Ludopédio

Bruno Prata
Bruno Prata

Jesus, o anti-herói

A debacle do Sporting em Vila do Conde estimulou uma série de reações, o que não é surpreendente se atendermos ao fiasco maiúsculo e a uma exibição que variou entre o conformismo e a impotência. Mas, mesmo descontando os olhares mais emocionais e epidérmicos, não foi por acaso que a generalidade das análises, mesmo as mais racionais e versadas, também reservaram um quinhão importante para fustigarem Jorge Jesus. E não se tratou tanto de discutir se as opções técnico-táticas do treinador contribuíram de forma decisiva para que o mesmo Sporting que, dias antes, quase obrigara o todo-poderoso Real Madrid a levantar a bandeira branca, logo acabasse vergado frente a um adversário que se remedeia com um orçamento de 4 milhões de euros. De facto, mais do que vergastarem a insistência em Bruno César como defesa-esquerdo e outras ‘minudências’ registadas frente ao Rio Ave, os julgamentos foram pontiagudos a alfinetar a conhecida soberba de Jorge Jesus. Nada de surpreendente. Os adeptos, os críticos e até os jogadores do Sporting têm memória e sabem que Jesus estava no banco do Benfica quando aconteceu o ‘minuto Kelvin’ e também sabem que ele se contradiz quando considera que, mais do que o valor dos plantéis, é ele a única Coca-Cola do deserto. Se fosse completamente assim, não teria tido necessidade de contratar quase três dezenas de jogadores desde que chegou a Alvalade. Se fosse como ele diz, o Sporting não teria investido 10 milhões em Bas Dost e rodado tantos centrais e laterais que já lhe perdemos a conta. E também não teria tido necessidade de duplicar os encargos com os salários do plantel principal (que já se tinham inflacionado no primeira ano). Jesus poderia cantar de galo se fizesse a diferença pegando, por exemplo, num plantel formado por jogadores desvalorizados ou ainda com a casca de ovo na cabeça, como aconteceu a Leonardo Jardim e a Marco Silva.

Tentar passar a ideia de que se é mais esperto do que todos os outrosnão é apenas pesporrência. De facto, nalgumas situações é mesmo uma tolice, principalmente se ocorre num momento em que toda a gente nos está a elogiar, como estava acontecer a Jesus. A exibição do Sporting em Madrid e o susto provocado ao Real glorificaram e deram mais projeção internacional ao treinador do Sporting do que muitos dos méritos que ele costuma reclamar só para si. Provam-no os elogios do treinador e dos jogadores adversários. Mas também os panegíricos que a imprensa internacional dedicou a um treinador que até tinha perdido, mas que acabara de provar no Santiago Bernabéu ser capaz de construir e instruir uma equipa competente, eficaz e capaz de jogar um futebol que entusiasma as bancadas. Jesus não é inigualável, mas é, de facto, um dos melhores treinadores da Europa, como de resto se faz pagar. Não é a primeira vez que o dizemos: hoje até é melhor treinador do que alguma vez foi no Benfica e nos muitos outros clubes que treinou. Porque já consegue que o seu futebol frenético não se desequilibre com demasiada frequência. Tem hoje conhecimento e experiência mais do que suficientes para treinar uma boa equipa europeia. E se ainda não o conseguiu, como é sua vontade, não é de excluir a possibilidade de estar a ser prejudicado pelos seus traços de caráter, designadamente a incapacidade emocional de gerir o sucesso (repararam que foi muito mais sensato e desportista após a derrota de domingo?). Os treinadores, como diria Valdano, "converteram-se em símbolos porque lhe damos uma importância gigantesca". Mas, por outro lado, eles não manejam todas as variáveis e 11 jogadores continuarão sempre a pesar definitivamente mais do que qualquer treinador, por muito bom que ele seja. Mas Jesus tem 62 anos, o seu caráter está irremediavelmente definido e não é crível que algum dia perceba a mensagem expressa nas palavras da vedeta argentina.


Esta opinião, importa sublinhar,não variou em função do que se passou em Vila do Conde. Não compro minimamente a ideia, ouvida aqui e ali, de que o Sporting pagou o desaforo que Jesus cometeu sobre os seus próprios jogadores. O Sporting sofreu três golos em menos de 45 minutos porque o ‘vírus’ da UEFA deixa mesmo marcas, porque, para resolver essa questão, Jesus usou jogadores ainda não suficientemente integrados no seu modelo de jogo, porque não arriscou usar outros (como Elias) que estão no mesmo processo e porque parece ter uma tendência masoquista quando escolhe o lateral-esquerdo. Mas, provavelmente, nada disto teria sido bastante se do outro lado não tivesse estado um treinador desassombrado e tenaz, como parece ser, cada vez mais, Nuno Capucho.

*****Tuchel adora Raphaël Guerreiro

Raphaël Guerreiro está a encher as medidas aos adeptos e o técnico do Borussia Dortmund, Thomas Tuchel, até diz que "é demasiado bom para jogar só numa posição". Leva cinco jogos, os dois últimos a titular no meio-campo, e tem um golo marcado.

****O Monaco é um Jardim

Leonardo Jardim já venceu o PSG em casa, o Tottenham em Londres e o seu Monaco segue na frente da Liga francesa (mais dois pontos que o Nice). Excelente para um técnico que até fez Falcão regressar aos golos.

***Griezmann é candidato

A luz de Griezmann brilha cada vez mais. Marcou dois golos no último jogo do At. Madrid na Liga Espanhola, Simeone diz que ele merece a Bola de Ouro e o ‘L’Équipe’ ajuda à missa dizendo que o francês "demonstra uma superioridade cada vez mais evidente".

**Pressão sobre NES

A derrota do Sporting amenizou um pouco o tropeção que o FC Porto deu em Tondela, mas Nuno Espírito Santo precisa de tornar rapidamente a sua equipa competitiva e regular nas exibições. As épocas não se ganham em setembro, mas podem perder-se.

*Os problemas de Mourinho

O Manchester United prometeu, mas está a jogar pouquinho e já vai na terceira derrota seguida. Mourinho tem problemas bicudos na defesa, Pogba ainda não justificou o investimento e o regresso de Rooney ao ataque torna o jogo pastoso.

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