Ludopédio

Bruno Prata
Bruno Prata

Contra a 'Leicestermania'

Sempre que um outsider solta o champanhe, como está muitíssimo perto de acontecer ao Leicester em Inglaterra, a tribo do futebol acaba contagiada por um fenómeno laudatório. E mesmo aqueles que não se reveem no jogar dos campeões, acabam rendidos ao David que foi capaz de derrubar os Golias dos relvados. É uma reação humana e que o futebol português já viveu com o Boavista em 2001. Os vencedores são invariavelmente canonizados e isso acentua-se quando se atinge o êxito com meios modestos. Mas este texto serve para deixar claro que o autor não foi atingido por esse aventuroso vírus da ‘Leicestermania’ e que, pelo contrário, irá continuar a torcer para que o Tottenham ultrapasse a equipa de Ranieri, cenário cada vez menos verosímil a quatro jornadas do fim da Premier League. E não custa assumi-lo. Primeiro, porque os spurs (que não são campeões há 54 anos) também não escapam ao romancismo quixotesco: também não eram favoritos. Depois, porque se equivalem no espírito combativo que tanto serve para elogiar o Leicester. Com uma vantagem: apresentam um futebol ofensivo e dominador e têm mais golos marcados e menos sofridos.

Em suma, ganham na qualidade futebolística. E conseguem-no sendo a equipa mais jovem. Sem desprimor para os processos simples e para a eficácia do Leicester, a liga mais importante do Mundo merece um campeão com futebol mais elaborado. E não apenas aquele 4x4x2 afinadinho que ganhou 70% dos jogos pela diferença mínima e teve mais penáltis a favor do que a concorrência. Claro que não somos indiferentes à magia do pé esquerdo de Mahrez nem ao conto de fadas que vive Vardy. É obviamente impossível não apreciar os guerreiros pretorianos em que se transformaram os médios Kanté e Drinkwater, a funcionalidade dos centrais Huth e Morgan e as estiradas do Kasper que o pai Schmeichel levava para o relvado de Alvalade no virar do século. Mas quem for autêntico terá de aceitar que o argentino Pochettino construiu algo diferente, uma equipa de autor. Onde convivem de forma harmoniosa tanto a segurança e a qualidade do guarda-redes Lloris, dos laterais Kyle Walker e Danny Rose, dos médios Dembele e Eric Dier (Jesualdo Ferreira tinha razão quando disse que ele também podia jogar no meio) como a verticalidade dos extremos Dele Alli e Lamela, a magia de Eriksen e a voracidade de Harry Kane. "Se me perguntarem de que serve jogar bem, irei perguntar-lhes de que serve ser feliz", disse um dia Ángel Cappa (argentino formado em filosofia que foi adjunto de Menotti e Valdano), anotação que serve de carapuça aos que torcem o nariz a esta demarcação.

A caminhada do Leicester pede meças ao êxito do Verona (1985), do Kaiserslautern de Rehhagel (ganhou a corrida do título ao Bayern de Trappatoni em 1998), ao Corunha (2000), à Real Sociedad (2003) e ao Montpellier (em 2012 bateu um PSG que havia investido 106 milhões). Mas, em Inglaterra, a comparação vem sendo principalmente feita com o Nottingham Forest, até por representarem a mesma região de East Midlands. Em 1978, Brian Clough pegou na equipa quando ela estava perto de baixar à III Divisão, promoveu-a ao escalão principal e ganhou o campeonato com 7 pontos de vantagem sobre o Liverpool. Mas Clough marcou também a supremacia quando assumiu a rotura no discurso: "Não quero a bola pelo ar. Se Deus quisesse que jogássemos pelo céu, ter-lhe-ia dado um relvado."

Importa também desmistificar a questão financeira. É verdade que o Leicester não tem os 436 milhões de orçamento do City, mas hoje em dia qualquer equipa inglesa está tão forrada de libras que pode abastecer-se nos melhores marcados. E por detrás de algo anunciado como um milagre está um empresário tailandês de nome impronunciável (Vichai Srivaddhanaprabha) que comprou o clube há seis anos por 49 milhões de euros, aterra de helicóptero no King Power Stadium e é agora acusado pelo The Guardian de "dopagem financeira" no clube. Mesmo sendo verdade que a massa salarial de 57 milhões de libras (71 milhões de euros) é apenas um quarto do que o United gasta nessa parcela do orçamento, é dinheiro mais que suficiente para formar uma equipa boa. No verão passado, o Leicester gastou 38,3 milhões de euros em contratações, mais do dobro que o Arsenal. E na próxima época vai encaixar 100 milhões só da TV. Não é bem como se o Moreirense fosse campeão em Portugal, ao contrário do que defendeu há dias o genial Carlos Tê…

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Agüero merece mais

Não entrou na lista para a eleição do melhor jogador em Inglaterra (Mahrez, Vardy, Kanté, Kane, Ozil e Payet), mas Agüero fez um hat trick em Stamford Bridge e continua a confirmar-se como o melhor avançado da Premier League.

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Os bíceps de CR7

Depois de ter iniciado o terramoto que abala o Barcelona, CR7 fez um hat trick que mantém o Real na Champions e elevou para 360 os golos que leva marcados em 343 jogos pelo Madrid. Tem direito a mostrar os bíceps.

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Votos nulos e o resto

Pinto da Costa vai iniciar o seu 14º mandato, o que é obra, mas os 21% de votos nulos e a falta de privacidade na votação provam que não é só a equipa que está em crise. E como é que os estatutos não preveem votos em branco?

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Luis Enrique sem suplentes

O Barça, que chegou a ter 8 e 12 pontos de vantagem para os perseguidores, perdeu o terceiro jogo consecutivo e deixou escapar 11 dos últimos 12 pontos. E Luis Enrique não mandou um suplente sequer aquecer com o Valencia.

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A descida do Aston Villa

Aston Villa desceu à Championship, algo inédito na Premier League. Ao campeão europeu de 1981/82 de nada valeu o investimento de 66 milhões de euros em contratações.

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