Ludopédio

Bruno Prata
Bruno Prata

A melhor obra (inacabada) de Jesus

Já não restam muitas dúvidas: Jorge Jesus está a arquitetar e a erguer em Alvalade a melhor criação da sua carreira. É verdade que é ainda uma obra inacabada e que, ao contrário do que aconteceu ao catalão Antoni Gaudí com a sua laureada Sagrada Família, ela nunca se consagrará e será suficientemente impactante junto do público se não for rematada com o champanhe do título. É ainda justo reconhecer que as fundações deste Sporting foram lançadas pelos três treinadores que antecederam Jesus no cargo (sim, para além de Marco Silva, também Jesualdo Ferreira não deve ser esquecido), como, de resto, Leonardo Jardim reclamou com razão há alguns dias - sendo que a nenhum deles foi oferecida tanta autonomia e recursos humanos tão variados e de idêntica qualidade. Mas, independentemente do que a ditadura dos resultados venha a impor no final da época, é da mais elementar justiça reconhecer, desde já, que Jesus também já teve mais, melhor e mais cara matéria-prima nalguns dos seis anos em que esteve no Benfica, e em nenhum momento conseguiu arquitetar um produto tão homogéneo e harmonioso.

Tal como acontece hoje, descobria-se na obra pintada a vermelho um trabalho de excelência no alinhamento defensivo, um bloco subido e uma reação à perda irrepreensível e que potenciava a capacidade de ferir o adversário com ataques rápidos. Mantém-se também a capacidade de criar equipas famintas, como se viu na forma obstinada como o Sporting caceteou sem piedade o adversário em Setúbal ou regressou desejoso e vibrante do balneário frente ao Braga, numa altura em que os rivais já esfregavam as mãos. A diferença é que a construção tingida de verde é muito mais balanceada e equilibrada nos diversos momentos de jogo, caindo muito menos em situações de futebol vertiginoso e, por consequência, menos dada às quedas no precipício.

Hoje, até já se vê uma equipa capaz de, aqui e ali, gerir a situação em posse, algo que no Benfica parecia ser sempre uma solução postiça e quase proibida. Esta versão 'quitada' de Jesus ganhou alguns extras, designadamente em resultado do posicionamento e dos movimentos dos alas, que jogam agora muitas vezes por dentro, o que dá outra simetria e unidade ao 4x4x2 clássico. De facto, hoje olha-se para este Sporting e tanto se pode descobrir o sistema de partida como, logo a seguir, um 4x2x3x1, um 4x1x3x2 ou até um 4x3x3. E, com isso, até garante maior diversidade nas soluções ofensivas. Não é futebol total, mas também já não é o regime rígido e demasiado hermético que contribuiu para alguns dos dissabores que tornaram o treinador menos unânime na Luz.

Claro que haverá sempre quem relacione este futebol mais multifuncional com as características dos jogadores que tem agora à sua disposição, sendo os exemplos mais claros João Mário e Bryan Ruiz. Mas quantas vezes não questionámos, sem sucesso, por que razão abdicava Jesus de usar Gaitán nas costas do ponta-de-lança nalguns jogos de características especiais, designadamente nos da Champions? E o que é que fez agora Jesus num jogo com o FC Porto em que até tinha necessidade imperiosa de vencer para poder regressar à liderança? Manteve João Mário naquele papel duplo em que parte da ala direita e optou por desviar Bryan Ruiz para o corredor central, percebendo que, com isso, iria ter um controlo de jogo maior do que teria se investisse em Montero, que não tem a capacidade para, em determinadas fases do jogo, pensar como um médio.

E frente ao V. Setúbal e ao Sp. Braga não teve dúvidas em trocar a profundidade e a rapidez de Gelson ou a imprevisibilidade de Matheus pela consistência do brasileiro Bruno César, um reforço que pode ter pasmado alguns adeptos menos atentos, mas que surgiu na mesma lógica de encorpamento da equipa. E em ambos os jogos, quando foi preciso gerir (Setúbal) ou preparar o último assalto (Braga), a opção lançada do banco passou pela sapiência e qualidade do italiano Aquilani. Em ambos os casos, Jesus confirmou ser hoje um treinador mais versátil e sábio. Pena é que os ganhos em sapiência e temperança só tragam ganhos no relvado e não sejam ainda de molde a evitar declarações indecorosas e execráveis como as que, mais uma vez, endossou a Rui Vitória. Nesse aspeto, a obra de Jesus, mais do que inacabada, continua disforme e canalha.


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