Ludopédio

Bruno Prata
Bruno Prata

Mundial da verdade e do escudo a Putin

Se o futebol é a recuperação semanal da infância, um Campeonato do Mundo é como ganhar, de uma só vez, um carrinho de rolamentos, um pião, a coleção completa dos antigos Matchbox e, vá lá, a mais recente consola de jogos e ainda uma estada prolongada na Disneylândia. Depois de amanhã arranca a prazerosa overdose que, de quatro em quatro anos, nos corrompe durante um mês e que poderá ser consumida, de forma selvagem, até três vezes ao dia. Um descomedimento, dirão alguns, como se fosse possível estragar um delicioso sorvete só porque lhe colocamos em cima mais uma cobertura tripla de chocolate. Depois dos 868 jogos da qualificação e dos 2.454 golos em partidas em que participaram mais de 3 mil jogadores, está na hora de as 32 seleções sobreviventes (entre as 209 que iniciaram esta aventura em março de 2015) nos provarem que o futebol é mesmo, como diria Valdano, uma desculpa para nos fazer felizes. Serão 736 protagonistas de 32 seleções, dos quais 186 estiveram no Brasil (2014), 61 na África do Sul (2010), 21 na Alemanha (2006) e apenas um na Coreia do Sul/Japão (2002). O herói resistente é Rafa Márquez, que, aos 39 anos, se prepara para igualar os cinco Mundiais em que participaram o também mexicano Antonio Carbajal (1050-1962), o alemão Lothar Matthaus (1982-1998) e o italiano Gianluigi Buffon (1998-2014). O capitão mexicano divide com o argentino Javier Mascherano o registo de maior número de jogos (16) entre os que estão na Rússia, à frente de Messi (15) e Ozil (14). Não haverá, desta vez, Miroslav Klose, o avançado alemão que possui o recorde de golos (16) – entre os que jogarão o Mundial, a vantagem pertence ao alemão Muller (10) e ao colombiano James Rodríguez (6), melhor marcador no Brasil.

Se o Mundial de 1934 foi o da bola sem costuras, o de 38 o da rádio em direto, o de 54 da primeira transmissão televisiva, o de 66 do satélite (permitindo que o sinal chegasse a todo o Mundo, avanço decisivo até na rápida propagação das imagens mais icónicas de Eusébio), o Mundial de 2018 será o da estreia do vídeo-árbitro, uma excelente oportunidade para confirmarmos se a FIFA está a querer andar demasiado depressa ou se é a UEFA e a sua Liga dos Campeões que andam a passo de caracol. Há, por isso, justificadas expectativas de que se consagre como o Mundial da verdade (ou, melhor dizendo, com maior verdade) e com menos jogo violento, porque o VAR acabará sempre por ter um efeito dissuasor sobre jogadores como Luis Suárez, que volta a jogar um Campeonato do Mundo, o seu primeiro após o triste episódio da mordidela na orelha de Chiellini. O central da Juventus verá a prova no sofá, porque a Itália é a grande ausente (a par da Holanda e de um Chile que venceu as duas últimas Copas América), vítima que foi de uma Suécia que acabou por ser a grande surpresa nos playoffs. O Mundial, já se sabe, é sempre uma excelente oportunidade para provar a democraticidade do futebol. E a prová-lo aí está a ausência de uma China com mais de 1.300 milhões de habitantes, enquanto os pouco mais de 300 mil habitantes islandeses vão colorir as bancadas e festejar o seu primeiro Mundial, feito também garantido pelo Panamá. Por outro lado, o Mundial da Rússia será a penúltima triste herança deixada por uma depravada e corrupta FIFA nos tempos de Blatter e seus muchachos. Enquanto não chega a hora de o Qatar coletar o que também se diz ter pago por debaixo da mesa, o futebol vai servir de escudo a Putin, mais do que a uma Rússia onde convivem mais de 160 etnias (sete delas contam com mais de um milhão de habitantes). Vai ser muito interessante observar a sua interação com as 14 seleções europeias, cinco asiáticas, africanas e sul-americanas e três norte-americanas.

No papel, e olhando agora apenas para o lado desportivo, os favoritos são os de (quase) sempre: o ‘big four’ formado pelo Brasil (será mais de Tite ou de Neymar?), pela Espanha (com o tiki-taka agora de, imagine-se, Lopetegui), pela Argentina (onde Messi quer calar até Maradona…) e por uma Alemanha que vai tentar conseguir o bicampeonato, algo que não acontece desde o Chile/62, quando os brasileiros esgotaram a cachaça. Mas o seu favoritismo pode ser contrariado por contendores como a França, a Bélgica, a Inglaterra, o Uruguai, a Colômbia e Portugal, um campeão europeu que em Paris viu recompensado o seu lado estratégico e a sua organização e coesão defensiva, mais do que o futebol-champanhe. Mas a história dos Mundiais inventados por Jules Rimet acaba sempre por ser também muito feita pelos africanos, cujos desafiantes mais interessantes parecem ser, nesta edição, a Nigéria e o Senegal, enquanto a Tunísia irá tentar justificar o rótulo de ‘Itália de África’, no sentido mais perverso do ‘catenaccio’.


Os mais desconhecidos

Entre os 736 protagonistas do Mundial há apenas dois que jogam num clube
da 3.ª Divisão: o panamiano Ismael Díaz e o nigeriano Uzoho representam
o Deportivo Fabril, um clube filial do Deportivo da Corunha.


O mais velho e o mais novo

O guarda-redes El-Hadary, do Egito, pode tornar-se no jogador mais velho de sempre num Mundial. Tem quase 45 anos e pode bater o recorde do também guarda-redes Mondragós (Colômbia), que no Mundial’2014 tinha 43 anos. O australiano Arzani, com 19 anos, será o mais novo na Rússia.


Os mais representados

O Manchester City é o clube mais representado no Mundial, com 16 jogadores. A Suécia e o Senegal não apresentam nenhum jogador das suas ligas, enquanto todos os inscritos pela Inglaterra jogam na Premier League. A argentina é a nacionalidade mais representada entre os selecionadores: Cúper (Egito), Gareca (Peru), Pékerman (Colômbia) e, claro, Sampaoli (Argentina).


Os mais ausentes

Um Mundial também é sempre notícia pelos que ficam de fora. Uns porque as suas seleções falharam, como Bale (País de Gales), Robben (Holanda) ou Buffon (Itália); outros porque não foram suficientemente bons, como Götze (Alemanha) ou Morata (Espanha); outros ainda porque têm mau feitio, como Benzema (França); e outros finalmente porque tiveram azar, como o lesionado Dani Alves (Brasil).


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