Ludopédio

Bruno Prata
Bruno Prata

BdC e o novo desafio

O futebol foi há muitos anos tomado de assalto por gente perigosa e que tem aquela irreprimível particularidade de estar apaixonada por si própria. E quem agora se abespinha contra a intolerância e o estilo antidemocrático e populista do recém-legitimado presidente do Sporting não deve esquecer que os limites da decência, nas palavras e nos atos, já foram ultrapassados inúmeras vezes no passado por outros protagonistas com enormes responsabilidade - e quem tiver dúvidas não terá grandes dificuldades em encontrar nos arquivos dos jornais situações que envolveram, por exemplo, os atuais líderes do FC Porto e do Benfica. É verdade que poucas vezes, como agora, se terá atingido tamanho nível de irracionalidade e fanatismo. E aqui importa reconhecer que esta triste realidade se agudizou ainda mais desde que a redes sociais vieram adubar a cegueira e a adoração clubística. E, neste ponto, a comunicação social também devia fazer mea culpa e assumir, por exemplo, que tem ajudado a promover, até à exaustão, os posts e os tweets dos dirigentes e dos (ir)responsáveis dos departamentos de comunicação, incluindo aqueles que não passavam de devaneios mais ou menos privados e/ou esconsos. E têm-no feito sem qualquer critério editorial e de uma forma que apenas serve para lançar mais gasolina para a fogueira.

Mas, não sejamos ingénuos, o que se viveu durante e após a última assembleia geral do Sporting não reflete apenas os tiques de prepotência e a soberba do líder sportinguista, mas também uma conjuntura que faz com que, nestas alturas, emerja sempre nos clubes uma fração de adeptos que acaba por funcionar como caixa de ressonância e até como guarda pretoriana de quem está no poder. São sempre esses os primeiros a aplaudir e a consagrar quem governa, a mostrar os dentes a quem ousa discordar e, claro, a tentar sovar os 'malvados' jornalistas. É quase sempre um reflexo condicionado, uma reação pavloviana, o que nos casos mais extremos deveria ser prova suficiente para responsabilizar quem os estimula. E é normalmente essa parcela mais implacável e seguidista que adere em massa e sem comedimentos aos reptos lançados pelos seus 'Queridos líderes', por muito que eles (os reptos) possam ser inconsequentes ou até tresloucados, como é o pedido para não lerem jornais nem verem programas televisivos (o que, nos casos mais extremos, também significaria deixarem de ver os jogos da sua própria equipa). No futebol, tal como na política, ninguém é mais adorado do que os tiranos, até porque o medo faz mais lisonjeiros do que a razão e a justiça. A esses, que acreditam que quanto mais burlesco e belicoso for o discurso melhor, Bruno de Carvalho (BdC) seria, nesta fase, capaz até de persuadi-los de que é racismo separar a roupa de cor da outra, antes de a meter na máquina. E alguns encarariam mesmo deixar de tomar os comprimidos vermelhos para o colesterol se o 'carismático líder' lhes dissesse que estavam a cometer um sacrilégio. E não se descubra neste olhar caricatural nada de especialmente corrosivo, porque este tipo de clientela contumaz existe em todos os clubes. Mas depois há ainda os outros, os que não perdem a racionalidade e não se reveem nalguns excessos verbais nem em diversas atitudes ou medidas do núcleo dirigente, mas que acabam por condescender em favor daquilo que consideram primordial. Ou seja, até podem discordar das alterações estatutárias ou do novo regulamento disciplinar, mas preferem autocensurar-se e deixá-lo passar porque isso evita a queda de um presidente que, entre outras coisas importantes, lhes construiu um pavilhão e deu equipas competitivas. E que, mais significativo, voltou a fazê-los sonhar. Foi uma opção razoável e humana.

Mas que, por outro lado, não invalida as batalhas inúteis em que BdC insiste em envolver-se, bem como a coação pouco regular que exerceu sobre os associados leoninos. Aqui chegado, devia resguardar-se um pouco e parar para refletir. Porque este é o momento certo para perceber que o medo faz o lobo (ou, se preferir, o leão…) maior do que ele realmente é. E que, como diria Roosevelt, um voto é como uma carabina: a sua utilidade depende de quem a usa… BdC hostilizou de forma sanguínea todos aqueles que não lhe prestaram total vassalagem e, entre esses, estão vários dos que não terão dúvidas em vergastá-lo e em disputar-lhe o lugar se houver insucesso desportivo. E, se isso acontecer, de pouco lhe valerá acudir-se junto dos que agora o veneram e escoltam. Porque boa parte desses já andará à procura de novo guru e já estará do outro lado da barricada.

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Asensio vende classe

Em pouco mais de mil minutos, o jovem Marco Asensio somou seis golos pelo Real Madrid (tantos quantos conseguiu Bale), ajudando com dois deles na importante vitória (3-5) no campo do Betis. É um jogador refinado, como se vira frente ao PSG.

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FIFA está muito melhor

Gianni Infantino mostrou, na entrevista ao 'L'Équipe', que os dirigentes também podem fazer bem ao futebol. A reforma que propõe, designadamente as alterações nas datas do mercado de jogadores, são muito bem-vindas.


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O gesto de Abel

O Sp. Braga conseguiu uma vitória histórica em Guimarães, mas quase tão importante foi o gesto do seu treinador: Abel Ferreira fez sinal aos seus adeptos para pararem com os "olés". Os adversários devem ser vencidos, não humilhados.

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Pochettino é grande

Ryan Mason teve de abandonar o futebol aos 26 anos depois da fratura no crânio que sofreu na sequência dum choque com Cahill, em janeiro de 2017. Mas Pochettino não é apenas bom treinador: vai incluí-lo na equipa técnica do Tottenham. A solidariedade não se exalta - pratica-se.

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Moreirense não aprende

Petit não tem culpa, mas continua por explicar como é que o Moreirense despediu Sérgio Vieira depois de este ter empatado com o FC Porto, vencido em Tondela e perdido com o Estoril, num jogo em que fez uma boa exibição e foi vítima de um penálti falso.
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