’ e que já inclui um confronto oficial com a Itália, para a Taça das Nações.

Santos facilitou a ausência de CR7, numa gestão de humores e do físico que se irá tornar cada vez mais frequente. Não é uma questão pacífica, mas revela bom senso. Algumas das outras ausências podem ser justificadas pela necessidade de experimentar novas soluções, como serão os casos de João Moutinho e Ricardo Pereira, que estão a jogar (e bem), o que os distingue, neste momento, de João Mário e Adrien. Já a não convocatória de Quaresma, Manuel Fernandes, José Fonte e Bruno Alves deverá ser sinónimo de renovação. Ou não, porque Santos garante que o BI continua a não contar.
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