Ludopédio

Bruno Prata
Bruno Prata

Das joias do Ajax à bijuteria do PSG

A última campanha da Champions confirmou que o PSG é um clube construído sobre uma fantasia: tem mais milhões do que estrutura, planificação e memórias. O reverso de um despretensioso Ajax que acabou com o reinado branco do Real sem nunca negociar o seu estilo e a sua juvenilidade. É como se os holandeses oferecessem joias preciosas numa loja de bijuterias. Ao invés, o PSG atrai craques sedentos de gordos salários, mas não disfarça a falta de carácter – confirmou-o perante um United privado de 11 dos seus melhores jogadores. Parece ter tudo o que garante o brilho, mas, na hora H, revela-se um autêntico pechisbeque.

Pelo terceiro ano consecutivo, o PSG estatelou-se nos "oitavos". Sendo que foi a segunda vez que foi vítima de uma "cambalhota" inaudita na eliminatória: há dois anos tinha batido, em Paris, o Barcelona por 4-0, mas perdeu por 6-1 na Catalunha. E a prova de que Paris não é uma capital do futebol surgiu agora (vitória em Old Trafford por 0-2 e derrota no Parque dos Príncipes por 1-3), num fiasco frente ao United que o "L’ Équipe" rotulou de "cataclismo lamentável". E o editorial do diário foi ainda mais castigador: "Os futebolistas do PSG têm as características mentais dos bebés e as pernas dos octogenários". Talvez uma crítica subliminar a Neymar, que regressou do carnaval do Brasil (onde era suposto estar a curar mais uma lesão) para assistir do camarote ao entrudo provocado pelo Manchester. Buffon, que deu uma frangalhada num lance em que demorou um século a levantar-se, também ficou com as orelhas a arder.

Mas as maiores críticas nem foram para os jogadores e o treinador Thomas Tuchel.  Todo o edifício do clube está a ser questionado, a começar pela política de um clube comprado há oito anos pelo Emir Tamim ben Hamad Al Thani, monarca absolutista do Qatar que nomeou Nasser Al-Khelaifi seu braço direito em Paris. Desta feita, não tem tanto a ver com a acusação de "dopagem financeira" (através de patrocínios inflacionados por empresas do Qatar), mas com o investimento desmesurado numa constelação de estrelas que se passeia internamente, mas se amedronta frente aos melhores.

Ora, o Emir tinha prometido colocar o PSG no patamar mais alto. E foi nesse pressuposto que, desde 2011, o PSG investiu 1.184,1 milhões de euros em reforços (como vendeu num total de 336,54 milhões, o balanço é negativo em 852,65 milhões). Só Neymar e Mbappé custaram mais de 400 daqueles milhões. Mas não houve dinheiro ou vontade para comprar o médio centro reclamado por Tuchel, obrigado a adaptar o central Marquinhos, principalmente após Rabiot se recusar a renovar e ser ostracizado. Resultado: o principal alvo das críticas tem sido o diretor desportivo Antero Henrique. O português não satisfez a vontade de Tuchel de ter o holandês De Jong (um relógio com botas que o Barça comprou ao Ajax por 86 milhões de euros), emprestou Lo Celso ao Bétis e contratou Leandro Paredes (45 milhões de euros), que Tuchel não pedira e que, provavelmente por isso, é suplente. Fundado apenas em 1970, o PSG (tal como Paris) nunca teve grandes raízes futebolísticas. Mas isso nota-se ainda mais desde que a sua equipa é fabricada a golpes de petrodólares…

O Ajax, por seu lado, usou o seu talento juvenil para derrubar o clube mais laureado, terminando a "cambalhota" na eliminatória frente ao arrogante Real com uma equipa com uma média de idades de 23 anos (tal como o United frente ao PSG). "Esta vitória foi a certificação da filosofia do futebol holandês e do Ajax", rejubilou o treinador Ten Hag. E com razão: o Ajax só gasta 28 milhões com a equipa principal, a segunda e a juvenil e afastou um Real que investe 630 milhões só nas vedetas. Mas sabe criar hábitos de futebol ofensivo aos 250 jogadores que crescem nos múltiplos campos do moderno centro de treino De Toekomst ("O futuro"), onde é aplicado o Sistema TIPS (acrónimo de Technique, Intelligence, Personality e Speed). Nos últimos dez anos, o Ajax encaixou 281 milhões de euros com 24 vendas de jogadores. Esta política não lhe permite ter sempre equipas competitivas (não ganha a Eredivise há quatro épocas). Mas as mais recentes fornadas destilam classe e estão ao nível do Ajax de Rinus Michels e Cruijff (tricampeão europeu nos anos 70) e do que também ergueu a "orelhuda" em 95.
 

Cinco estrelas - Zidane regressa com mais autoridade
Oito meses depois, Zidane volta a tomar conta do Real. A época está perdida, mas o francês tem agora a força reivindicativa que lhe faltou no passado, apesar do "triplete" de Champions. Resta saber se Florentino Pérez aceitou deixar de querer ser também diretor desportivo…

Quatro estrelas - Monchi troca Roma por Londres
Criticado pelo insucesso desportivo da Roma, o diretor desportivo espanhol Monchi (que tão boas apostas e negócios fez no Sevilha) enfrentou os adeptos mais pressurosos no aeroporto e, à chegada a Itália, bateu com a porta. Vai para o Arsenal, onde lhe darão tempo e os seus méritos serão valorizados.

Três estrelas - Igualdade de género com receitas díspares?
As 28 jogadoras da seleção feminina dos EUA apresentaram uma queixa nos tribunais, reclamando da "discriminação de género". A três meses do Mundial, exigem igualdade salarial e condições de trabalho iguais à seleção masculina. O problema são as diferentes receitas…

Duas estrelas - Ultras à moda de Paris
Não foi tão grave como em Alcochete, longe disso, mas a prova de que os ultras estragam as claques surgiu também em França: o treino do PSG (que fora mudado para o estádio já como medida cautelar) foi interrompido por 500 adeptos insatisfeitos.

Uma estrela - O Qatar comprou mesmo a FIFA
O The Times revelou as provas do que já era óbvio: o Qatar pagou, de forma encapotada (inflacionando contratos televisivos), 780 milhões de euros para garantir a organização do Mundial de 2022 naquele país asiático. Blatter e os seus homens de mão gostavam mais de dinheiro do que de futebol.
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