Ludopédio

Bruno Prata
Bruno Prata

Fiasco está acima dos técnicos

O fiasco em que se transformaram as épocas do FC Porto e do Sporting vai, provavelmente, acabar por ser visto como o fracasso dos treinadores, até porque, e como é da praxe, essa é a interpretação que mais desobriga de responsabilidades as duas SAD – e é nesse sentido que podem ser lidas as notícias segundo as quais Jesus ficou sem margem de erro e que Nuno está em maus lençóis (ou em vias de ser substituído, como dizem os informes mais radicais). Mais do que improcedentes ou desconexas, as teses que visam inculpar os dois treinadores têm um objetivo insidioso e visam acobertar o que é mais prevalecente: o que falhou, em ambos os casos, foi principalmente a política e a gestão desportivas. Não significa isto que Jesus e Nuno devam ficar isentos de responsabilidades. Pelo contrário, e neste espaço já tentámos relevar algumas. O exemplo mais ponderoso: um FC Porto mais audaz era capaz de ter evitado parte dos dez empates que somou na liga. Mas Nuno desprezou o facto de a constância e a harmonia não serem suficientemente recompensadores numa liga tão desequilibrada (fez mais sentido na Champions, onde o FC Porto teve carreira mais valorosa do que se quis fazer crer). E isso foi mais determinante do que alguns erros de estratégia. Na Madeira, por exemplo, não entendi por que voltou a tirar Octávio do meio-campo (onde, recorde-se, não havia a criatividade de Óliver) para o fazer regressar à ala. E, após uma primeira parte estimável, não se percebeu por que voltou o FC Porto do balneário quase só preocupado em gerir a vantagem mínima, sem cedências à aventura. Mas se há algo que esta época comprovou é que Nuno acredita na sua ideia de jogo e no trabalho caprichoso para a apurar. Tal como foi apreciável o crescimento futebolístico registado na generalidade dos jogadores ou a variedade de desenhos táticos que engendrou em tão pouco tempo. O que ele não pode resolver é a menor capacidade que o FC Porto tem hoje para intervir no mercado de jogadores, fruto dos constrangimentos financeiros que, ainda por cima, têm o condão de gerar perturbações dentro do próprio grupo.
O FC Porto viveu demasiado tempo à conta de uma estratégia perigosa, que obrigava a vendas milionárias dos craques, dando com isso uma falsa ideia de fartura (de facto, só servia para compor os orçamentos deficitários). À medida que foi tendo mais dificuldade em comprar bom e barato, os resultados a vermelho dispararam. E, já depois dos sinais preocupantes no segundo ano de Vítor Pereira, a primeira vítima desta pescadinha-de-rabo-na-boca foi Paulo Fonseca, que recebeu um plantel empobrecido. No primeiro ano de Lopetegui ainda houve a tentativa de remar contra a corrente, gastando-se o que havia e o que não havia, mas o insucesso desportivo tornou o cenário melindroso, até porque o FC Porto mantém até hoje a folha salarial mais alta do futebol português, um contrassenso se observarmos as diversas lacunas no plantel. Mas são esses constrangimentos financeiros que ajudam a explicar por que foi contratado Depoitre em Agosto e não um jogador melhor (e mais caro), o que não evitou o falhanço no cumprimento do "Fair Play financeiro". Não resta, por isso, outra opção do que continuar a vender os melhores anéis (e não será fácil atingir os mais de 100 milhões orçamentados) e passar a olhar com cada vez mais atenção para o mercado português e para a sua própria formação, de onde, é justo reconhecê-lo, começam finalmente a sair projetos interessantes. Ora, nenhum dos últimos treinadores tem responsabilidade neste cenário, sendo que Nuno até garantiu milhões na Champions e (quase de certeza) a presença direta na próxima época.

O Sporting já passou por um contexto idêntico, e se algum mérito deve ser dado a Bruno de Carvalho é precisamente o de ter dado a volta à situação (financeira). Mas fê-lo para logo a seguir cair na mesma esparrela, como se percebe lendo os relatórios em que se assume um folha salarial superior à do Benfica e a antecipação de receitas (o FC Porto faz o mesmo). Claro que isso resulta, em boa parte, da aposta num Jesus que é um excelente treinador e que teve o condão de ajudar à galvanização da maioria dos adeptos. Mas, em vez de potenciar estas valências, o presidente entregou-se-lhe totalmente nas mãos. Principalmente quando lhe aumentou o contrato para valores pornográficos. O que o Sporting precisava na altura era uma estrutura sólida e com gente com "know how" e estatuto suficientes para gerir as contratações (evitando-se os erros presidenciais dos dois primeiros anos ou o "apetite" descontrolado de Jesus) e para meter bom senso nas declarações públicas do presidente e do treinador. Talvez assim se evitasse que Jesus viesse responsabilizar os suplentes de terceira categoria por uma derrota que não acontecia há 62 anos e que Bruno de Carvalho respondesse que "os adeptos creem num projeto mais do que em treinadores ou jogadores". Esqueceu que a derrota do treinador e dos jogadores será a derrota do projeto.



Cinco estrelas - Paulo Fonseca merece tudo
O Shakhtar Donetsk recuperou o título da Ucrânia (após o bicampeonato do D. Kiev) à custa da sapiência da equipa de Paulo Fonseca, um treinador que junta o raro conhecimento a um comportamento irrepreensível.

Quatro estrelas - Os suplentes do Real
Que prazenteiro deve ser um treinador que pode recorrer a craques da estirpe de Morata e James Rodriguez (dois golos cada na goleada em Granada) quando decide poupar os titulares para a Champions. As segundas linhas do Real Madrid fazem inveja a qualquer clube.

Três estrelas - FPF volta a fazer bem ao futebol
Mais vale tarde do que nunca: os relatórios dos árbitros vão passar a ser públicos a partir da próxima época no futebol português. Depois do vídeo-árbitro, a FPF continua a fazer mais do que ninguém pela transparência e pela verdade desportiva.

Duas estrelas - Evangelista acertou na mouche
O que normalmente diz Joaquim Evangelista sobre os problemas no futebol português devia fazer parte de uma cartilha. Desta feita, o presidente do SJF assumiu que a responsabilidade do clima de crispação no nosso futebol é dos dirigentes dos três "grandes". E pediu mais liderança e bons exemplos. Na mouche.

Uma estrela - Contas a vermelho da FIFA
A FIFA vai fechar as contas com um prejuízo de 347 milhões de euros, mas o presidente Gianni Infantino diz que não está preocupado. Pudera, enquanto houver televisões que proporcionem lucros de mil milhões de dólares pela transmissão do Mundial tudo se resolve…

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