Ludopédio

Bruno Prata
Bruno Prata

Jesus não é mafarrico

O francês Henri Michel disse uma vez que, no futebol, não se pode ser uma flor de um dia, enquanto o alemão Berti Vogts foi ainda mais sagaz a retratar a maledicência que sobrevive neste desporto: "Se eu caminhar sobre a água, vão dizer que não sei nadar…". Jorge Jesus também deve estar a ter dificuldade em digerir as críticas a um Sporting que tanto vinha prometendo e que, nas últimas semanas, se foi evaporando pouco a pouco. Como Guardiola e principalmente Mourinho podem hoje confirmar, o futebol tem sempre algo de efémero. De tal forma que os elogios hiperbólicos podem, em menos de um fósforo, transformar-se em reprimendas cortantes – metamorfose, já agora, que é sempre mais expedita quando a ira passa a ser dirigida a personagens que têm uma tendência quase patológica para emproarem como o pavão.

Quando estes ingredientes se acumulam resulta, já se sabe, num caldo rancoroso e virulento e em que as setas mais corrosivas até costumam vir daqueles que até aí só descobriam predicados e grandeza no seu egrégio treinador. Não falta então quem valorize facetas que até podem ser factuais e significativas, mas que até aí eram menosprezadas ou ignoradas, como o suculento ordenado do técnico e os muitos meios que foram postos à sua disposição, em contraste com a penúria com que se debateram os seus antecessores. Tendo eu, mal ou bem, verberado Jorge Jesus em diversos momentos, por vezes até de forma eventualmente provocadora (e utilizando então algum do argumentário que agora se me afigura oportunista), não consigo desta vez alinhar nas críticas que derramam hipocrisia e até algum mau perder. Jorge Jesus não era nem nunca foi a última bolacha do pacote, mas é um técnico muito acima da média, engenhoso e com muitas das valências (e também dos defeitos) que normalmente definem um ‘sef-made man’. Por isso, é injusto e indecoroso que alguns vira-casacas queiram agora fazer dele um mafarrico e um inapto. 

O futebol não é matemática e nenhum campeonato se ganha ou perde à oitava jornada, como o Benfica provou há um ano. Importa, claro, perceber por que razão as exibições do Sporting se foram tornando cada vez menos sinfónicas. Isso aconteceu, de forma nítida, após o 14 de setembro, dia em que Jesus e Gelson estiveram muito perto de sair em ombros do Santiago Bernabéu. Mas a reviravolta ‘in-extremis’ e imerecida do Real parece ter provocado efeitos colaterais que foram deixando o Sporting confuso e enredado em vícios. Tendo passado a haver ou não esse bloqueio psicológico, as exibições menos conseguidas e a falta de guião e de equilíbrio defensivo que resultaram em perda de pontos frente ao Rio Ave, ao V. Guimarães e ao Tondela não podem ser explicadas apenas pelo ‘vírus Champions’. Comprova-o o Benfica, que até aproveitou a acumulação de jogos para ganhar finura e voltagem. A questão da rotatividade também não foi determinante, mesmo que me pareça obrigatório o seu uso no futuro. Mas Jesus mudou meia equipa após o confronto com o Legia e nem por isso as coisas correram bem em Vila do Conde. E trocou apenas Markovic por André depois da derrota com o Dortmund, com os efeitos conhecidos frente ao Tondela (mas o Benfica também não rodou e conseguiu uma das suas melhores exibições no Restelo). Claro que salta à vista que o Sporting tem três indefinições que não ajudam à estabilidade e à dinâmica da equipa: lateral-esquerdo, substituto do lesionado Adrien e parceiro de Bas Dost.

O último caso acaba por ser o mais compreensível e aceitável, porque não é fácil perder uma ave rara como é Slimani. Mas mesmo aqui houve demasiada pressa na integração de Markovic e de André, até porque a utilização de Bruno César nas costas do ponta-de-lança garantiria o equilíbrio e o ponto de comunicação que faltou frente ao Dortmund (e que existiu em Madrid). De resto, o Sporting não tem nenhum lateral-esquerdo de top, mas as trocas consecutivas e as notícias de mais contratações em janeiro também só servem para desestabilizar Jefferson e Zeegelaar e para fazer com que eles pareçam ainda piores do que são. O drama criado à volta da ausência de Adrien é exagerado. Claro que ele é importante, mas Elias até regressou convicto de que vinha substituir Adrien, então dado como (quase) transferido. Por isso, mais do que questionar o valor de um jogador que ainda há pouco era titular no Brasil, importa perceber por que razão Elias parece jogar preso por um elástico a William. É que isso tem pouco ou nada a ver com as características de um médio que sempre se destacou por saber ‘queimar linhas’. Quando Jesus resolver esta tríplice, o mau tempo amaina.

*****Renato Sanches é de ouro

Para quem vendeu a ideia de que Renato Sanches era só um produto bem promovido (e melhor vendido), aí está o prémio ‘Golden Boy’. Ele merece estar onde já estiveram, entre outros, Messi, Rooney, Agüero e Götze, disse a maioria dos 30 jornalistas de diferentes países.

****Nasri recua e brilha

Nasri parece mais confortável desde que se mudou para Sevilha. Recuou um pouco no campo e está mais em jogo. Desaproveitado no City, aos 29 anos é um dos ídolos da principal revelação da liga espanhola.

***O Vitória de Martins

Pedro Martins está a construir uma equipa muito interessante em Guimarães. Com uma exibição categórica, foi ao Estoril firmar a terceira vitória fora de casa e segue nos calcanhares do vizinho Braga.

**O cavalete de Nuno

Mesmo descontando os sarrabiscos no cavalete, a palestra sobre a importância dos três ‘C’ resultou num improviso (mal preparado) equivoco (Nuno não quis, creio, desprezar o lado tático). As opiniões dividiram-se entre a lufada de ar fresco comunicacional e o decalque de manuais de autoajuda.

*Ninguém ri em Manchester

O tempo anda carregado em Manchester. Principalmente para Mourinho, que não consegue unir um United gastador, mas também para Guardiola, que somou o quinto jogo seguido sem ganhar nos ‘skyblue’. Por enquanto, ninguém ficou a rir.

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