Ludopédio

Bruno Prata
Bruno Prata

A montanha-russa do Barça

O velejador norte-americano Dennis Conner, conhecido como ‘Mr. America´s Cup’, disse um dia que "só há uma coisa melhor do que ganhar: perder e voltar a ganhar". Mas a incomum derrota na Corunha confirmou o quanto esta época do Barcelona se vem transformando numa espécie de montanha-russa, cheia de ‘shuttles’ sublimes e ‘loopings’ perigosos. Depois do enorme fiasco em Paris e do luto profundo que se lhe seguiu, arrancou para uma série de vitórias gordas e que o levou à liderança provisória da liga espanhola, culminada com a goleada homérica sobre o PSG, na maior ‘remontada’ alguma vez vista na Champions. "O nunca visto", titulou então o ‘El País’ sobre a versão melhorada do milagre conseguido pelo United de Ferguson sobre o Bayern de Munique, na final da Champions de 1999, curiosamente também no Camp Nou. Após o tropeção em Paris, não faltou quem acusasse Luis Enrique de tudo e mais alguma coisa. Uns diziam que é um treinador sem cintura, com substituições de pacotilha e sem plano B, outros acusaram-no até de ter traído a ideia de jogo de Guardiola, de ter uma política de rotações difícil de decifrar, demasiada imprevisibilidade tática e de ter escolhido um mau momento para anunciar a saída em junho. O Barça é um clube vulcânico e consegue triturar até um técnico que, nos dois primeiros anos, ganhou oito dos dez troféus disputados (incluindo duas ligas espanholas, uma Champions e um mundial) e que, na época em curso, já garantiu os ‘quartos’ da Champions, a final Taça do Rei e não desiste da liga espanhola. Mas após aqueles sete minutos tresloucados que valeram três golos e os quartos-de-final, passou a ler-se que o técnico tinha ajudado a equipa a relaxar com o anúncio da sua saída e já tinha voltado a ser o grande estratega, capaz de sacar da manga o 3x4x3 em losango nunca visto desde Cruyff. De facto, a reconciliação com o manual cruyffista havia começado muito antes da eliminação do PSG. O asturiano ainda insistiu no 4x3x3 frente ao Leganés, mas como o Barça continuou a agonizar e só foi salvo por um penálti ao minuto 90, no Calderón já assumiu a defesa a três, mesmo que Sergi Roberto baixasse para fechar o corredor direito em momento defensivo. A fórmula resultou e foi sendo aprimorada nas goleadas sobre o Gijón e o Celta. Com mais um homem no miolo, recuperava as ligações e a velocidade de jogo, dava maior suporte a Busquets, libertava Messi das amarras ao corredor direito e Neymar e Rafinha podiam investir no 1x1 e tirar partido da superioridade na zona de criação. Luís Enrique não é um cruyffista puro, mas o 3x4x3 (em organização ofensiva) permite-lhe resolver o problema que surgia sempre que os adversários pressionavam alto e a bola não chegava à MSN. Foi também a partir daí que fez voltar Messi à zona central do campo e um pouco mais recuado do que vinha acontecendo quando jogava sobre a direita. Messi, que já foi extremo, falso nove, a partir daí movimentou-se mais de acordo com o dez nas costas. Os seus movimentos aleatórios desmontaram o Celta (que é uma boa equipa) e o seu segundo golo foi uma parábola.


O Barça marcou então 17 golos em quatro jogos, aproveitou a escorregadela do Real com o Las Palmas, mas Luis Enrique decidiu que frente ao PSG era preciso radicalizar a proposta defensiva (o 3x4x3 foi assumido em pleno, sem dar lugar a outras variante em nenhum momento). Deixou Sergi Roberto e Jordi Alba de fora, jogou com Neymar e Rafinha abertos e pediu a Mascherano, Piqué e Umtiti que assumissem o 3x3 com Draxler, Cavani e Lucas Moura. Uma estratégia para muitos aventureira, mas que foi suportada por uma capacidade de pressing inolvidável e capaz de asfixiar um PSG que fez uma gestão tática poltrona e desastrosa (como foi possível abdicar de Di María?). O Barça, que havia feito em Paris o seu pior jogo em três anos, acabou por rentabilizar o risco e conseguir um resultado estranho. Mas já o vimos jogar bem melhor, mesmo esta época. Foi uma vitória construída à imagem e semelhança do seu criador e uma façanha levada a cabo por homens competitivos e que não querem abandonar o pedestal. Reapareceu a melhor faceta de Busquets, peça-chave em função da sua clarividência e do seu ritmo, mas foi principalmente o jogo da afirmação de Neymar. O argentino tinha efetuado, frente ao Celta, um dos melhores jogos da sua história recente e protagonizou as fotos mais icónicas da eliminação do PSG, mas baixou a cabeça quando Cavani reduziu e escondeu-se ainda mais aquando do livre direto e do penálti na cavalgada final. Luis Enrique mostrou como ressuscitar uma equipa em três semanas, mas quem mudou mesmo o signo da eliminatória foi Neymar, que a partir de agora deve passar a ser visto como o digno sucessor de Messi. Foi muito à custa dele que o Barça passou a ser o favorito à vitória na Champions nas casas de apostas, à frente do Bayern e do Real. Mas, como diria Napoleão, o génio também é a arte da oportunidade. E a derrota no Riazor (onde não foi despicienda a ausência do castigado Neymar) teve um efeito de desbaratamento e tirou a equipa e os adeptos das nuvens.

5 estrelas -- Ramos é ponta-de-lança

No espaço de quatro dias, Sergio Ramos salvou por duas vezes o Real Madrid. Primeiro frente ao Nápoles e anteontem na difícil ‘remontada’ sobre o Bétis. Desde a final da Champions em Lisboa, já marcou 19 golos decisivos, de um total de 68 com a camisola blanca. São números de ponta-de-lança.

4 estrelas -- Cânticos anti-desportivos

Sporting, FC Porto, V. Guimarães e Varzim foram multados pelos cânticos insultuosos dirigidos a adversários e aos árbitros, medida profilática que justifica elogios ao CD da FPF. Só é pena que os panfletos e os ditos incendiários de alguns responsáveis escapem impunes.

3 estrelas -- Icardi faz hat trick supersónico

Mauro Icardi só precisou de nove minutos para marcar três dos sete golos com que o Inter de Milão goleou (7-1) o Atalanta. O avançado argentino já é o segundo melhor marcador do ‘calcio’, com 20 golos, a dois de Andrea Belotti (Torino).

2 estrelas -- Perdoa-lhe Marco...

José Eduardo perdeu nos tribunais e vai ter de pagar a indemnização correspondente à difamação agravada cometida sobre Marco Silva. Mas diz que não se arrepende. Era previsível: o fraco jamais perdoa e o perdão é sina dos fortes…

1 estrela -- André Gomes e a energia negativa

Camp Nou e a imprensa espanhola, principalmente a catalã, estão a colocar uma pressão inaudita e insalubre sobre André Gomes, como se ele tivesse culpa dos milhões que custou. Na Corunha voltou a não ser fácil ao português lidar com tanta energia negativa. Só lhe tem valido o caráter forte do treinador.




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