Ludopédio

Bruno Prata
Bruno Prata

Ninguém muda de pele como o Real de Zidane

Zinedine Zidane converteu o Real Madrid numa incrível máquina de ganhar, o que não deixa de ser desconcertante num treinador que (ainda) não inventa táticas e que, mais do que uma ideia de jogo, parece ter a ardileza necessária para gerir e rentabilizar como ninguém um lote único de jogadores com qualidade hiperbólica. Foi com o seu eterno sorriso e com aquele discurso que tem tanto de aveludado como desarmante que o técnico francês ganhou nove títulos em apenas dois anos e meio, quatro deles esta época (Champions, Supertaça Europeia, Supertaça Espanhola e Mundial de Clubes). A tendência dos últimos 50 anos diz-nos que a esmagadora maioria dos grandes treinadores conseguiram os seus melhores êxitos nas etapas iniciais das suas carreiras. Mas o que o Zidane tem vindo a conseguir vai muito para além disso. Porque não é normal alguém que só tinha tido uma breve experiência no Castilha antes de ser chamado, em janeiro de 2016, para colar os cacos deixados por Benítez se tenha transformado num glutão capaz de bater todos os recordes de Ferguson, Guardiola, Mourinho, Del Bosque, Heynckes, Hitzfelfd ou Sacchi. Esta equipa venceu quatro Champions em cinco anos e, no historial da principal prova do calendário mundial de clubes, só perde para o Real de Di Stefano, Gento e Puskas, que dominaram nos primeiros cinco anos da competição. É verdade que, em Kiev, o Real sofreu a bom sofrer na primeira meia hora e, provavelmente, a história do jogo teria sido bem diversa se Sérgio Ramos não tivesse cometido uma falta (não assinalada) que nem no judo é permitida, por ser demasiado perigosa. E se a trágica lesão de Salah teve o condão de transtornar completamente o Liverpool (sem a bússola do egípcio que se gosta de se vestir de Messi, apenas Mané soube encontrar o Norte), os pés de Bale e as misérias e as mãos de manteiga de Karius (um guarda-redes há muito propenso ao acidente) fizeram o resto, como se a genialidade e o fado bom estivessem todo de um lado e a torpeza e a desdita do outro.

A verdade é que, nos últimos 11 anos, o Real Madrid ganhou quatro Champions, o dobro dos campeonatos espanhóis conquistados, o que tem permitido ao Barcelona encurtar substancialmente a desvantagem internamente (já soma 25 títulos, contra 33 do Real). A Liga dos Campeões tem-se tornado, cada vez mais, o território predileto dos madridistas, como se exercessem um direito natural. De facto, depois de ter falhado estrondosamente a nível interno, perdendo o campeonato e a Taça do Rei logo em janeiro, o Real voltou a ficar mais forte quando ativou o modus Champions e lá somou a terceira "orelhona" consecutiva, a quarta nos últimos cinco anos. Acaba assim em beleza uma época em que teve provavelmente os maiores momentos de crise de jogo e de resultados sob o comando de Zidane, também evidentes na Champions, designadamente quando terminou a fase de grupos atrás do Tottenham (com quem empatou no Bernabéu e claudicou em Wembley) ou quando teve de beneficiar das ajudas arbitrais para impedir a Juventus de conseguir uma remontada espetacular em Madrid. O Real Madrid é uma equipa com uma qualidade individual imbatível, mas, do ponto de vista coletivo, consegue concentrar todas as suas versões durante os 90 minutos de um jogo. Consegue jogar bem, mal e regular, passando num estalar de dedos de um fase em que é competitivo e encantador para outra em que é permissivo e vulnerável. Tem uma capacidade inaudita para mudar de pele e para dar sinais descontínuos, bem visíveis na angustiante eliminatória com o Bayern de Munique – e essa descontinuidade nota-se na forma como venceu fora a Juventus e o Bayern e empatou na casa do Barcelona e do Atético de Madrid e, por outro lado, não conseguiu ganhar a nenhum dos seis primeiros da liga espanhola no Bernabéu, onde também não venceu a Juve e o Bayern.

O Real era favorito em Kiev, mas menos do que na final de há um ano, quando terminou com sucesso uma época lendária. Do outro lado estava o futebol selvagem e cheio de adrenalina de um Liverpool que num dia bom pode ganhar (ou até golear qualquer um). Mas que ainda não é uma equipa suficientemente fiável e confiável, como voltou a ficar evidente no sábado. O Real também não é, mas continua a saber tirar partido de um treinador que sabe dar carinho a craques mimados e que foge dos holofotes e reparte os méritos – mal o jogo acabou em Kiev, e enquanto os suplentes corriam já para o relvado, o francês virou-se e caminhou para o banco para ir abraçar os seus ajudantes. Nunca veste o traje de craque – ele que foi um dos maiores de sempre.


CR7 foi inábil, mas tem razão


Mais do que o rótulo de narcisista e da propensão para o "divinismo infantil", de que também falou a imprensa espanhola, Ronaldo comprovou que é bem melhor a gerir a pressão nos relvados do que a governar o tempo e o modo das suas palavras. Insinuar que ia deixar o Real Madrid em plena "fiesta" de celebração do reinado europeu só serviu para dar razão a quem acha que usou o microfone para substituir o protagonismo que não teve em campo. Mas, percebendo-se o julgamento de carácter de um craque e de um goleador sem-par, importa também entender o que motivou a intervenção desajeitada. Ronaldo nunca foi um "filho pródigo" do atual presidente, que respeitou a custo o negócio deixado pelo antecessor Celderón (chegou a dizer que 96 milhões era demasiado por quem já era Bola de Ouro e campeão europeu no United). E, entre outras indelicadezas (algumas nunca reveladas e bem graves), nunca lhe facilitou a renovação dos contratos (Messi já vai na nona). "Se queres sair, traz o dinheiro para eu contratar o Messi", chegou a responder-lhe uma vez. Ronaldo chegou a ir sozinho a uma gala da UEFA, enquanto Messi e Iniesta tinham o apoio de Sandro Rossel. Cr7 foi o melhor marcador da Champions pela sétima vez (sexta consecutiva) e marcou 450 golos em 438 jogos em Madrid, mas ganha 23 milhões de euros/ano, enquanto Neymar recebe 30 e Messi 40. Após a final de Cardiff, Florentino prometeu retificar a situação. Antes de o fazer preferiu elogiar Neymar numa gala de entronização a Ronaldo, que finalmente lá recebeu a proposta de aumento, mas parte dela sujeita à obtenção de objetivos individuais e coletivos, algo que CR7 considerou indecente. E há ainda que resolver o problema fiscal, que terá de ser assumido pelo Real (mesmo que não o assuma), como fez com todos os outros jogadores com o mesmo problema (por muito que isso não seja dito, a verdade é que a situação resulta não só do facto de o fisco ter mudado as regras com efeitos retroativos, mas também por o esquema ser incentivado pelos clubes, os principais beneficiados). Ronaldo foi inábil, mas tem razão.



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