Ludopédio

Bruno Prata
Bruno Prata

Dar a mão à palmatória

Luís César Menotti defendia que 98% dos jornalistas não entendiam patavina de futebol. Nada de muito extravagante, se levarmos em conta que também chegou a afirmar que 80% dos jogadores eram igualmente um zero à esquerda na matéria. Mais do que desvalorizar o trabalho dos críticos, o treinador que deu à Argentina o título mundial em 1978 acreditava piamente que os jornalistas não tinham mesmo que saber do fenómeno para escreverem e falarem sobre futebol. Bastava-lhes, dizia o argentino, refletirem os sentimentos dos adeptos. Isso, acrescentou, evitaria que os jornalistas tivessem a irresponsabilidade de se meterem por caminhos que, na sua opinião, têm pouco a ver com o jornalismo, como questionar um treinador por que razão joga aquele e não o outro. Charadas como esta – explicava – eram difíceis de discorrer até pelas pessoas que, como ele, levavam mais de quatro décadas catando um raciocínio sempre difícil de entender.

É muito provável que Menotti tenha hoje uma opinião bem diferente, não só por ele próprio ter acabado por se transformar num comentador televisivo, mas principalmente por ter ganho consciência de que uma parte importante dos adeptos evoluiu na sua erudição futebolística e, felizmente, já não se satisfaz com análises e considerações ocas e muitas vezes excessivamente dependentes dos resultados dos jogos e, pior ainda, das cores dos clubes. Mas a tese primordial de Menotti acabou por se impor. Pior do que isso, acabou por se confirmar perigosa, até por ter sido completamente adulterada por falsos correligionários que não se importam de vender textos de opinião e, principalmente, programas televisivos de adeptos que mais não fazem do que mercantilizar o que de pior produz a alienação futebolística.

São sessões de embrutecimento em que praticamente já não existe mediação jornalística, programas dominados por porta-vozes que até podem ser criaturas perfeitamente respeitáveis e equilibradas nas suas atividades profissionais, mas que se transfiguram quando assumem as vestes de representantes daquela fatia de adeptos que só se reveem no discurso truculento e malvado. Claro que os programas de adeptos não são todos iguais e há um ou outro que, obviamente, cumpre o seu papel sem mácula ou grandes nódoas – e não é necessário separar o trio do joio, porque as diferenças são por demais evidentes.

O que me fez trazer aqui este tema, devo confessá-lo, foi a consciência pesada. Sim, porque eu faço parte daquele clandestino grupo que despreza o conteúdo de certos programas televisivos em que o futebol é uma indulgência e um mero prolongamento para a grosseria e o dislate. Mas depois, muitas vezes com a desculpa da necessidade de estar informado, lá acabo também por contribuir para as suas audiências, quanto mais não seja através de cliques nos extratos mais sórdidos que germinam nas redes sociais. Desconfio que este tipo de ‘voyeurismo’ televisivo atinge muita boa gente que me acompanha na incoerência, caso contrário não haveria tanta gente a dizer mal e não seriam tão compensadoras as audiências. Sei os riscos que corro ao assumi-lo.

Mas, já que o fiz, vou tentar expiar parte da minha heresia, deixando a sugestão de experimentarem fazer programas em que falem mesmo de futebol. E até deixo uma proposta de alinhamento: como é que, à 2.ª jornada, o Benfica tinha dois pontos de atraso para Sporting e para o FC Porto e, sete rondas depois, tem cinco de vantagem sobre os portistas e sete sobre o vizinho de Alvalade, sabendo-se, ainda por cima, que se debateu como uma invulgar onda de lesões e mesmo assim continua a bater recordes? Mais do que a soberba de Jesus (lembram-se de ele ter dito, antes da viagem a Vila do Conde, que a diferença estava no treinador…) e a lesão de Adrien, não estará o Sporting a pagar o transtorno psicológico provocado pelo desaire em Madrid (agravado logo depois com nova reviravolta negativa em Guimarães)? O que dizer de um Sporting que duplicou a folha salarial, mas que está a fazer pior do que fez Marco Silva à passagem da nona jornada e muito pior do que quando Leonardo Jardim seguia a par do Benfica e a três pontos do FC Porto? Com tanta preocupação em dar equilíbrio defensivo a uma equipa jovem, não estará Nuno a retirar demasiada largura e tração ofensiva a FC Porto que se dá ao luxo de deixar o talento de Brahimi no ‘banco’ frente ao Nacional? Ok, metam também lá três perguntinhas sobre arbitragem… Não vos garanto audiências recordes, mas até os circos mais bárbaros há muito deixaram de promover o lançamento de anões…

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CR7 é único

Ronaldo continua a resolver as anunciadas crises da mesma maneira: com golos. Marcou o seu 38º hat-trick perante o Alavés e é o único jogador do mundo a ter sido nomeado para a Bola de Ouro em 13 épocas seguidas. Merece os milhões do novo contrato.

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O 3x4x3 de Conte

Desde que investiu num pouco visto 3x4x3, António Conte continua a fazer subir o Chelsea. Após quatro vitórias seguidas (incluindo goleada ao City), 11 golos marcados e nenhum sofrido, roubou o quarto lugar ao Tottenham e já está nos calcanhares do Liverpool, Arsenal e City.

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Braga já tem Horta e Fonte

Num Sp. Braga em que se notam muito as saídas de Rafa e Boly, Pedro Santos tem assumido as responsabilidades. Mas frente ao Belenenses foi Ricardo Horta a fazer a diferença numa equipa que ganha outra dimensão com Rui Fonte.

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Mourinho e a lucidez

Mourinho está numa verdadeira encruzilhada em Manchester. Os jornais falam num castigo exemplar ao técnico e o United já está mais perto dos lugares de descida do que da liderança. Mas reintegrar Schweinsteiger nos treinos foi um sinal de alguma lucidez.

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Neymar foi cobarde

Mais grave do que as quezílias travadas no relvado, em que tanto Rúben Vezo como Neymar passaram claramente as marcas, foi ver o jogador do Barcelona empurrar o central português quando este descia as escadas de acesso aos balneários. Foi um ato perigoso e cobarde.

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