Ludopédio

Bruno Prata
Bruno Prata

Mitroglou disfarçou disfunções

A inércia e diversos outros sintomas de desfalecimento pareciam ir a caminho de devastar o Benfica, mas o triunfo espinhoso registado em Braga poderá resultar numa espécie de salvo-conduto capaz de ajudar o tricampeão a recuperar a sua memória, o seu estilo e o seu futebol, o que pode vir a ser determinante no lanço final do campeonato. Mas não se iludam aqueles que normalmente são mais devotos e/ou só olham para o resultado: o Benfica já deu sinais suficientes de que tem mesmo um problema de processo no seu jogo. E não é por acaso que, tal como acontecera na receção ao Nacional (momento chave em que surgiu Jonas a dar dois pontapés na crise), no Minho também voltou a ser preciso um momento de invulgar inspiração individual (Mitroglou) para marcar a diferença. Alguns protagonistas mudaram, mas o Benfica mantém as vestimentas que usou durante o prolongado ciclo de Jorge Jesus. Para o bem e para o mal, a herança mantém-se bem patente e talvez isso até ajude a perceber por que razão os 36 anos de Luisão não têm atrapalhado a sua titularidade: ele já sabe a música de cor e, sempre que é preciso, corrige a partitura aos parceiros de sector (mesmo que seja mais difícil disfarçar que Lindelöf rende menos como central esquerdo). Mas se aí as perdas vão sendo mitigadas, no que respeita à construção e às movimentações ofensivas salta à vista que se avolumou a dependência da iniciativa individual. E é principalmente em resultado do débito de otimização coletiva que, em muitos momentos, o Benfica tem uma dificuldade confrangedora em gerir e controlar o jogo com a bola. Aqui e ali, até deu ideia de alguma convalescença neste capítulo, mas quando se esmiúça a mudança percebe-se que isso coincidiu invariavelmente com a titularidade simultânea de Zivkovic e Carrillo, como aconteceu frente ao Leixões, Vizela, V. Guimarães (para a Taça da Liga). Ou seja, a melhoria esporádica tem mais a ver com a natureza e as particularidades de alguns protagonistas do que com uma evolução do processo coletivo. O sérvio e o peruano (nos bons dias) são tão fortes no jogo combinativo que acabam por mudar um pouco a face à própria equipa, algo para o qual também contribuem a presença e as movimentações de Jonas. Ao invés, Salvio (como se voltou a ver em Braga) exacerba o futebol emancipado quando insiste em driblar todos os adversários que lhe surgem pela frente. Algumas vezes corre bem, como aconteceu domingo a Mitroglou, e aí os adeptos exultam, mas convém não confundir isso com a riqueza coletiva que se exige a uma equipa multifacetada e preparada para todo o tipo de duelos.

Dependente excessivamente do individual, o Benfica acusa como ninguém as variações de rendimento e de humor dos seus jogadores mais desequilibrantes, mas também daqueles que servem para lhe dar corpo e contextura, como é o caso de Fejsa, que ainda não voltou a ser o mesmo desde que esteve lesionado. E, quando isso acontece, parece que o Benfica perde grandeza, autoridade e talento. Não é bem isso e, de facto, o que lhe falta nesses momentos é fluidez e geometria, algo que só o treino exponencia. Claro que nem tudo é mau e o Benfica até tem, por norma, uma reação à perda de bola competente, algo que, sejamos justos, também está sempre associado ao que se ensaia durante a semana. É óbvio que os treinadores não devem castrar o talento individual, mas há problemas que só se ultrapassam com trabalho e organização coletiva. "Não posso permitir que um jogador a quem vou pedir tudo possa dizer que eu atuo de forma improvisada", disse um dia Bielsa. E quem não perceber do que estava a falar o técnico argentino que reveja o vídeo do recente confronto do Benfica com o Borussia, onde um golo de bola parada serviu para disfarçar uma má exibição. Sim, porque os alemães têm qualidade individual e coletiva para dar e vender, mas o Benfica também tem armas mais do que suficientes para oferecer outro tipo de oposição e de qualidade futebolística. É verdade que o resultado é que conta mais e que qualquer vitória na Champions sabe sempre a marisco. E melhor será não repetir uma exibição em que o Benfica fez muito pouco que o recomende. Mas, dir-me-ão, foi com boa parte dos defeitos e das virtudes atuais que o Benfica acumulou vitórias, ganhou o terceiro campeonato consecutivo e se encaminhou para ganhar o quarto (recebe o FC Porto e as viagens mais difíceis, a Alvalade, a Vila do Conde e ao Bessa, já são nas derradeiras cinco jornadas, quando a liderança funciona sempre como doping positivo). É verdade, mas isso só prova que a liga portuguesa é tão nivelada por baixo que, na maior parte das vezes, a riqueza individual do Benfica serve para que as disformidades coletivas nem chegam a ser postas a nu. Mas não é por acaso que o Benfica se transforma muitas vezes numa equipa inanimada e sofre sempre nos duelos com adversários de gabarito internacional.


Cinco estrelas -- Gameiro supersónico

Gameiro só precisou de 4 minutos e 45 segundos para fazer um hat trick (é o segundo mais rápido da história), feito conseguido no triunfo do A. Madrid em Gijón. Mas o ponta-de-lança confirmou ainda formar uma boa sociedade gaulesa com Griezmann: os dois marcaram quase 40% dos golos da equipa.

Quatro estrelas -- Bielsa garante adeptos ao Lille

Guardiola pode estar a exagerar quando diz que Bielsa é o melhor treinador do mundo, mas o regresso do argentino aos bancos é um excelente notícia para quem gosta de bom futebol e poses desassombradas. O Lille ganhou muitos adeptos.

Três estrelas -- Dortmund compra um monte

Os grandes clubes resolvem os problemas assim: insatisfeitos por verem que os jornalistas usavam uma colina para espiarem as sessões no centro de treinos, os dirigentes do B. Dortmund decidiram comprar toda a encosta. O clube vai pagar quase 327 mil euros pelo monte…

Duas estrelas -- Os milhões de Infantino

Gianni Infantino quer resolver o banditismo de Blatter na FIFA com talões de cheque: mantém a decisão de realizar no inverno o Mundial de 2022 no Qatar e, para calar os clubes que terão as suas ligas interrompidas, acena-lhes com uma indemnização de cerca de mil milhões de euros.

Uma estrela -- Incidentes em Braga
A massa adepta do Sp. Braga deu um pulo extraordinário à conta de uma política bem delineada. O reverso da medalha é a inflação de desordeiros. Mas o clube parece ter razão quando acusa a polícia de não ter antecipado os problemas na zona em que os adeptos se juntam.

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