Ludopédio

Bruno Prata
Bruno Prata

Haraquíri dos árbitros e telhados de vidro

Não é fácil escapar às discussões sobre as imperfeições da arbitragem portuguesa numa semana em que diversos juízes fizeram haraquíri e, pior do que isso, inflacionaram esta cada vez mais azucrinante mania que os dirigentes têm de negar as evidências e de atirar calhaus aos telhados dos vizinhos - como se os seus não fossem também de um vidro quebradiço que precisa de ser substituído com frequência. Seria apenas burlesco e relativamente inócuo se as tagarelices de João Gabriel, Bruno de Carvalho e 'Dragões Diário' não conseguissem ser mais legitimadas e publicitadas pelos jornais, rádios, televisões e restante parafernália informativa online do que, imagine-se, as próprias insânias de Donald Trump nas Primárias dos EUA. Mas as baboseiras dos que não respeitam as suas responsabilidades acabam por ter um efeito de contágio junto de adeptos já de si excessivamente toldados na sua clarividência, o que além de perigoso acaba também por ser verdadeiramente execrável. Já não há inocentes neste teatro de fantoches em que se transforma diariamente o futebol português. É impossível, por exemplo, ficar indiferente ao último boletim digital do FC Porto, em que a equidade e a nobreza do Ferreira que dirigiu o Paços de Ferreira-Benfica é questionada de forma virulenta, num despudorado ataque que não teve sequer em conta o erro grave que um outro árbitro, por sinal também chamado Ferreira, tinha acabado de cometer no FC Porto-Moreirense. Como é que o FC Porto pode pretender que aquele pleonástico boletim desempenhe este papel e não haja consequências disciplinares para o clube? Falar em liberdade de imprensa e no direito à opinião é brincar com coisas muito sérias. Se o FC Porto quer usar um boletim como instrumento de amparo e/ou de arremesso, está no seu pleno direito. Mas não nos queira tentar vender gato por lebre e pretenda fugir às responsabilidades. E o mesmo se poderá dizer de algumas coisas que já foram ditas e escritas pelo diretor de comunicação do Benfica e pelo presidente do Sporting, que até tem responsabilidades acrescidas e, ao contrário dos outros casos, não se pode refugiar no argumento de já ter sido jornalista. Mais: alguns dos desabafos que um e outro deixam nas redes sociais também ultrapassam os limites da urbanidade e da decência. A justiça desportiva tem de se adaptar aos novos tempos e tornar-se intransigente também face aos excessos que, aqui e ali, se verificam nesta nova forma de comunicar. Despropósitos que, nalguns casos, podem ter efeitos mais nefastos para o negócio da indústria do futebol do que alguns erros arbitrais, por excessivamente valorizados.

Porque não gostamos de meias-tintas, fica aqui claríssimo que Benfica, FC Porto e V. Guimarães beneficiaram, nesta jornada da Liga, de penáltis falsos como Judas, isto só para citar os casos mais palpitantes. Esta opinião foi, de resto, acompanhada pela generalidade da crítica, o que serve para mostrar o quanto são, por vezes, injustos e excessivos alguns ataques que os dirigentes dirigem à comunicação social. Sem ponta de corporativismo, arrisco dizer que bem andaria o dirigismo desportivo se os seus líderes fossem tão responsáveis e despojados de segundos interesses como a generalidade dos que lideram a imprensa desportiva. Também não vou cair na tentação de graduar os últimos desatinos arbitrais e, muito menos, gastar demasiada tinta com a temática, até porque este texto foi escrito antes do Sporting-Boavista e não estaria livre de deixar de fora novas polémicas. A arbitragem portuguesa atravessa um período de vacas magras, acusando a inexperiência e a falta de qualidade de vários que fazem parte do quadro à disposição de Vítor Pereira. O presidente do CA teve méritos na credibilização e na melhoria das condições de um sector onde, continuo convencido, já não há as maçãs podres de outros tempos. Mas, pressionado por vários flancos, tem liderado um órgão que faz nomeações difíceis de entender, a última das quais foi a de Jorge Ferreira para o P. Ferreira-Benfica. Certo é que os árbitros vão continuar a errar, por vezes mesmo de forma grosseira. E essa situação só será atenuada quando lhes forem oferecidos meios tecnológicos que facilitem a sua missão. Enquanto isso não acontece, deixo-lhes aqui um conselho que Johan Cruyff deu um dia a um árbitro espanhol: "Não leves o apito na boca. Leva-o na mão; assim tens mais tempo para pensar antes de apitar…"

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O perfume de Diogo Jota
Os melhores perfumes servem-se em frascos pequenos e Diego Jota não cessa de mostrar ser um dos últimos grandes talentos que o futebol português viu nascer. O Benfica tem um acordo com o P. Ferreira, mas de pouco lhe valerá isso se não aceitar pagar ao jogador o preço justo pelo seu talento.

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A 'bofetada' de Lito Vidigal
Lito Vidigal foi o primeiro treinador a garantir o objetivo entre os que lutam pela permanência e, após a bofetada de luva branca dada ao presidente do Belenenses, o atual 5.º lugar até o autoriza a outros sonhos. Prémio justo para um técnico pragmático e detalhista.

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Demasiados estrangeiros
Mesmo que haja sinais de inversão da tendência, a liga portuguesa continua na ser a quinta da Europa com mais número de estrangeiros (55,6%), apenas atrás da Inglaterra (66,4), Bélgica (59,1), Itália (57,9) e Turquia (57,4), segundo um estudo em 37 ligas mundiais.

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Acabou o efeito ZZ no Real
O efeito ZZ (Zinedine Zidane) esfumou-se rapidamente e o Real Madrid está praticamente desenganado no que ao título diz respeito. Após o empate no La Rosaleda, o Real Madrid está a 9 pontos do líder, quando Benítez o tinha deixado, há oito jornadas, com apenas cinco pontos de atraso.

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Schmidt 'passou-se'
Roger Schmidt é um excelente treinador, mas protagonizou uma situação surrealista, quando se recusou a sair de campo após receber ordem de expulsão (levando mesmo o árbitro a abandonar o relvado e a ameaçar dar o jogo por terminado). O que terá passado pela cabeça do técnico alemão do Leverkusen?

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