Ludopédio

Bruno Prata
Bruno Prata

Clube de um treinador

Sérgio Conceição não exagerou quando disse que o 28.º título pode ter sido o mais importante dos últimos 30 anos na história do FC Porto. De facto, o treinador portista até foi comedido, porque a magnitude da vitória no campeonato que está prestes a terminar é bem capaz de só perder na comparação para a conquista que há 40 anos, sob a égide de José Maria Pedroto, permitiu por termo aos 19 anos sem o título de campeão, a maior e mais traumática abstinência na memória do Dragão. A façanha garantida este fim-de-semana pode talvez ser equiparada a outros dois grandes e ponderosos momentos: o pentacampeonato selado, em 1998/99, pelo atual selecionador Fernando Santos e o primeiro título ganho por José Mourinho, em 2002/03. O primeiro essencialmente pelo simbolismo e relevância da conquista e o segundo por ter posto cobro a um período estéril de três anos em que os cofres também estavam vazios e o poder de Pinto da Costa chegou igualmente a ser contestado na rua e em que se lançaram as bases para as glórias alcançadas em Sevilha e Gelsenkirchen. Com as devidas diferenças, esta façanha é talvez a mais similar ao momento que o FC Porto vive hoje. Também na altura não houve dinheiro para disputar os melhores mercados de jogadores, tendo a aposta passado essencialmente por figuras (ainda) pouco afamadas e por um treinador jovem, ambicioso e com personalidade muito própria. Mas há uma dissemelhança importante: o ‘jejum’ de então resultava de dois campeonatos ganhos pelo Sporting e um pelo Boavista, o que, não sendo prazeroso, não chegava para traumatizar. Ora, na presente época, o FC Porto vinha de ser amassado pelos quatro campeonatos ganhos por um Benfica que, pior ainda, ameaçava igualar um feito que os portistas sempre reclamaram como exclusivo seu. E perder essa posição para alguém que, mais do que um adversário, se foi tornando num beligerante hostil era algo capaz de causar urticária à generalidade dos portistas. É principalmente este cenário que ajuda a explicar a adesão incondicional no apoio à equipa e a forma jubilosa e eletrizante como o último título foi festejado, muito mais determinante do que o virulento combate travado contra o "polvo encarnado", por muito que nos queiram vender o contrário. Mas até isso, claro, ajudou a que esta não tenha sido uma conquista igual a tantas outras conseguidas no reinado de Pinto da Costa.

E, aqui chegados, importa deixar claro que o FC Porto foi esta época uma equipa de um treinador, mais do que de um presidente – ao contrário do que acontecera em muitos dos 21 títulos ganhos durante a atual presidência. Porque foi quase sempre uma equipa construída e gerida à imagem e semelhança do seu criador, que sacou petróleo de um bunker aparentemente árido. E o reconhecimento desse papel ficou bem expresso nas reações públicas da generalidade dos adeptos ou maior parte dos cartazes exibidos frente ao Feirense, em que se chegou a agradecer ao técnico por "trazer de volta" os melhores valores. Mas Conceição fez mais do que isso. Convenceu os jogadores da sua ideia de jogo, contagiou-os com a sua ambição e arrebatamento e com isso ganhou o balneário. E, com a mesma celeridade, convenceu os adeptos e ganhou o clube. A quem desconfiasse da sua tarimba para tamanha aventura, Conceição entrou a dizer que vinha para ensinar e não para aprender e, na verdade, o FC Porto foi quase sempre uma equipa sem freno, que entra com taquicardia e com dinamite na frente, sem demasiadas preocupações com a elegância plástica. E os adversários lá foram caindo, na maior parte das vezes, demolidos ante o seu poder energético. E esse mérito teria sempre de lhe ser tributado independentemente do desfecho na Luz, não sendo por acaso que o autor destas linhas já arriscava dizer em outubro último que o treinador do FC Porto estava a ser o grande protagonista do campeonato português. Este FC Porto não é uma equipa perfeita, longe disso, notando-se, por exemplo, débito de criatividade principalmente quando encontra adversários com o bloco baixo e compacto. Mas é uma equipa inteligentemente esboçada para um campeonato nivelado por baixo como é o português, em que entrar nos jogos com a sofreguidão dos que chegam tarde a uma festança é meio caminho andado para a vitória.


Cinco estrelas -- Marega intimida

Numa equipa que nunca especula, Marega faz luzir as pinturas de guerra em cada ação. Valeu mais do que os 22 golos, porque Aboubakar e Soares também marcam mais com ele ao lado.


Quatro estrelas -- O líder e o rei dos dribles

Herrera passou de patinho feio a líder indiscutível do balneário. Magnífica a forma como resolveu a ausência de Danilo e acolheu Sérgio Oliveira. Brahimi foi muito mais que o rei dos dribles.



Três estrelas -- Marcano e os outros

Felipe foi o sargento, mas o verdadeiro comandante da defesa foi Marcano, que tem classe para dar e vender. Alex Telles, rei das assistências, vale ouro, mas Ricardo merece sonhar com o Mundial.


Duas estrelas -- A dança na baliza

Conceição deu um sinal forte ao balneário quando tirou Casillas da baliza em Leipzig. Mas o espanhol teve a singeleza suficiente para trabalhar e recuperar a baliza, onde voltou a ser importante.


Uma estrela -- Infeliz Vitória

Rui Vitória é um homem de forte firmeza moral, ninguém tenha dúvidas, mas esquivar-se a dar os parabéns ao FC Porto deixou-o muito mal na fotografia. E era tão fácil…







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